A natureza no cuidado da dor

A natureza no cuidado da dor

Evidências científicas reunidas em reportagem indicam que o ambiente pode influenciar a experiência da dor e ampliar as formas de cuidado ao envelhecer.


A dor é hoje reconhecida como um dos principais fatores de perda de qualidade de vida no envelhecimento, mais do que um sintoma isolado, ela atravessa o cotidiano, limita movimentos, altera o humor e compromete a autonomia.

Em pessoas idosas, a dor crônica costuma estar associada a condições musculoesqueléticas, doenças articulares, lesões acumuladas ao longo da vida e enfermidades crônicas, tornando-se parte constante da experiência de viver.

Não por acaso, o debate contemporâneo sobre dor vem se afastando de explicações exclusivamente biológicas e passando a considerar o contexto emocional, social e ambiental em que o sofrimento se instala.

A Organização Mundial da Saúde publicou o Desenvolvimento de diretrizes da OMS sobre o tratamento da lombalgia primária crônica em adultos”  explicando o manejo não cirúrgico da dor lombar crônica primária em adultos na atenção primária e comunitária, documento baseado em evidências que reconhece a importância de abordagens integradas no cuidado à dor persistente.

Embora o foco esteja nas práticas clínicas, o texto reforça que a dor crônica não pode ser enfrentada apenas com medicamentos ou procedimentos, mas exige atenção ao bem-estar global, à funcionalidade e às condições de vida das pessoas, um ponto especialmente relevante no envelhecimento.

É nesse cenário que a natureza e o meio ambiente passam a ganhar destaque,  recentemente, a matéria “Natureza pode ajudar a diminuir dores e lesões”, publicada pela Deutsche Welle (DW) e assinada pela jornalista Tamsin Walker, reuniu evidências científicas que apontam para o papel da natureza como aliada no alívio da dor.

O texto apresenta pesquisas que investigam como o contato com paisagens naturais (reais ou mediadas por tecnologia) pode interferir na forma como o cérebro processa o sofrimento físico, abrindo caminho para uma compreensão mais ampla do cuidado.

Entre esses estudos está o artigo “A exposição à natureza induz efeitos analgésicos ao atuar no processamento neural relacionado à nocicepção”, publicado na revista Nature Communications. A pesquisa demonstra que observar cenas naturais reduz não apenas a percepção subjetiva da dor, mas também a atividade cerebral associada à nocicepção, ou seja, ao processamento neural básico do estímulo doloroso. Os resultados indicam que a natureza pode atuar diretamente nos circuitos sensoriais do cérebro, e não apenas como um elemento de distração ou conforto psicológico.

Outras investigações seguem a mesma direção, algumas pesquisas conduzidas pela Universidade de Exeter (University of Exeter), divulgadas em veículos científicos de referência, analisaram o uso de experiências imersivas em realidade virtual com paisagens naturais (como florestas, rios e cachoeiras) e observaram redução significativa da dor relatada pelos participantes.

Em alguns casos, o efeito foi comparável ao de analgésicos de curto prazo, com impacto que se manteve mesmo após o fim da exposição. Reforçando a ideia de que o ambiente, mesmo quando mediado por tecnologia, pode ativar mecanismos internos de modulação da dor.

floresta ao amanhecer, em tom azulado, e com várias borboletas azuis claras.
Imagem: pexels-pixabay

Como a natureza atua sobre a dor

A partir desse conjunto de evidências, especialistas em psicologia ambiental, neurociência e saúde coletiva passaram a identificar diferentes mecanismos pelos quais a natureza pode influenciar a experiência dolorosa. Esses processos não atuam de forma isolada, mas se combinam e se reforçam, ajudando a explicar por que o contato com ambientes naturais pode aliviar o sofrimento físico, especialmente em contextos de dor crônica e envelhecimento.

