A força da Literatura no tempo: entrevista psicodramática com Ana Maria Gonçalves

A força da Literatura no tempo: entrevista psicodramática com Ana Maria Gonçalves

Autora do aclamado Um Defeito de Cor, Ana Maria Gonçalves tornou-se, em 2025, a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.


Acompanho Kehinde* há muito tempo, quase mil páginas de densidade e vida. Testemunhei sua infância, sua adolescência e agora a vejo na vida adulta, uma jornada que me atravessa com sentimentos intensos, entre lágrimas, indignação e alegrias. Por isso, às vezes a deixo; outras vezes, permaneço horas com ela, porque essa presença exige elaboração psíquica.

Sinto que Kehinde se multiplica em mim. Sua história encontra raízes na minha própria história; atravessa a memória dos meus antepassados e provoca perguntas que não dizem respeito apenas a ela, mas também a nós. Ela me interpela como quem pergunta: se a minha história também te afeta, como posso contar com você?

Não sei se tenho respostas, mas procuro não desviar desse chamado. Tenho buscado escutá-la com atenção e responsabilidade, permitindo que sua trajetória desloque meu olhar e me leve a falar sobre ela e sobre as Áfricas que nos habitam, não como quem pretende representá-las ou salvaguardá-las, mas como alguém que também é transformada por esse encontro.

Enquanto ainda busco compreender o que aguarda Kehinde na velhice, convido sua criadora, Ana Maria Gonçalves, a compartilhar o percurso de sua própria história e a sabedoria que acumulou ao longo de todos esses anos. É dessa mesma escuta atenta que nasce esta entrevista, marcada pela suavidade e pela inspiração, fortalecendo em mim o desejo de um mundo mais justo.

Autora do aclamado Um Defeito de Cor, obra baseada em rigorosa pesquisa sobre a trajetória de uma mulher africana escravizada no Brasil e inspirada em Luísa Mahin, Ana Maria Gonçalves tornou-se, em 2025, a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Ao longo da carreira, recebeu ainda o Prêmio Casa de las Américas e a Ordem de Rio Branco, foi homenageada na FestiPoa Literária e atuou como curadora de exposições voltadas à identidade brasileira.

Nesta conversa, Ana Maria revisita sua trajetória e compartilha reflexões sobre literatura, memória, identidade e criação, convidando-nos a pensar nas histórias que herdamos, nas que contamos e naquelas que ainda precisamos escrever. Narrar, escutar e compartilhar tornam-se, aqui, formas de ampliar a consciência sobre nós mesmos e sobre o mundo que cocriamos.

Esta é a cena proposta: Ana Maria, protagonista de sua própria história; e você, plateia que se deixa afetar pelo que aqui se revela. Que cada pessoa ocupe seu lugar nessa cena, disposta a ser tocada pelas histórias que escuta e pelas que escolhe contar.

Seja bem-vinda, cada pessoa, a este encontro.

foto de buço de Mulher negra de cabelos médios e vestida de preto
Foto de Leo Pinheiro

AQUECIMENTO INESPECÍFICO

Silmara: Ana, feche os olhos por um instante. Pense em tudo o que atravessou o oceano Atlântico: tecnologias, filosofias, musicalidade, saberes de terra e corpo. Tudo isso migrou e habita em quem está aqui hoje. Sinta esse movimento dentro de você: o que dessa herança resistiu ao tempo e ainda pulsa, viva e presente, no seu agora?
Ana Maria: A religiosidade. Nasci em uma família católica no interior de Minas Gerais e acho que briguei com a Igreja Católica quando tinha por volta de 12 ou 13 anos. Considerei-me agnóstica dos 12 até os 30 anos, quando comecei a pesquisar para escrever o livro Um Defeito de Cor, conhecer o Candomblé e me encontrar dentro dele.

AQUECIMENTO ESPECÍFICO

Vamos dar um passo adiante nessa travessia… A Kehinde atravessa as páginas de Um Defeito de Cor agarrada ao próprio nome e ao fio invisível de sua ancestralidade como única forma de não desaparecer diante do apagamento. Trazendo isso para o seu presente: para dar voz a essa resistência, você certamente precisou tatear esses mesmos fios dentro de si mesma. Hoje, qual é o fio invisível que você segura e que conecta quem você é ao que é inegociável em você, aquilo que nenhum sistema consegue apagar?
O meu pertencimento. Estudar o contexto de onde vem a minha ancestralidade, de onde eu venho, e ser uma mulher negra em um país tocado pela escravidão são fios muito fortes para nortear o que eu faço e para não deixar que ninguém questione esse pertencimento mais.

