O Envelhecer sob a Luz do Suficiente

O Envelhecer sob a Luz do Suficiente

Ter tido a mocidade, por si só, já era dádiva suficiente, o que vier depois, é acréscimo, não subtração. As perdas atravessam a vida inteira.


Vamos, não chores
A infância está perdida
A mocidade está perdida
Mas a vida não se perdeu

Carlos Drummond de Andrade escreveu “Consolo na Praia” durante sua chamada fase social, um momento de forte angústia marcado pelo contexto sombrio da Segunda Guerra Mundial e pela repressão do Estado Novo no Brasil. Publicado em A Rosa do Povo, de 1945, o poema não é o de quem já resolveu as contas com a vida, mas o de quem aprendeu a perguntar sem exigir respostas imediatas. É a partir do apelo urgente dessa estrofe de abertura, que reconhece as subtrações da existência sem se render a elas, que o poeta fala, e é desse limiar que este ensaio parte.

Em “Consolo na Praia”, não nos é oferecido um otimismo brando; a obra, antes, pode ser lida como um convite ao mundo interior, dimensão onde o essencial pode emergir. A praia drummondiana é o limiar onde o mundo exterior parece estancar e o tempo cronológico perde a razão de ser. Estar “nu na areia, no vento” antecipa uma morte simbólica necessária.

A voz lírica se dirige ao leitor em segunda pessoa (como em “vamos, não chores” e “tens um cão”), como se um eco interno se voltasse para a parte exausta de si mesmo. É o Self falando ao ego que desmorona: não uma voz externa de consolo, mas a sabedoria do seu deus interno. Na psicologia analítica de Carl Jung, o Self (Si Mesmo) é o centro regulador da psique, mais amplo e denso do que o ego consciente. É a instância que orienta o desenvolvimento da individuação: o movimento de tornar-se inteiramente quem se é.

Na perspectiva iorubá, esse cenário evoca as profundezas de um abismo de Olokun: um domínio psíquico e existencial escuro, para onde escoam as nossas perdas e onde guardamos as partes descartadas de nós mesmos. São os fragmentos do passado, os afetos que se foram e as nossas sombras, conteúdos que a sociedade, a família e nós mesmos consideramos inadequados para exibir na superfície. No entanto, é precisamente nesse fundo oceânico, onde o eu se desmancha, que residem os tesouros e os recursos para a renovação. Trata-se de um chamado dialético e desafiador a estar simultaneamente no consciente e na imensidão do inconsciente.

O que mais nos afasta de encarar o envelhecer é o medo das perdas e da finitude que elas anunciam. A velhice assusta porque parece concentrar em si todas as subtrações, como se fosse ela a grande responsável por esse esvaziamento. Mas as perdas não esperam a idade avançada: elas atravessam a vida inteira, presentes em cada fase, silenciosas ou escancaradas. O engano está em reservar à velhice aquilo que é, na verdade, condição da própria existência.

A sociedade contemporânea transformou a produção ininterrupta em imperativo vital: qualquer sinal de vulnerabilidade passa a ser visto como ameaça. Até que ponto esse ritmo frenético gera um estresse crônico capaz de violar o envelhecimento em suas dimensões biológica, psicológica e social? O declínio do tempo, assim, passa a ser temido como o fracasso definitivo da eficiência. Enquanto enxergamos as dores apenas como experiências negativas a serem superadas, permanecemos cegos à sua função vital: a de guias internos.

Na tradição judaica, o Dayenu (literalmente “já seria suficiente”) é o canto entoado na Páscoa para reconhecer que cada graça recebida, mesmo isolada, já justificaria a gratidão. Aplicado à existência, o princípio inverte a lógica do acúmulo: em vez de perguntar o que ainda falta, reafirma o que já foi dado. É nesse cenário de exaustão que ele atua como um ato de insurreição. Olokun guarda o abismo, mas o Dayenu delimita a margem. Olhar para a própria história sob essa ótica nos obriga a desarmar a engrenagem do “sempre mais”. Diante de cada meta inalcançável e de cada cobrança social, o Dayenu nos convida a interrogar a própria alma: “Eu queria mais, mas esse desejo é genuinamente meu ou é apenas a pressa do mundo ecoando em mim? O que eu já consegui e o que eu já vivi não seria o bastante para pacificar o meu ser?”

Se, em vez de rejeitarmos a dor e a desaceleração, conseguirmos sustentar a angústia que emerge nesses momentos de crise, horizontes valiosos de aprendizado e cura podem se revelar. Nesse contexto, curar-se não significa eliminar o sintoma, mas assumir o compromisso de cuidar de si, direcionando o olhar para a própria interioridade. Trata-se de um ato corajoso de escutar e confrontar as sombras que, até então, permaneciam ocultas à nossa consciência. O poeta traduz essa tensão em versos que expõem a crueza dos golpes cotidianos:

Algumas palavras duras
Em voz mansa, te golpeara
Nunca, nunca cicatrizam
Mas e o humor?

A injustiça não se resolve
À sombra do mundo errado
Murmuraste um protesto tímido
Mas virão outros

É nessa fratura que o autor aprofunda o levantamento da vida. Esse espaço de sofrimento necessita ser ouvido e acolhido, pois se manifesta como um legítimo apelo da alma. Enquanto a Grécia Antiga dava um lugar sagrado a essa dimensão sombria, a modernidade, em contrapartida, impõe a ditadura de uma positividade superficial. Hoje, a escuridão é imediatamente associada ao fracasso, alimentando a ilusão de uma vida linearmente feliz, onde o submundo deve ser evitado a qualquer custo.

