Edição n° 37 da Revista Longeviver está no ar!

Edição n° 37 da Revista Longeviver está no ar!

A Revista Longeviver reúne neste número investigações que tensionam os conceitos tradicionais sobre as velhices no Brasil, abordando diversidade, território e direitos.


Por Beltrina Côrte e Celina Dias Azevedo (*)

Esta edição da Revista Longeviver é dedicada aos artigos oriundos das pesquisas contempladas pelo Edital Acadêmico Envelhecer com Futuro – 2026. A coletânea reúne investigações que tensionam os conceitos tradicionais sobre a velhice no Brasil, abordando a complexidade do envelhecimento a partir de marcadores como raça, gênero, orientação sexual, territorialidade, emergência climática e governança pública. Ou seja, esta edição trata da diversidade, território e direitos.

Apresentamos a síntese dos dez artigos que compõem este número:

Panorama científico das redes de suporte social de pessoas idosas LGBTQIA+: o que a produção científica revela? O artigo oferece um mapeamento bibliométrico da produção científica internacional sobre as redes de suporte social de idosos LGBTQIA+ na base Scopus. Analisando 371 estudos recuperados desde 1983, os autores evidenciam um crescimento expressivo das publicações a partir de 2013, intensificando-se entre 2020 e 2026. Contudo, a produção permanece altamente concentrada em países do Hemisfério Norte (liderados por EUA e Canadá), com reduzida participação da América Latina (apenas dois estudos com correspondência no Brasil). A pesquisa assinala a urgência de fortalecer a Gerontologia LGBT nacional, compreendendo as dinâmicas das “famílias de escolha” e as especificidades do suporte social em um contexto atravessado por vulnerabilidades históricas e pela busca de direitos.

Das marcas (in)visíveis à voz que resiste: envelhecimento, interseccionalidade e educação em saúde entre mulheres pretas, idosas e nordestinas – A partir de uma abordagem qualitativa e participativa conduzida com 19 idosas na Comunidade do Dendê, em Fortaleza (CE), o estudo analisa as intersecções de raça, gênero, idade e classe no envelhecimento periférico. Os autores identificam um padrão analítico denominado “negação com evidência”: a tendência inicial das participantes de negar episódios de preconceito, seguida por relatos factuais detalhados de sexismo no trabalho, discriminação etária no transporte público e racismo estrutural. O artigo propõe a educação em saúde como uma prática de reconhecimento interseccional e destaca a construção coletiva de um manual comunitário de cuidado e resistência para a atenção básica.

A mobilidade territorial como dimensão do acesso no envelhecimento na roça: entre a permanência e os deslocamentos para a cidade – Inserido na pesquisa sobre os modos de viver de idosos rurais no Sertão Sudoeste Baiano (Candiba/BA), o texto analisa a mobilidade territorial entre o campo e a cidade como elemento estruturante do acesso aos serviços públicos. Por meio de entrevistas narrativas, a autora demonstra que, embora o avanço dos meios de transporte e de comunicação tenha facilitado o deslocamento em relação a décadas passadas, persistam barreiras econômicas e uma forte dependência de redes de apoio familiares para custear ou realizar o transporte até os centros urbanos. O estudo defende o “direito de permanecer” na roça, exigindo que as políticas públicas alcancem o território sem forçar o desraizamento.

Palavras de um pajé sobre o envelhecimento indígena: o protagonismo, os desafios e as ameaças do envelhecimento entre o povo Aikewara – O artigo traz os saberes e as percepções do pajé Okonoti, da aldeia Yetá (Terra Indígena Sororó/PA), acerca do papel dos anciãos Aikewara. Em diálogo com autores indígenas como Ailton Krenak, Márcia Kambeba e Joséphine Bacon, a pesquisa mostra que o envelhecimento na comunidade não é meramente biológico, mas a condição central para a transmissão de rituais (como a Festa do Sapurahai), práticas de caça e medicina tradicional. O relato alerta para as ameaças contemporâneas a esse papel, como o desinteresse dos mais jovens diante do impacto das tecnologias e a introdução de doenças crônicas advindas do contato com a sociedade não indígena.

Identidade relacional na velhice: narrativas de mulheres idosas sobre si e os que as cercam – Contrapondo-se ao imaginário social que reduz a velhice às perdas e limitações do corpo, o artigo analisa de que forma mulheres idosas em Fortaleza (CE) constroem seus discursos identitários. A autora observa que, ao responderem quem são, as participantes incorporam espontaneamente filhos, netos, amigas e grupos de convivência em suas falas. Essa apropriação dos recursos e das redes interpessoais não se configura como dependência ou falta de autonomia, mas como uma “identidade relacional”, na qual a existência individual ganha sentido através das conexões e das práticas do cotidiano compartilhado.

Envelhecer trabalhando: quem são os idosos que permanecem no mercado de trabalho brasileiro? – Com base nos microdados da PNAD Contínua de 2025, o artigo traça o perfil dos trabalhadores com 60 anos ou mais no Brasil. A análise revela que a participação laboral na velhice está concentrada na faixa de 60 a 64 anos e é profundamente heterogênea. As disparidades de escolaridade, posição na ocupação (formal versus informal) e grandes grupos ocupacionais são fortemente marcadas por gênero e raça. Enquanto as mulheres idosas apresentam médias de anos de estudo superiores às dos homens, os trabalhadores negros idosos registram as menores médias de escolaridade e maior presença em postos manuais e informais, demonstrando que as desigualdades do curso de vida se perpetuam no trabalho tardio.

