A prática política de Dona Glória se manifesta nas relações diárias, na escuta atenta das famílias, na mediação de conflitos e na articulação de soluções.
“Quero ser lembrada como alguém que deu o melhor de si pelo bem comum.” (Dona Glória)
No extremo sul da cidade de São Paulo, uma mulher de 76 anos carrega nas mãos, na fala firme e na história de vida, a memória viva da resistência periférica. Glória Atibaia, conhecida como Dona Glória, é mais do que uma liderança comunitária: é símbolo da luta cotidiana de tantas mulheres negras que, mesmo sem cargos ou títulos, constroem redes de solidariedade e reivindicam dignidade para suas comunidades.
Uma infância de escassez, uma vida de mobilização
Nascida em 15 de agosto de 1948, em Pirajuí (SP), Dona Glória guarda lembranças vívidas de uma infância marcada pelo trabalho na roça e pela dureza da vida no interior. “Naquele tempo era tudo sofrido. Não é como hoje. Para ter o mínimo, a gente trabalhava na roça”, recorda.
Aos 18 anos, deixou sua cidade natal e migrou para São Paulo, iniciando a vida na capital como empregada doméstica, morando na casa da patroa. Mais tarde, morou no Jabaquara, trabalhando em outras ocupações.
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Em 1979, já casada e com o primeiro filho, mudou-se para o Jardim Herplin, bairro que ainda não tinha água encanada, transporte público ou asfalto. “Só mato e lama. Para pegar ônibus, era preciso andar muito”, conta.
Lavar roupa como protesto
A ausência de infraestrutura básica no bairro foi o estopim para que Dona Glória assumisse um papel ativo na organização comunitária. Um dos episódios mais marcantes de sua trajetória ocorreu quando as mulheres do bairro levaram trouxas de roupas sujas até a sede da Prefeitura de São Paulo. O gesto simbólico ganhou força e visibilidade.
“Tava tudo sujo. A gente não tinha onde lavar roupa. A gente fez um protesto e levamos trouxas de roupa suja lá na porta da prefeitura. Aí veio água pra cá.”
Desde então, Dona Glória não parou. Participava de protestos, organizava abaixo-assinados e mobilizava vizinhos para reivindicar melhorias. “Muitas vezes, voltávamos andando de madrugada”, relembra. As conquistas começaram a surgir, e até seu marido, que inicialmente implicava com sua militância, acabou se acostumando.
Solidariedade como missão
Em 1996, outro acontecimento a marcou profundamente: um menino desmaiou de fome no ponto final de ônibus do Jardim Herplin. Dona Glória, a caminho do trabalho, interrompeu seus planos e saiu pedindo comida de porta em porta. A cena deu origem a uma nova missão: organizar ações para combater a fome e o abandono.
Foi nesse espírito que surgiu o grupo Mulheres de Luta, formado por mulheres da comunidade, apoiado por entidades como o Centro Cultural Santa Teresinha e o Grupo de Base de São Condado. “O grupo Mulheres de Luta é um grupo de mulheres pobres, mas com coragem e consciência. Tiramos leite de pedra. Vamos atrás”, afirma.
“Fiz tudo isso sem cargo. Não preciso ser presidente, só preciso lutar.”
A creche como símbolo de conquista
A falta de creches era outro problema crônico no bairro. Crianças pequenas ficavam sob os cuidados improvisados de uma freira, nos fundos de uma igreja, sem qualquer estrutura. Indignadas com a situação, as mulheres decidiram agir. Com a permissão de um morador, ocuparam simbolicamente um galpão e pediram que ele dissesse à Prefeitura que o espaço havia sido invadido.
Em apenas três dias, elas reuniram 1.200 assinaturas de famílias exigindo uma creche. Mesmo diante da resistência inicial da administração pública, seguiram firmes. Buscaram a mídia, pressionaram o poder público e resistiram por dois meses. Até que veio a resposta: a então prefeita Marta Suplicy determinou a construção da unidade, inaugurada em 2004, sob o nome Creche Força e Ação, em homenagem ao grupo.
Política do cotidiano
Dona Glória nunca se filiou a partidos. Sua prática política se manifesta nas relações diárias, na escuta atenta das famílias, na mediação de conflitos e na articulação de soluções. Em 2011, seu grupo recebeu apoio da então primeira-dama do Estado, Lu Alckmin, durante o mandato de Geraldo Alckmin como governador.
Desde então, passaram a oferecer oficinas de padaria, artesanato, corte de cabelo, atendimento psicológico e articulação de vagas em programas de moradia. Hoje, seguem atendendo de 30 a 40 famílias com ações diretas.
“Me viro bem com o Lula, da esquerda, e com o Sansão, da direita. A gente analisa quem vota nas coisas boas. E na eleição, a gente corre pra cima!”, diz ela, rindo.
Racismo e desigualdade: feridas abertas
Dona Glória não romantiza a trajetória. Sabe que a pobreza e o racismo estrutural moldaram e ainda moldam os caminhos da população negra nas periferias brasileiras.
“Para nós, que somos pobres, já é difícil. Mas para quem é negro, é ainda mais. A gente já nasce com desvantagem. Viemos da escravidão, e depois disseram que estávamos livres, mas como é liberdade se saímos sem nada, sem estudo, sem salário pelo tempo que trabalharam à força?”
“É por isso que a maioria das periferias ainda hoje tem tão pouco. É onde estão os que foram deixados para trás. A gente luta por tudo. E para os negros, essa luta é ainda mais pesada. Porque, desde a escravidão, começamos do zero, com as mãos atadas. Parece que a gente está sempre na base da pirâmide, porque nosso tempo foi roubado. E até hoje a gente corre atrás dele.”
Dedicação de Dona Glória
Hoje viúva, mãe de dois filhos e avó de um neto, Dona Glória continua atuando no grupo Mulheres de Luta, mesmo quando o corpo pede descanso.
“Tô aqui toda semana ajudando. Tem hora que o corpo cansa, mas o povo precisa, né?”
Sua presença é um elo entre gerações, e seu trabalho reverbera na vida de muitas pessoas. Alexsandra, por exemplo, perdeu a casa durante obras de canalização no bairro. Com duas filhas pequenas, encontrou apoio no grupo liderado por Dona Glória.
Dona Glória formalizou o grupo Mulheres de Luta, passando a presidência à nora, Raimunda Mota, e assumindo a vice-presidência. Cuida da saúde com apoio de amigas médicas para tratar uma infecção bacteriana, também mantém sua espiritualidade com orações e banhos energéticos.
Com humor e lucidez, encerra a conversa com um comentário que sintetiza o peso e o valor de sua trajetória:
“Aqui no Herplin tem suor, lágrima e dinheiro meu. Eu brinco: se o Jardim Herplin me devolvesse tudo que investi, eu já teria comprado uma BMW zerada.”
Fonte
PERIFERIA EM MOVIMENTO. Do protesto com trouxas de roupa à conquista da creche: A luta de Dona Glória no Jardim Herplin. São Paulo, 17 jul. 2025. Disponível em: https://periferiaemmovimento.com.br/donagloria17072025julhodaspretas/
(*) Sob orientação de Beltrina Côrte – Jornalista, CEO do Portal do Envelhecimento. E-mail: beltrina@portaldoenvelhecimento.com.br
Foto: Vitori Jumapili
