População idosa cresce no Brasil e aumenta sua participação no mercado de trabalho

População idosa cresce no Brasil e aumenta sua participação no mercado de trabalho

Será que o mercado de trabalho reconhece e valoriza a experiência acumulada das pessoas idosas ao longo de suas trajetórias profissionais?


Por Larissa Oliveira Franca Santos (*)

O Brasil está envelhecendo rapidamente. Dados do Censo Demográfico de 2022 mostram que a população com 60 anos ou mais representa 15,8% da população brasileira (32,1 milhões de pessoas), o que representa um crescimento de 56% em relação a 2010 (quando eram 20,5 milhões ou 10,8% do total). Esse avanço confirma uma das principais transformações demográficas em curso no país: o aumento acelerado da população idosa.

A mudança também pode ser observada na estrutura etária da população. Enquanto a participação de crianças e adolescentes de até 14 anos caiu de 24,1% em 2010 para 19,8% em 2022, a proporção de pessoas idosas continuou crescendo. O índice de envelhecimento — que mede a quantidade de pessoas com 60 anos ou mais para cada 100 crianças de até 14 anos — atingiu 80 em 2022, evidenciando uma sociedade cada vez mais envelhecida. A agência de notícias do IBGE ainda traz a pirâmide etária, segundo o sexo para retratar o Brasil 2022.

Esse cenário tem impactos diretos sobre o mercado de trabalho. Com um número crescente de brasileiros permanecendo economicamente ativos após os 60 anos, torna-se fundamental compreender não apenas quantos idosos trabalham, mas em quais condições eles permanecem ou retornam ao mercado de trabalho. De acordo com o IBGE, em 2024, o nível de ocupação de pessoais com 60 anos ou mais foi 24,4% destes 10% tinham 70 anos ou mais.

É nesse contexto que se insere a pesquisa “Envelhecer trabalhando no Brasil: trajetória laboral e mobilidade ocupacional descendente entre pessoas idosas, 2015–2025“, selecionada pelo Edital de Pesquisa Envelhecer com futuro, 2026,[1] promovido pelo Itaú Viver Mais e o Portal do Envelhecimento e Longeviver.

O estudo busca acompanhar coortes de trabalhadores ao longo do processo de envelhecimento para compreender como suas posições ocupacionais se transformam ao longo do tempo. Em termos simples, uma coorte corresponde a um grupo de pessoas pertencentes a uma mesma geração ou faixa etária, observado em diferentes momentos da vida. Utilizando dados da PNAD Contínua entre 2015 e 2025, a pesquisa acompanhará grupos de trabalhadores que envelheceram durante esse período, permitindo observar o que acontece com suas ocupações quando realizam a transição para a velhice.

Por exemplo, trabalhadores que tinham entre 50 e 54 anos em 2015 serão comparados aos indivíduos de 60 a 64 anos em 2025, representando uma mesma geração observada em diferentes etapas do ciclo de vida. A proposta é verificar se esses trabalhadores conseguem manter posições compatíveis com a experiência acumulada ao longo da carreira ou se passam a ocupar funções de menor responsabilidade e reconhecimento.

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Para isso, as ocupações serão analisadas a partir dos grandes grupos da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), que distinguem cargos de direção e gerência, profissionais especializados, técnicos, trabalhadores administrativos, trabalhadores de serviços e comércio, entre outras categorias. A pesquisa pretende identificar se trabalhadores que ocupavam cargos de chefia, supervisão ou funções especializadas permanecem nesses níveis hierárquicos ao envelhecer ou se passam a se concentrar em ocupações menos valorizadas.

A hipótese central é que a transição para a velhice pode ser acompanhada por um processo de mobilidade ocupacional descendente. Em outras palavras, profissionais que acumularam décadas de experiência e ocuparam cargos de liderança ou posições qualificadas podem encontrar dificuldades para permanecer nesses espaços, sendo direcionados para funções hierarquicamente inferiores. Nesse processo, a experiência profissional permanece, mas nem sempre é acompanhada pelo mesmo reconhecimento ocupacional.

Ao investigar a relação entre envelhecimento, trabalho e desigualdade social, a pesquisa busca contribuir para um debate cada vez mais urgente em uma sociedade que envelhece rapidamente. Afinal, diante da ampliação da participação de pessoas idosas no mercado de trabalho, a questão não é apenas se elas continuam trabalhando, mas se o mercado reconhece e valoriza a experiência acumulada ao longo de suas trajetórias profissionais.

Nota
[1] Este artigo é um recorte da pesquisa Envelhecer trabalhando no Brasil: trajetória laboral e mobilidade ocupacional descendente entre pessoas idosas, 2015–2025”, selecionada na 5ª edição do Edital Acadêmico de Pesquisa: Envelhecer com Futuro, realizado pelo Itaú Viver Mais em parceria com o Portal do Envelhecimento e Longeviver. Resultados da pesquisa serão apresentados durante o III Congresso Internacional Envelhecer com Futuro , a ser realizado de 25 a 26 de setembro no Pavilhão da Bienal (Ibirapuera/SP), dentro do evento Fórum Festival Longevidade. As inscrições são gratuitas e estão abertas.

(*) Larissa Oliveira Franca Santos – Discente do PPGS/UFMG. Artigo vinculado à pesquisa “Envelhecer trabalhando no Brasil: trajetória laboral e mobilidade ocupacional descendente”, selecionada na 5ª edição do Edital Acadêmico de Pesquisa: Envelhecer com Futuro, realizado pelo Itaú Viver Mais em parceria com o Portal do Envelhecimento e Longeviver.  E-mail: larissaofsantos@gmail.com.

Foto de Gustavo Fring/Pexels


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