Cuidar deixou de ser visto como uma responsabilidade restrita à família ou ao afeto, passando a ser reconhecido como um dever compartilhado por Estado, sociedade e setor privado.
Por Marcia Vieira (*)
A Corte Interamericana de Direitos Humanos, pela primeira vez, reconhece o cuidado como direito humano fundamental — tanto o direito de ser cuidado, quanto o direito de cuidar e ao autocuidado.
CONFIRA TAMBÉM:
A decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos coloca o cuidado no centro das políticas públicas e das relações sociais, determinando que os Estados garantam condições para que este direito seja exercido com dignidade, segurança e equidade. Significa que cuidar deixou de ser visto como uma responsabilidade restrita à família ou ao afeto, passando a ser reconhecido como um dever compartilhado por Estado, sociedade e setor privado.
No Brasil, a aprovação da Política Nacional de Cuidados, Lei Federal nº 15.069, de dezembro de 2024, representou um avanço significativo ao estruturar diretrizes para a valorização dos cuidadores — sejam familiares ou formais — e para assegurar que crianças, pessoas idosas, pessoas com deficiência, em situação de vulnerabilidade ou em fases específicas da vida recebam apoio adequado. Mas ainda há lacunas urgentes: a regulamentação da profissão de cuidador, o acesso à educação para o cuidado e o reconhecimento do impacto econômico e social dessa atividade.
Segundo o DIEESE, 58% dos brasileiros 60+ apresentam comorbidades e, portanto, demandam ou poderão demandar algum tipo de cuidado. Entre 2016 e 2019, o número de cuidadores familiares cresceu 40%, chegando a 5,1 milhões (PNAD-C 2019). E, entre 2019 e 2023, houve um aumento de 15% no número de cuidadores remunerados, chegando a 840 mil profissionais. Ainda que subdimensionados, estes dados revelam um contingente de mais de 6 milhões de brasileiros dedicados ao cuidado — familiares e profissionais. Mas em que contexto? Com qual suporte, qualificação e valorização?
Em um estudo inédito – Perfil dos Cuidadores Formais no Brasil, realizado pela MasterCare, com 2.568 cuidadores, em todo o país, identificou-se que 90,2% são mulheres; 29,2% possuem de 36 a 45 anos e 14,2% de 46 a 65 anos; 84,9% são chefes financeiros da casa ou parcialmente chefes financeiros da família. Uma profissão não regulamentada e com grande impacto econômico e social.
É nesse contexto que o Conacare – Congresso Nacional de Cuidadores, Cuidados e Longevidade se posiciona. O principal evento do país sobre esta temática, a 4ª. Edição Nacional, acontece durante o 7º. Fórum São Paulo da Longevidade, no Expo Center Norte, dias 28 e 29 de outubro. A 1ª. Edição Internacional acabou de acontecer, no Serra Park, em Gramado (03 de setembro), durante a Geronto Fair. O tema central das duas edições é: “Envelhecer com cuidado não pode ser um privilégio, porque, antes de tudo, é um direito.”
Conacare, transformando o cuidado
O Conacare é mais do que um congresso: é um movimento para transformar o cuidado em política de Estado e em valor social reconhecido, conectando cuidadores, gestores públicos, pesquisadores, empresários, organizações da sociedade civil, autoridades e familiares. Ao reunir especialistas de saúde, assistência, direito, tecnologia e inovação, promovemos debates, apresentamos soluções e estimulamos a criação de redes que apoiem quem cuida e garantam o bem-estar de quem é cuidado.
O Congresso nasceu durante a Longevidade Expo+ Fórum, em 2022. E, desde 2020, mais de 200 especialidades e autoridades passaram pelo evento, em cursos e lives, tratando sobre temas voltados aos Cuidadores, Cuidados e Longevidade, impactando centenas de milhares de pessoas. A educação para o cuidado salva vidas e transforma realidades.
O parecer da Corte Interamericana é um chamado à responsabilidade coletiva, o Conacare é a resposta prática que o Brasil oferece: um espaço onde conhecimento, experiência e políticas convergem para tornar o direito ao cuidado uma realidade concreta.
Envelhecer com dignidade, saúde e segurança não é um privilégio, é um direito humano inegociável que deve ser garantido e vivido plenamente por todos.
(*) Marcia Vieira é administradora e consultora associada da FIPECAFI-FEA-USP, especialista em gestão pública, crescimento e transformação de negócios, é referência na economia da longevidade no Brasil. A partir da experiência de 13 anos cuidando dos pais, criou o maior Congresso brasileiro sobre cuidadores e cuidados e o principal ecossistema do setor formado pela MasterCare, CONACARE e Hub Longevidade, conectando tecnologia, educação e soluções para transformar o cuidado e promover a expansão de líderes e marcas no mercado 50+.
Foto de Kindel Media/pexels.