Gerontologia climática: por que precisamos saber não apenas onde o calor vai chegar, mas quem ele vai atingir – Apresentando os fundamentos do projeto ClimaSênior, o texto introduz o conceito de “Gerontologia Climática” para abordar os impactos do calor extremo sobre a população idosa. Os autores argumentam que os desastres térmicos atuam como emergências silenciosas que descompensam condições clínicas pré-existentes. O artigo detalha a construção do Índice de Vulnerabilidade Climática (que articula dados meteorológicos do Inmet, assistenciais do DataSUS e demográficos do IBGE). A proposta busca prever com três dias de antecedência a pressão sobre os serviços de saúde, permitindo ações preventivas direcionadas aos idosos mais vulneráveis.

Caminhos para o letramento digital da pessoa idosa no Brasil contemporâneo: orientações a partir da literatura – Fundamentando-se na andragogia, na geragogia crítica e na pedagogia libertadora de Paulo Freire, o artigo sistematiza seis orientações pedagógicas para a elaboração de programas de inclusão digital para a pessoa idosa. A autora defende que o aprendizado deve partir das intenções do cotidiano e ser realizado, idealmente, nos próprios aparelhos dos alunos. O texto ressalta que o letramento digital precisa superar a mera instrução operacional do smartphone para abranger o pensamento crítico, a prevenção contra fraudes e a promoção da autonomia, avaliando o sucesso do ensino pela capacidade de decisão da pessoa idosa no ambiente virtual.

Desastres climáticos: histórias que ainda precisam ser contadas sobre a (des) proteção da população 60+ – A partir do acompanhamento pós-desmobilização do “Abrigo Emergencial 60+”, criado durante as enchentes no Rio Grande do Sul em maio de 2024, o estudo qualitativo mapeou o destino de 56 idosos acolhidos. O mapeamento revelou que 21,4% foram encaminhados a ILPIs, 21,4% retornaram a moradias em áreas de risco por falta de alternativas, 25% não foram localizados e uma parcela continuou em situação de extrema vulnerabilidade. Através do relato detalhado da visita a um dos abrigados, a autora discute as falhas na execução dos auxílios governamentais e a descontinuidade da proteção social, que deixou a sobrevivência desses sujeitos dependente da solidariedade comunitária.

Publicar não basta: atas, transparência e controle social nos Fundos da Pessoa Idosa – O artigo analisa o papel da documentação oficial e das atas do Conselho Municipal da Pessoa Idosa (COMID) de Vitória (ES) na garantia da transparência e do controle social sobre o Fundo Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa (FMDI). Comparando reuniões de diferentes períodos (2020 e 2026), o autor aponta variações na densidade informacional dos registros. Ele demonstra que a mera publicação de que um relatório financeiro foi “apresentado” não garante a accountability, e propõe critérios práticos para redação de atas que efetivamente preservem a rastreabilidade e a lógica das decisões orçamentárias.

Artigos

Panorama científico das redes de suporte social de pessoas idosas LGBTQIA+: o que a produção científica revela?
Camila Rocha Ferreira, Desiree Rodrigues da Veiga, Marisa Accioly Rodrigues da Costa Domingues, Flávio Rebustini

Das marcas (in)visíveis à voz que resiste: envelhecimento, interseccionalidade e educação em saúde entre mulheres pretas, idosas e nordestinas
Thiago Medeiros da Costa Daniele, Larissa Oliveira Nascimento, Diana Maria Bezerra Vieira, Letticia de Araújo Moura

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A mobilidade territorial como dimensão do acesso no envelhecimento na roça: entre a permanência e os deslocamentos para a cidade
Fernanda de Deus Junqueira

Palavras de um pajé sobre o envelhecimento indígena: o protagonismo, os desafios e as ameaças do envelhecimento entre o povo Aikewara
Amoneté Suruí, Leonardo Silveira Santos, Natália Karina Nascimento da Silva, Tatiane Bahia do Vale Silva

Identidade relacional na velhice: narrativas de mulheres idosas sobre si e os que as cercam
Maria Luiza Viana de Aquino

Envelhecer trabalhando: quem são os idosos que permanecem no mercado de trabalho brasileiro?
Larissa Oliveira Franca Santos

Por que precisamos saber não apenas onde o calor vai chegar, mas quem ele vai atingir
Marcos Eduardo Miranda Santos, Camila Nascimento Ferreira, Kelly Fernanda de Sousa Santos, Liliane do Socorro Almeida Alves

Caminhos para o letramento digital da pessoa idosa no Brasil contemporâneo: orientações a partir da literatura
Lorena dos Santos Rodrigues

Desastres climáticos: histórias que ainda precisam ser contadas sobre a (des) proteção da população 60+
Michelle Bertóglio Clos

Publicar não basta: atas, transparência e controle social nos Fundos da Pessoa Idosa
Cícero C Belchior


Edição Completa

Edital Acadêmico de Pesquisa Envelhecer com Futuro


Desejamos a todas e todos uma Boa leitura!

(*) Celina Dias Azevedo e Beltrina Côrte, editoras da Revista Longeviver


foto criada pela IA chamando para o voto das pessoas idosas, apresentando uma diversidade de idosos
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