Lula sintetiza, em sua própria trajetória, as complexas intersecções entre velhice ativa, representação pública, seguridade social e os desafios estruturais no Brasil.
Logo após a confirmação da vitória no segundo turno das eleições presidenciais contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva fez um pronunciamento na noite de 25 de outubro, consolidando um marco político com a conquista de um quarto mandato. Para nós, observadores do campo da gerontologia social, o seu discurso simboliza um acontecimento pedagógico e simbólico: ele assume o país às vésperas de completar 81 anos – em 27 de outubro de 2026, dois dias após o segundo turno das eleições presidenciais -, e sintetiza, em sua própria trajetória, as complexas intersecções entre velhice ativa, representação pública, seguridade social e os desafios estruturais impostos pela transição demográfica no Brasil.
A reflexão aqui feita em torno de um discurso presidencial após uma disputa eleitoral acirrada trata de colocar em pauta de que modo algumas de suas diretrizes expressas na fala oficial respondem às premências do envelhecimento digno no país: a preservação do Estado de bem-estar social, a centralidade da saúde coletiva, a sustentabilidade da renda dos mais velhos e o combate ao preconceito etário (etarismo) em todas as esferas institucionais.
Defesa do SUS e soberania do cuidado: o desafio crítico da saúde pública
Um dos pontos mais enfáticos do pronunciamento de Lula foi a afirmação categórica de que a defesa da saúde pública e o impedimento de qualquer tentativa de privatização do Sistema Único de Saúde (SUS) figuraram entre as principais motivações de sua campanha.
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Para a população idosa brasileira, essa diretriz carrega um significado muito importante:
a) Mais de 75% dos cidadãos com 60 anos ou mais dependem exclusivamente da rede pública de saúde para atenção primária, gerenciamento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), fornecimento gratuito de medicamentos essenciais e acesso a procedimentos de média e alta complexidade.
b) Proteger a universalidade do SUS (e a política nacional do cuidado) é medida indispensável, mas já não é suficiente sem a estruturação formal de uma rede intersetorial de suporte às famílias e aos cuidadores. O envelhecimento populacional acelerado exige letramento sobre envelhecimento e a expansão de centros-dia, de cuidados paliativos, atenção domiciliar multiprofissional e capacitação contínua para o acolhimento às diversas fragilidades.
c) A preservação dos repasses e a ampliação do programa Farmácia Popular representam a principal barreira contra a perda do poder de compra e o empobrecimento das famílias decorrente de custos médicos.
A dignidade econômica da velhice: salário mínimo e previdência
Ao prometer “mudar o jeito de governar”, intensificar o diálogo direto com a população e reiterar a centralidade do combate às desigualdades, o discurso tangencia um dos pilares mais sensíveis para a gerontologia social: a política de valorização real do salário mínimo e a integridade da Seguridade Social na dignidade da última etapa da vida.
A maior parte dos benefícios previdenciários e assistenciais (incluindo o BPC/Loas) tem o salário mínimo como piso intransponível. Políticas de reajuste que garantem ganhos reais acima da inflação representam distribuição direta de renda e sustentação da segurança alimentar em lares intergeracionais, onde frequentemente a aposentadoria da pessoa idosa sustenta netos e filhos.
Os desafios fiscais e as pressões do mercado exigirão vigilância atenta dos conselhos de direitos. O Portal do Envelhecimento reafirma que a Previdência Social não pode ser tratada sob uma ótica estritamente contábil, mas como um pacto de solidariedade entre gerações assegurado pela Constituição Cidadã.
Diálogo geracional: o encontro entre a juventude e a velhice
Um contraste marcante no pronunciamento de vitória foi a ênfase dada ao papel da juventude e à expansão de políticas educacionais (como o ensino integral e programas como o Pé-de-Meia), lado a lado com a presença de um governante octogenário à frente do país e o reconhecimento do exercício de cidadania das pessoas idosas nas urnas.
O discurso de Lula, ao associar a gratidão pela mobilização juvenil nas ruas e nas redes sociais à consolidação de sua liderança madura, aponta para a necessidade premente de políticas de solidariedade intergeracional:
a) Espaços públicos e programas de convivência comunitária que aproximem jovens e pessoas idosas, combatendo o isolamento social.
b) Formação educacional que incorpore o envelhecimento humano e o respeito à pessoa idosa nos currículos escolares desde a base até o ensino superior.
c) Superação do etarismo duplo: preconceitos que recaem sobre os jovens (julgados inexperientes) e sobre os velhos (julgados incapazes ou descartáveis).
A figura pública do presidente idoso: desconstrução do etarismo
Aos 80 anos, Lula protagonizou uma disputa presidencial exaustiva, quebrando paradigmas históricos sobre vigor, tomada de decisão e longevidade no exercício da política institucional.
Ver uma pessoa em idade avançada assumir o comando de uma das maiores economias e democracias do mundo contesta de forma frontal a visão preconceituosa que confina a pessoa idosa à passividade, à doença ou ao recolhimento doméstico.
O exercício da presidência nessa etapa da vida traz luz ao debate científico sobre senescência (o processo natural do envelhecer com preservação funcional) em contraste com a senilidade patológica, demandando que o mercado de trabalho e as esferas de decisão pública também acolham trabalhadores e líderes maduros sem barreiras discriminatórias.
Esfera pública, informação e vulnerabilidade digital
Ao abordar o combate à desinformação e prometer pautar o debate sobre a regulação responsável das plataformas digitais, o discurso toca em uma questão urgente de direitos humanos e proteção ao consumidor idoso.
Pessoas idosas são alvos prioritários de redes organizadas de desinformação, golpes financeiros automatizados, consignados abusivos e fraudes no ambiente digital. Garantir uma internet regulada, transparente e ética é, essencialmente, uma política de proteção à integridade psicológica, financeira e cívica da população longeva. A inclusão digital não pode se restringir à posse de aparelhos; deve contemplar letramento midiático e segurança cibernética.
Enfim, os compromissos assumidos nas urnas e proclamados no palanque da vitória estabelecem a agenda prioritária dos próximos quatro anos, cuja governança seja mais horizontal.
O êxito deste novo mandato dependerá decisivamente da capacidade do Estado brasileiro de reconhecer que o país não é mais predominantemente jovem, é velho e intergeracional! E isso exige respeito e investimento!
Foto: Print do canal Lula
