Eternidade

Eternidade

Será que as histórias que tecemos ao longo do tempo terão influência no “depois” ao serem passadas diante de nós na suposta eternidade?


Penso que todos os dias são dias para se pensar e falar sobre o amor, e para essa deliciosa “missão”, escolhi o longa metragem “Eternidade”, com direção de David Freyne e roteiro compartilhado com Patrick Cunnane.

Trata-se de uma comédia romântica, leve, suave e com um toque de fantasia (que não poderia faltar), uma pequena pérola em meio a tanta violência que assistimos diariamente, seja nas séries como na vida do dia a dia.

“Eternidade” viaja pelas nossas memórias abordando os dilemas amorosos, oriundos de escolhas que fazemos em tempos conturbados e conflituosos da juventude. Algumas delas, podemos dizer que são quase irreversíveis, mas que no contexto da época pareciam fazer todo sentido. E aí está a questão.

Logo na primeira cena vemos o casal já idoso, Joan e Larry a caminho da festinha de quase chegada do próximo neto. Lá, enquanto ocorrem os beijos, abraços e muita emoção entre os avós, filhos e netos, sem qualquer preparação ou aviso prévio, Larry encerra a vida entre os seus e se vai.

Assim parece ser a senhora morte. Ela chega sorrateiramente e decide quem vai e quem fica. Para aqueles que já foram apresentados a “Ela”, nada estranho no fato, entretanto fica sempre a pergunta: e depois?

Inconformado, Larry custa a entender que a vida que ele conhecia já era.

Agora seu lugar é no pós-vida, uma espécie de limbo muito agitado com idas e vindas, um espaço provisório que acolhe as almas recém-falecidas, mas o que ele nem poderia imaginar é que em um prazo de uma semana a decisão mais importante a ser tomada é onde e com quem os já falecidos querem passar sua respectiva eternidade.

Imaginem a responsabilidade. Se erramos uma vez, não podemos errar nesse momento crucial de escolha.

Para tornar tudo muito mais complexo, Joan morre e se vê diante do inevitável que lhe parece impossível: Larry, seu marido de tantos anos, ou seu primeiro amor Luke, que há muito já não está mais entre os vivos, e que a espera há aproximadamente 60 anos na função de um barmen solitário no nosso chamado limbo.

A partir daí, a trama gira em torno da difícil decisão que Joan deve tomar: Larry, com quem ela partilhou toda uma vida, mesmo debaixo de chuvas e trovoadas matrimoniais, um companheiro com quem ela teve filhos e netos, ou seja, constituiu a tal família normalmente tão prestigiada, idealizada, almejada e seguem os adjetivos… ou Luke, aquele que poderia ter sido, mas não foi, já que a senhora morte o levou prematuramente.

Se errei, essa é a última chance de “consertar” a escolha equivocada, mas se não foi o caso, posso perder toda a construção de afeto de uma longa vida.

Bem, paro por aqui, melhor assistir e avaliar como Joan resolveu seu mais profundo dilema, entretanto levanto algumas questões:

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Será que todos nós somos merecedores de uma eternidade? E o que significa ser merecedor? E nesse lugar, espaço, existe a vida tal qual a conhecemos? E quanto será que dura uma eternidade? Parece-me muito tempo.

Como decidir se ao chegar nesse pós-vida recebemos inúmeros catálogos de possibilidades de mundos? Tendemos a seguir para o idealizado, para a perfeição como uma singela casinha de praia onde só existe verão? Ou seguimos para o mundo inimaginável, nada de ideais, só a velha e antiga realidade? Olha que essa pode ser bem boa, é quentinha, é acolhedora e chama-se lar.

Repleto de delicadezas, esperança e porque não dizer medo, acompanhamos Joan, Larry e Luke como se pertencessem a nossa própria história de vida, de amor, de expectativas.

“Eternidade” mescla com um humor sutil e um drama decisivo o caminho que Joan decide tomar. Para alguns pode parecer quase óbvia e indesejada a escolha, para outros soa como um alento.

Essa é uma rara história de amor e memória que normalmente passa despercebida nos cinemas e até no streaming (apple tv), mas gosto de pensar, já aos quase 65 anos, na beleza e nas agruras da vida e no que virá depois.

Será que as histórias que tecemos ao longo do tempo terão alguma influência no “depois” ao serem passadas diante de nós nesse pós-vida, nessa suposta eternidade?

Resta a surpresa do que virá: Larry ou Luke?

Foto: Divulgação

Assista o Trailer aqui:


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Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Membro da Comissão Editorial da Revista Kairós-Gerontologia. Coordenadora do Blog Tempo de Viver do Portal do Envelhecimento. Colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Membro da Comissão Editorial da Revista Kairós-Gerontologia. Coordenadora do Blog Tempo de Viver do Portal do Envelhecimento. Colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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