Contudo, quando começamos a decifrar as constantes da nossa história, os padrões que se repetem, os medos que retornam sob novas formas, os nós que nunca foram desatados, algo se move: os ensinamentos que estavam à espera de reconhecimento finalmente ganham voz. Quando deixamos de combater o sofrimento e passamos a escutá-lo, ele revela o que a superfície esconde: a matéria-bruta da qual a renovação é feita. Embora sejamos impotentes diante da sua inevitabilidade, nos resta a escolha de construir com ele uma aliança consciente.

Descer ao reino de Olokun sem uma estrutura psíquica firme é flertar com o naufrágio definitivo. Essa jornada pelas profundezas exige um ego paradoxalmente robusto, não rígido ou inflado, mas flexível o bastante para testemunhar a queda das próprias ilusões sem se fragmentar. É a diferença entre ser arrastado pela correnteza e aprender a nadar nela.

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Evidentemente, essa travessia está longe de ser simples. Habitar tal dimensão exige uma interrupção decidida do ritmo cotidiano para que possamos olhar no espelho e encarar quem estamos sendo no presente. Trata-se de um mergulho que não demanda isolamento: o suporte de amigos e o acompanhamento terapêutico são fundamentais justamente para nos ajudar a sustentar o ego enquanto esse vazio nos convida à introspecção. A diretriz reside na capacidade de encontrar e atribuir novos significados às transformações geradas. É quando Drummond pontua a contabilidade implacável do tempo:

O primeiro amor passou
O segundo amor passou
O terceiro amor passou
Mas o coração continua

Perdeste o melhor amigo
Não tentaste qualquer viagem
Não possuis carro, navio, terra
Mas tens um cão

É na estrofe dos amores perdidos que o cálculo das perdas atinge seu ponto mais cruel, e é lá onde o Dayenu encontra seu teste mais difícil. É justamente nesse terreno onde a tristeza cumpre sua função que a prática se revela em toda a sua potência de sobrevivência e resistência. O princípio do suficiente não opera na anestesia; ele pressupõe o luto.

Aplicado à nossa linha do tempo, o Dayenu ressignifica o próprio acúmulo de danos que abre a composição. Diante do veredicto inicial do poema de que a infância e a juventude se perderam, a mente estressada pelo produtivismo enxerga ali apenas um saldo negativo, um roubo das horas. Mas a filosofia do suficiente sussurra o oposto: se tivesses caminhado apenas por essas duas estações, sem mais nada além delas, a jornada já teria valido a pena. Essa visão altera a métrica: não basta reconhecer que as perdas pertencem à vida toda, é preciso ir além e afirmar que cada fase, com a intensidade e as dores que lhe foram próprias, já carregou propósito pleno. O tempo percorrido deixa de ser uma falta crônica e passa a ser uma fundação. Quando aceitamos que o caminho trilhado foi o bastante para nos trazer até aqui, blindamos o passado da idealização e o presente do desespero. Sem essa âncora, o peso dos vazios se torna insuportável, restando apenas o convite final à rendição:

Tudo somado
Devias precipitar-te, de vez, nas águas
Estás nu na areia, no vento
Dorme, meu filho

É quando esse balanço se fecha que a obra revela sua força mais sombria. Dizer “foi o bastante” significa reconhecer que a finitude não retira o valor do que foi experienciado. Se o afeto terminou, ainda que breve, a sua mera existência já se justifica. É o que permite ao autor constatar que, apesar de tudo, “o coração continua”.

O Dayenu, portanto, é um laço firme na dureza da realidade. Na falta do navio para navegar rumo ao futuro idealizado pela performance, ou da terra para se fixar no passado melancólico, o princípio do suficiente valida o cão. Psicologicamente, o animal é o instinto puro e a presença absoluta. Enquanto a mente hiperativa do eu consciente adoece ao calcular as exigências do mundo exterior, o cão habita o aqui e agora. Diante do desmoronamento das certezas, ele é o elo que nos mantém conectados à vida em sua camada mais elementar, orgânica e honesta.

Ao resgatar o humor diante do golpe das palavras duras e ao aceitar a companhia do cão na ausência da terra firme, os versos nos entregam o verdadeiro consolo. Não por acaso, expõem a nossa nudez mais primitiva perante a natureza. Para além de qualquer perda nomeada, há um corpo entregue aos elementos, desprovido de qualquer armadura. Envelhecer é, antes de tudo, isso: perceber que a carne e a matéria deixaram de ser invisíveis para si mesmas.

O verso final, “dorme, meu filho”, não é uma derrota. É o único consolo que não mente: o descanso como ato de resistência, o silêncio como recusa à exigência de produção até o fim. Dormir, aqui, é o Dayenu em sua forma mais radical, a aceitação de que o suficiente, por hoje, já foi. Não se trata de uma felicidade forjada ou imune à dor, mas da paz conquistada ao acolher o fragmento que resta na margem como solo legítimo para continuar vivendo. É nessa escuridão silenciosa, longe das aparências da superfície, que as ilusões se dissolvem. Ao tocar esse chão mais íntimo, o abismo deixa de ser ameaça e torna-se fértil. Emergimos de volta à terra transformados: não mais como náufragos do tempo, mas com a calma soberana de quem aprendeu a existir sob a pressão das próprias profundezas.

Referências
LAPRADE, Joanna. Arquétipos da Sombra: Uma jornada de aceitação e transformação pessoal por meio dos mitos gregos do submundo. Tradução: Hugo Moraes. 1. ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2023.
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Foto de Priscilla Cezar/Pexel


foto de um ambiente de casa, na penumbra, anunciando curso sobre adaptações ambientais.
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Silmara Simmelink

Psicodramatista formada pela Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

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Psicodramatista formada pela Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

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