Na mitologia iorubá, Iroko é a árvore sagrada onde passado, presente e futuro se encontram. Imagine que você encontra, neste momento, a sua versão mais velha, aquela que já contempla boa parte do caminho percorrido. Descreva esse encontro e diga o que ela lhe revela sobre o equilíbrio entre o que você enraizou até aqui e o que sua copa ainda busca alcançar.
Imagino que esse encontro seria tranquilo. Ao longo da minha vida, tenho feito checagens periódicas e não tenho deixado coisas para serem realizadas. O que tenho vontade de fazer, pensar ou viver, tenho vivido, para que não haja uma diferença muito grande entre o que o meu eu deseja hoje e o que a minha versão mais velha olhará para trás e entenderá que não foi feito.

DRAMATIZAÇÃO

Um Defeito de Cor chega aos 20 anos trazendo consigo um longo percurso: quase mil páginas, cinco anos de escrita, pesquisas, dezenove reescritas e páginas nascidas à mão. Convido você a olhar para suas próprias mãos e a lhes dar voz. Elas hoje não são as mesmas que começaram a escrever aquelas primeiras páginas. O que elas gostariam de nos contar sobre o que carregam agora, que não carregavam antes?
No palco, as mãos:
— Estamos carregando o peso de escrever e de sentir a Ana nos cobrando em relação à escrita dela, uma cobrança que também vem dos leitores. Antes de escrever Um Defeito de Cor, não havia expectativas nem cobranças sobre o que ela escreveria. Hoje, já existe uma cobrança interna e talvez também do mercado. Estamos pedindo para a Ana tirar esse peso de cima de nós. Queremos estar livres para escrever.

Kehinde é uma personagem que ama, luta, escolhe, erra e recomeça. Ao construir essa mulher tão humana, você lhe concedeu o direito à falha. Ao olhar para Kehinde, o que ela lhe devolve de sua própria história?
As pessoas negras dificilmente podem errar e, se erram, às vezes perdem a oportunidade de uma vida por algo pelo qual lutaram muito. A Kehinde lutou muito, fez um pacto muito cedo na vida para sobreviver a qualquer custo e, a partir desse pacto, faz o que é necessário, assumindo e bancando seus erros e acertos. O que mais aprendi ao escrever essa personagem é isso: muitas vezes, a gente só vai acertar se errar antes. Aprendi a ser mais leve com os meus erros e a bancá-los quando for necessário.

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Foi escrever o próprio obituário, encarar a própria morte no papel, que te fez mudar de vida. Volta comigo a esse momento: você termina de escrever, olha para o papel… o que você decidiu viver a partir dali?
Eu termino de escrever, olho para o papel e entendo que não estava mais feliz na área profissional da publicidade. Aquele obituário me fez perceber que, se eu morresse naquele momento, ficaria muito triste por não ter feito outra coisa com a qual eu me sentisse mais contente. Foi a partir dali que entendi que precisava buscar um caminho diferente.

Se você reescrevesse esse obituário hoje, com os anos que se passaram desde então, o que mudaria?
Simbolicamente, eu escrevo sempre. Pelo menos a cada aniversário, a cada revisão importante ou mudança de vida, venho escrevendo esse obituário, não mais daquele jeito de sentar e escrever, mas de fazer uma reavaliação da vida e ir mudando. Assim, perco o medo de mudar.

A Lei 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas. Ainda assim, recentemente, uma atividade de contação de histórias baseada em um livro adotado pela rede pública provocou reações de resistência, mesmo sem envolver ensino religioso. Imagine que você está parada na porta da sala de aula, observando a cena. O que seu corpo sente ao ver aquilo?
O meu corpo sente uma tristeza muito grande ao ver a ignorância das pessoas em relação à cultura, ao ensino, à religiosidade e mesmo à legislação brasileira; e ao ver agentes da lei desrespeitando e desconhecendo uma lei que eles deveriam estar protegendo. Isso, em nome do que eles chamam de ideologia. Não dá para entender! Querendo que essa ignorância seja imposta à força, dentro de um estabelecimento de ensino e com crianças.