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Modulação sensorial: como demonstrado pela neuroimagem, cenários naturais podem diminuir a ativação de redes neuronais envolvidas na codificação da dor nociceptiva, alterando diretamente a experiência física do sofrimento;

Resposta emocional e cognitiva: ambientes naturais tendem a reduzir estresse, ansiedade e emoções negativas, que estão fortemente associados ao pior desempenho diante da dor;

Atenção restauradora: a simples observação de elementos naturais pode alterar a atenção do indivíduo, desviando‑a de focos de desconforto e permitindo que o cérebro entre em estados de descanso cognitivo, o que influencia positivamente a experiência de dor.

 Esses três mecanismos — sensorial, emocional e atencional — ajudam a compreender por que a natureza vem sendo cada vez mais discutida como parte de abordagens integradas de cuidado. Não se trata de substituir tratamentos médicos, mas de ampliar o repertório de estratégias capazes de promover bem-estar e qualidade de vida.

Natureza como cuidado

As implicações dessas descobertas ultrapassam o campo individual e alcançam o debate sobre políticas públicas e planejamento urbano. Se ambientes naturais produzem efeitos mensuráveis sobre a dor e o bem-estar, então sua presença ou ausência torna-se uma questão de saúde coletiva. Parques acessíveis, áreas verdes seguras, projetos de terapia verde em hospitais e centros de reabilitação, além da integração do meio ambiente aos planos de envelhecimento ativo, passam a ser vistos como investimentos em cuidado, e não apenas em lazer ou paisagismo.

Especialistas em saúde, fisioterapia e saúde mental destacam que essas estratégias devem ser compreendidas como complementares aos tratamentos tradicionais. Para quem envelhece convivendo com dor crônica, a possibilidade de encontrar alívio também no ambiente em que vive amplia o horizonte do cuidado e reafirma uma ideia fundamental: saúde não se constrói apenas entre paredes, mas também nos territórios, nas relações e nos espaços que acolhem o corpo ao longo da vida.

Referências
Organização Mundial Da Saúde (Oms). Desenvolvimento de diretrizes da OMS sobre o tratamento da lombalgia primária crônica em adultos. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.who.int/teams/maternal-newborn-child-adolescent-health-and-ageing/ageing-and-health/integrated-care-for-older-people-icope/development-of-who-guideline-on-management-of-chronic-primary-low-back-pain-in-adults. Acesso em: 17 dez. 2025.
Walker, Tamsin. Natureza pode ajudar a diminuir dores e lesões. Deutsche Welle Brasil, Bonn, 2025. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/natureza-pode-ajudar-a-diminuir-dores-e-les%C3%B5es/a-72616016?maca=bra-newsletter_br_Destaques-2362-xml-newsletter&at_medium=Newsletter&at_campaign=PT_BR%20-%20Destaques&at_dw_language=pt_BR&at_number=20250526&r=5736145264582334&lid=3456434&pm_ln=296769. Acesso em: 17 dez. 2025.
Mallinson, Tim et al. A exposição à natureza induz efeitos analgésicos ao atuar no processamento neural relacionado à nocicepção. Nature Communications, Londres, v. 16, 2025. Disponível em:https://www.nature.com/articles/s41467-025-56870-2. Acesso em: 17 dez. 2025.
Mallinson, Tim et al. Nature exposure induces analgesic effects by acting on nociception-related neural processing. PubMed, Bethesda, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40082419/. Acesso em: 17 dez. 2025.

(*) Sob orientação de Beltrina Côrte – Jornalista, CEO do Portal do Envelhecimento. E-mail: beltrina@portaldoenvelhecimento.com.br

Foto de Zafer Erdoğan/pexels.


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Ana Beatriz Ferraz
Ana Beatriz S. Ferraz

Ana Beatriz S. Ferraz é bacharelanda em Gerontologia pela Universidade de São Paulo. Atualmente é estagiária no Portal do Envelhecimento e Longeviver. www.linkedin.com/in/ana-beatriz-s-ferraz-a3a7a2132.

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Ana Beatriz S. Ferraz é bacharelanda em Gerontologia pela Universidade de São Paulo. Atualmente é estagiária no Portal do Envelhecimento e Longeviver. www.linkedin.com/in/ana-beatriz-s-ferraz-a3a7a2132.

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