Cuidar do bem-estar não é apenas uma questão emocional, mas também um caminho importante para manter a saúde do cérebro e a qualidade de vida ao longo dos anos.
Sabrina Aparecida da Silva e Thais Bento Lima-Silva (*)
Décadas atrás, o envelhecimento era visto principalmente como uma fase de perdas físicas, cognitivas e sociais. Hoje, a ciência tem ampliado esse olhar e passado a estudar também o que ajuda as pessoas a envelhecer com mais qualidade de vida e melhor. Nesse sentido, o bem-estar (BE) ganhou destaque na psicologia, especialmente com a psicologia positiva e na psicogerontologia, que buscam entender não só o sofrimento, mas também os aspectos saudáveis da vida. O bem-estar pode ser analisado de diferentes formas, principalmente pelo bem-estar subjetivo (BES) e pelo bem-estar psicológico (BEP).
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O bem-estar subjetivo, conceito apresentado por Diener em 1984, diz respeito à forma como cada pessoa percebe e avalia a própria vida. Ele envolve três pontos principais: a satisfação com a vida, as emoções positivas (como alegria e entusiasmo) e as emoções negativas (como tristeza e ansiedade). Pessoas com níveis mais altos de bem-estar tendem a se sentir mais satisfeitas, vivenciar mais emoções positivas e menos emoções negativas. Estudos mostram ainda que esse bem-estar costuma mudar ao longo da vida, seguindo um formato em “U”: geralmente é mais alto na juventude, pode diminuir na meia-idade e volta a crescer na velhice.
Além de influenciar como a pessoa se sente, o bem-estar subjetivo também está ligado à saúde. Níveis mais altos de BES estão associados a menor ocorrência de doenças crônicas, melhor qualidade do sono, maior cuidado com a própria saúde e maior longevidade. Também há relação com o desempenho cognitivo, como uma melhor performance nos aspectos de memória e atenção. Embora algumas funções cognitivas possam diminuir com a idade, esse processo não acontece da mesma forma para todos, pois depende de fatores físicos, mentais e do ambiente em que a pessoa vive.
Para entender melhor essa relação, foi realizada uma pesquisa com 183 pessoas idosas cognitivamente saudáveis, sem diagnóstico de depressão ou demência, acompanhadas ao longo de dois anos, participantes do estudo “SUPERA Cognitive Stimulation Study”, em português Estudo Supera de Estimulação Cognitiva, e com dados maiores publicados em uma revista internacional.
A maioria era composta por mulheres, com média de 67 anos e alto nível de escolaridade. Ao longo desse período, os participantes passaram por avaliações cognitivas e psicossociais. Em um desses momentos, foram aplicados instrumentos para medir o bem-estar subjetivo, e esses dados foram comparados com os resultados dos testes cognitivos realizados no início e no final do estudo. Também foram coletadas informações sobre perfil sociodemográfico.
Para avaliar a cognição global, foi utilizada a bateria Addenbrooke’s Cognitive Examination – Revised (ACE-R). Já para avaliar o bem-estar subjetivo, foram utilizadas a Escala de Satisfação Geral com a Vida, que mensura a satisfação em uma escala de 1 a 10; a Escala de Satisfação com a Vida Referenciada a Domínios, que avalia dimensões como saúde, capacidade física, capacidade mental e envolvimento social em uma escala de cinco pontos; e a Escala de Ânimo Positivo e Negativo, que mede a intensidade dos afetos em uma escala de 1 a 5. Todos os testes e questionários são validados para a população idosa brasileira.
Os resultados mostraram que os participantes apresentaram bom desempenho cognitivo geral, e melhora ao longo do tempo em áreas como memória, atenção e fluência verbal. Em relação ao bem-estar, a maioria demonstrou alta satisfação com a vida, muitas emoções positivas e poucas emoções negativas.
Também foi observada uma relação positiva entre satisfação com a vida e o desempenho cognitivo, principalmente na cognição geral e na atenção. Ou seja, pessoas mais satisfeitas com a própria vida tendiam a ter melhores resultados em alguns aspectos cognitivos. A percepção da própria capacidade mental também apareceu como um fator importante. Por outro lado, emoções positivas e negativas isoladas não mostraram relação direta com a cognição, indicando que a forma geral como a pessoa avalia sua vida pode ser mais relevante do que sentimentos momentâneos.
Entre os fatores que ajudam a explicar esses resultados, destaca-se a escolaridade, que está relacionada à chamada reserva cognitiva, a capacidade do cérebro de lidar melhor com os efeitos do envelhecimento. Além disso, condições de saúde e o nível de participação social também influenciam tanto o bem-estar quanto a cognição. Ainda assim, é importante considerar que a maioria da amostra era composta por mulheres com alto nível educacional, o que pode limitar a aplicação dos resultados para outros perfis.
De forma geral, o estudo mostra que é possível envelhecer com boa saúde cognitiva e altos níveis de bem-estar. Mais do que isso, reforça que cuidar do bem-estar não é apenas uma questão emocional, mas também um caminho importante para manter a saúde do cérebro e a qualidade de vida ao longo dos anos.
Esta pesquisa fez parte de um estudo de Iniciação Científica realizado durante o ano de 2025, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), desenvolvido pela estudante Sabrina Aparecida, agora gerontóloga egressa, sob orientação da Professora Doutora Thais Bento, no curso de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP).
Referências bibliográficas consultadas
1) Huang D, Wang J, Fang H, Wang X, Zhang Y, Cao S. Global research trends in the subjective well-being of older adults from 2002 to 2021: A bibliometric analysis. Frontiers in Psychology. 2022 Sep 9;13.
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3) Diener E, Oishi S, Lucas RE. Personality, culture, and subjective well-being: emotional and cognitive evaluations of life. Annual Review of Psychology. 2003;54(1):403–25.
4) Buecker S, Luhmann M, Haehner P, Bühler JL, Dapp LC, Luciano EC, et al. The development of subjective well-being across the life span: A meta-analytic review of longitudinal studies. Psychological Bulletin. 2023 Jul 1;149(7-8):418–46.
5) Hansen T, Blekesaune M. The age and well-being “paradox”: a longitudinal and multidimensional reconsideration. European Journal of Ageing. 2022 May 23;19.
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7) Braun T, Schmukle SC, Kunzmann U. Stability and change in subjective well-being: The role of performance-based and self-rated cognition. Psychology and Aging. 2017;32(2):105–17.
(*) Sabrina Aparecida da Silva – Gerontóloga pela Universidade de São Paulo (USP), membro do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da USP (GETCUSP), conselheira da Liga Acadêmica de Gerontologia da EACH-USP, assistente da diretoria científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG), colunista da Revista AUGE. Atua com ações e projetos de saúde e bem-estar na empresa iFractal.
Thais Bento Lima-Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É membro da International Society to Advance Alzheimer’s Research and Treatment (ISTAART). É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo.
Foto de Micaela Bassa/pexels.
