A solidão está entre os fatores de risco modificáveis para o declínio cognitivo e as demências, ao contrário de aspectos como a idade e a carga genética.
A pessoa idosa mais sozinha que você conhece pode ser aquela cercada de gente. Sabe o almoço de domingo? Casa cheia, netos correndo, mesa posta para dez. No meio disso, alguém que sorri, conversa, prepara a comida, só que ainda assim, carrega uma solidão invisível perante os olhos das outras pessoas.
Vejam, solidão não é sinônimo de casa vazia. No dia a dia, é comum a sociedade tratá-la como isolamento social e solitude, mas na prática, são três fenômenos distintos.
O isolamento social é um dado palpável: quantas pessoas fazem parte da vida de alguém e com que frequência os encontros acontecem.
A solitude é o tempo sozinho que se escolhe, não o que se sofre.
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Já a solidão não obedece a essas lógicas. É a distância percebida entre o vínculo que a pessoa tem e o que gostaria de ter, uma medida subjetiva, que não aparece em exame de sangue. Por isso, dá para ter a agenda cheia e ainda se sentir só.
Os sinais de solidão podem ser confundidos com mau humor, sintomas físicos ou “coisas da idade” (idadismo). Por isso, alguns comportamentos merecem atenção e investigação:
– Deixar, aos poucos, de fazer atividades e de manter contatos que antes traziam prazer;
– Passar a cuidar menos de si;
– Apresentar queixas físicas frequentes, sem uma causa identificada;
– Mudar repentinamente a rotina após situações como viuvez, aposentadoria ou mudança de casa.
Um dado relevante, ainda pouco conhecido pela população, é que a solidão está entre os fatores de risco modificáveis para o declínio cognitivo e as demências, ao contrário de aspectos como a idade e a carga genética, sobre os quais não há possibilidade de intervenção. Pessoas idosas em situação de solidão crônica apresentam risco aumentado de declínio cognitivo, depressão e ansiedade. Não por acaso, a Organização Mundial da Saúde já a reconhece formalmente como uma questão de saúde pública, e não como um desconforto emocional isolado ou transitório.
Existem formas de prevenir e reduzir a solidão que já são reconhecidas pela ciência e utilizadas pelos profissionais:
Fortalecer a rede de apoio: manter familiares, amigos, vizinhos e profissionais presentes no cotidiano.
Incentivar atividades significativas: considerar a história, os interesses e as preferências de cada pessoa.
Promover a inclusão digital: utilizar a tecnologia para manter o contato com pessoas distantes.
Utilizar a prescrição social: além dos medicamentos, quando necessários, o profissional pode encaminhar a pessoa para grupos, oficinas e serviços da comunidade. Dessa forma, os vínculos sociais também passam a fazer parte do cuidado.
Sob a perspectiva do cuidado, a solidão e o isolamento social se manifestam de forma profunda e interligada. Por um lado, a pessoa idosa com vulnerabilidade clínico-funcional tende a se isolar em sua residência devido ao avanço da fragilidade. Concomitantemente, quem assume o papel de principal cuidador, frequentemente em um contexto informal, também vivencia um processo silencioso de solidão e isolamento: a rotina do cuidado demanda tempo, dedicação e energia integrais por parte do cuidador.
Além disso, a família desempenha um duplo papel nesse cenário. Embora seja um importante fator protetor contra a solidão, a dinâmica familiar também pode se tornar um fator de risco. O cuidado informal prestado sem orientação e apoio profissional pode levar, ainda que de forma involuntária, a ações que invalidam a autonomia e a independência da pessoa idosa, visto que o cuidador não tem o conhecimento formal para lidar com as especificidades do envelhecimento.
A Teoria da Seletividade Socioemocional (TSE) (Charles & Carstensen, 2010) aborda a relação do tempo com as relações sociais. Enquanto, na juventude, há a percepção de que o tempo é infinito, o que estimula a busca por amplas redes sociais, na velhice ocorre o contrário: a conscientização sobre a limitação do tempo faz com que as pessoas idosas estreitem seus círculos sociais e se restrinjam a menos relacionamentos, porém mais significativos e de maior qualidade.
Sobretudo no contexto de pesquisas que evidenciam como o estresse atua negativamente na saúde de modo geral (Kassel, Stroud & Paronis, 2003, citado por Umberson & Montez, 2010), entende-se que a qualidade dos vínculos é muito mais valiosa do que a quantidade de relacionamentos. A solidão traz impactos graves para o organismo de modo geral, sendo considerada um importante fator de risco para a saúde global (The Lancet, 2023). Portanto, estimular a socialização sem considerar o pertencimento não soluciona o problema; o verdadeiro fator protetor está em conexões interpessoais genuínas e afetivas.
Dessa forma, há uma clara corresponsabilização por parte dos profissionais e dos serviços de saúde e assistência social em identificar as pessoas idosas em isolamento social. O primeiro acolhimento pode ocorrer por meio de qualquer profissional da rede. A partir disso, a equipe multiprofissional direcionará a pessoa idosa para os serviços e atividades que melhor se adequem ao seu momento de vida, levando em consideração sua rotina, seus desejos, suas necessidades e seus valores individuais. O objetivo não é impor atividades ou socializações em grupo, mas sim construir um plano de cuidado efetivo para o indivíduo.
A promoção da conexão social está diretamente relacionada à qualidade de vida e à saúde pública. Como os laços sociais positivos promovem bem-estar e favorecem a saúde física e mental, a resposta ao isolamento social deixa de ser apenas individual e passa a ser coletiva. Cabe à gestão, aos serviços e às políticas públicas organizarem ambientes favoráveis ao desenvolvimento de relações sociais satisfatórias.
Referências
BIERNATH, André. Por que a solidão virou uma das grandes preocupações de saúde do século 21. BBC News Brasil, 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cd145rv214ko. Acesso em: 21 ago. 2026.
CHARLES, Susan T.; CARSTENSEN, Laura L. Social and emotional aging. Annual Review of Psychology, v. 61, p. 383–409, 2010. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8599276/. Acesso em: 21 ago. 2026.
COURTIN, E.; KNAPP, M. Social isolation, loneliness and health in old age: a scoping review. Health & Social Care in the Community, v. 25, n. 3, p. 799–812, 2017.
MONTEIRO, S. F. da S. Mudanças relacionadas com a idade e bem-estar subjetivo: a influência da saúde e da solidão. 2019. Dissertação (Mestrado) — Universidade do Minho, 2019.
THE LANCET. Social connection: a global health priority. The Lancet, v. 402, n. 10416, p. 1943, 2023.
UMBERSON, Debra; MONTEZ, Jennifer Karas. Social relationships and health: a flashpoint for health policy. Journal of Health and Social Behavior, v. 51, supl. 1, p. S54–S66, 2010. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3150158/. Acesso em: 21 ago. 2026.
(*) Assinam este texto pela ABG – Associação Brasileira de Gerontologia as autoras:
Munique Bacanieski – Gerontóloga formada pela EACH-USP, mestranda em Gerontologia pela mesma instituição e pós-graduanda em Neurociência Aplicada à Saúde pelo Instituto Sírio-Libanês. Foi intercambista no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, em Portugal, pelo Programa Erasmus. E-mail: munieski@gmail.com
Sabrina Aparecida – Gerontóloga formada pela EACH-USP e pós-graduanda em Neurociências pela Faculdade de Medicina da USP. É membro do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da USP, assistente da Associação Brasileira de Gerontologia e redatora da Revista AUGE, da iFractal. E-mail: sabrinageronto@gmail.com.
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