Se pudesse dizer uma frase, em voz alta, para dentro daquela sala, qual seria?
Eu olharia para dentro daquela sala e diria: “Crianças, estudem para crescer sem essa ignorância que essas pessoas estão tentando impor a vocês.” É isso. Eu me importaria com elas.

A legislação colonial utilizou a expressão “defeito de cor” para estabelecer restrições à participação de pessoas negras na sociedade, como o acesso a cargos públicos, militares e religiosos, muitas vezes exigindo declarações formais de dispensa ou justificativa desse “defeito” para que pudessem ocupar essas posições. Imagine que essa marca de exclusão, que atravessou séculos, ganhe corpo agora e se sente ao seu lado. Olhe para ela e diga: o que você revela a essa marca sobre a potência daquilo que ela tentou apagar?
Você não se deu conta. Tentou tirar as pessoas negras de determinados cargos considerados importantes para a administração da colônia e do Brasil, mas, com o passar do tempo, entendeu que isso não era possível. Você viu que não dava para abrir mão dessa potência. Éramos muitos e bons. Isso não havia como negar e não houve como barrar.

E, antes que essa presença se retire, o que você diz a ela sobre aquilo que ela jamais conseguiu silenciar?
Você nunca conseguiu silenciar o quanto a cultura afro faz parte da construção e do imaginário do que hoje se chama povo brasileiro.

Luiz Gama manteve viva a memória de sua mãe, Luísa Mahin, em seus poemas. Décadas depois, essa memória encontrou novos caminhos em Kehinde. Imagine agora que Luiz Gama está aqui, ocupando este espaço. Feche os olhos, sinta a presença dele e, quando estiver pronta, abra os olhos como se estivesse diante dele. Olhando para você, Ana, o que ele diria sobre o encontro entre a história de sua mãe e a vida que você deu a Kehinde?
(Luiz Gama) No desfile da Portela, disse: “Fiz essa carta e pude falar tudo o que queria para a minha mãe, Kehinde”.
(Ana Maria) A frase que me pega bastante é: “Seu filho venceu, mulher”. Pela questão do personagem, a gente vira mãe deles. É entender que o livro tem uma vida muito própria, tem história.

Depois de tanta caminhada, livros, reencontros e recomeços, você escolhe não estar conectada em aplicativos de mensagens e nas redes sociais para proteger algo que não pode ser recuperado: o tempo. O que o envelhecer lhe ensinou sobre o valor de dizer “não” para poder dizer “sim” ao que realmente importa?
O mais importante para mim é defender o meu tempo para ler, escrever e estar com as pessoas de quem eu gosto. É isso que gosto de fazer. A partir do momento em que aplicativos de mensagens e redes sociais entram no meio dessa minha negociação com o meu tempo, eu tenho escolhas e prefiro escolher o que me dá mais prazer, o que gosto de fazer, o que acho que sou melhor em fazer, que é ler e escrever, do que participar ativamente dos debates nas redes.

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A cada vez que falo do livro ou da minha trajetória com ele, o que mais me vem é como ele adquire vida própria, como toca as pessoas do jeito que me tocou ao escrevê-lo. Toni Morrison fala que o livro que ela queria ter lido e não encontrou era Amada; por isso, foi lá e escreveu. Assim, aconteceu comigo: Um Defeito de Cor é o livro que eu gostaria de ter lido e não encontrei e, por isso, escrevi. Fico feliz. É um livro que faz a gente conhecer nossas raízes, nossos antepassados e nossa história. Fico feliz em revisitar. Tem valido a pena e vai continuar valendo a pena.

Nota
(*) Kehinde é uma mulher africana que, quando criança, é sequestrada do Reino de Daomé (atual Benim) e escravizada na Bahia. A protagonista regressa a seu país de origem ao conseguir se alforriar na idade adulta. Anos mais tarde, cega e idosa, ela decide voltar ao Brasil para buscar um filho perdido, iniciando uma viagem que revisita suas dores da escravidão e décadas de construção da sociedade brasileira.

Foto de destaque: arquivo pessoal de Ana Maria Gonçalves


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Silmara Simmelink

Psicodramatista formada pela Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Especialização em Saúde do Idoso-UNIFESP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

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Silmara Simmelink

Psicodramatista formada pela Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Especialização em Saúde do Idoso-UNIFESP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

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