Eu estou com câncer, não com “essa doença”. Eu vou morrer. Não vou “descansar”, “partir” ou “perder a batalha”. E estou fazendo o meu velório em vida.
Por Tiago Martins Pitthan (*)
Reparei que as pessoas evitam três palavras quando estão perto de mim: câncer, morte e velório. Por isso eu faço questão de dar nome às coisas. Eu estou com câncer, não com “essa doença”. Eu vou morrer. Não vou “descansar”, “partir” ou “perder a batalha”. E hoje, exatamente hoje [30 de maio], eu estou fazendo o meu velório em vida.
Meu nome é Tiago Martins Pitthan. Sou advogado, sou de Campo Grande, completo 47 anos em outubro, se eu chegar lá. Tenho um adenocarcinoma gástrico com metástase peritoneal e pulmonar. Não tem cura. Faço tratamento paliativo, o que inclui quimioterapia e imunoterapia. Os médicos não estimam quanto tempo me resta, e eu também parei de perguntar.
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A ideia do velório em vida veio por conta do meu pai. Ele morreu em agosto do ano passado e o velório dele foi bonito: bandeira do Botafogo, foto sorrindo, Caetano Veloso na caixa de som, amigos contando histórias. Eu saí de lá pensando: “Quanta gente boa, quanto carinho, quanta história. Pena que o homenageado não pôde ver.” Naquele dia decidi que não vou faltar no meu. Hoje a casa está cheia. Tem samba, rock, chopp, food truck, amigos, família, conhecidos e desconhecidos. E eu presente, contando e ouvindo histórias sobre mim.


Mas eu queria deixar por escrito uma conversa que não cabe dentro de uma festa. Uma conversa sobre o direito de cada pessoa decidir como quer morrer.
Quase ninguém sabe que, no Brasil, paciente terminal já tem o direito de recusar tratamentos que apenas prolongam o sofrimento. O Conselho Federal de Medicina (CFM) autoriza desde 2006. Posso pedir sedação paliativa para não morrer com dor. Posso registrar, em vida, um testamento vital, uma diretiva antecipada de vontade, dizendo exatamente o que aceito e o que não aceito quando não puder mais responder. O CFM regulamentou esse documento em 2012. Eu estou preparando o meu.
A maioria das mortes complicadas neste país acontece porque ninguém perguntou ao paciente o que ele queria, enquanto ele ainda podia responder. E porque ninguém soube que tinha o direito de perguntar.
Há também o que ainda é proibido. Eutanásia é quando um médico, a pedido expresso do paciente, administra uma medicação que encerra a vida. Suicídio assistido é quando o médico prescreve e o paciente administra por conta própria – via oral ou venosa. Nas duas situações, o pedido tem que partir do paciente lúcido, repetido ao longo do tempo, avaliado por mais de um médico, em caso de doença terminal ou sofrimento físico irreversível sem resposta clínica. Esses são os critérios que existem nos países que regulamentaram.
Hoje, já são quase 20, como Holanda e Bélgica em 2002, Espanha em 2021, Portugal em 2023, Canadá, Luxemburgo, Nova Zelândia, Uruguai (o mais recente), e vários estados dos Estados Unidos e da Austrália. Em todos eles, salvaguardas rigorosas para impedir abuso, pressão familiar, oportunismo de herdeiro e decisão tomada em desespero passageiro. Não é o velho oeste, não é bagunça. É procedimento médico estritamente regulado.
No Brasil, as duas práticas são crime: homicídio piedoso, no artigo 121 do Código Penal, e induzimento ou auxílio a suicídio, no artigo 122. Os projetos de lei que tentam abrir esse debate dormem no Congresso há mais de uma década. O silêncio sobre essa pauta no Brasil não é neutralidade. É escolha. E essa escolha tem preço. Pessoas sofrem por anos, sem perspectiva de melhora, apenas aguardando a morte natural. Famílias quebram tentando manter uma sobrevida de alguém que não tem mais possibilidade. Quebram economicamente, fisicamente, emocionalmente. Prolongando o sofrimento de quem amam. Esse é o preço do silêncio.
Agora preciso dizer a coisa mais difícil. Eu não me encaixo, hoje, nos critérios que acabei de descrever. Tenho câncer terminal, sim, mas não estou em sofrimento irreversível e sem resposta clínica. Como, com dificuldade. Aprendo guitarra, mal. Jogo sinuca, modéstia à parte, razoavelmente bem. Ainda pratico alguns esportes. Mês passado mergulhei em um lago dentro de uma caverna e saltei de paraquedas. Estou escolhendo viver, e estou conseguindo, dentro do que o corpo permite.
Não estou pedindo eutanásia para mim. Não sei, sequer, se eu pediria em qualquer cenário no futuro. Não sei o que vou querer quando estiver na cama em que talvez eu termine. Falo exatamente por isso. Porque posso ser, hoje, o paciente terminal que ainda tem voz, e que ainda não está no lugar em que essa pauta deixa de ser teórica. A maioria das pessoas que precisaria desse debate não está mais em condições de pedir. Estão entubadas, sedadas, ou mortas. Por isso é justo que quem ainda pode falar, fale.
Eu tenho uma frase que repito desde o diagnóstico: eu tenho câncer, mas o câncer não me tem. Isso vale para qualquer doença, qualquer problema. A doença lida com a gente, a gente lida com ela. O que eu vim pedir hoje é que ela pare de mandar em nós todos, que cada pessoa, por si ou por quem ama, possa decidir como quer morrer.
Por uma vida digna. Por uma morte digna!
A festa é hoje. A conversa fica.
(*) Tiago Martins Pitthan é a advogado, de Campo Grande, e completa 47 anos em outubro, se chegar lá. Insta: @bomsujeito. Reprodução: Eu Decido.
Foto destaque de Márcio Carvalho/Pexels
