A prescrição social se alinha às abordagens da gerontologia por considerar a complexidade das experiências singulares do envelhecimento.
Por Gabriela dos Santos e Thais Bento Lima da Silva (*)
A prescrição social (social prescribing) é uma abordagem centrada na pessoa, que busca conectar indivíduos com necessidades sociais, emocionais ou práticas a serviços presentes na comunidade. Desenvolvida no Reino Unido, tem como principal objetivo a melhoria da saúde, da qualidade de vida e do bem-estar dos indivíduos. Ao contrário do paradigma biomédico tradicional, que costuma estar centrado na doença, essa abordagem reconhece que fatores sociais, econômicos e ambientais desempenham papel determinante na saúde, sobretudo entre populações que possuem características de vulnerabilidade, como as pessoas idosas (Morse et al., 2022; Percival et al., 2022).
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A prática da prescrição social tem sido associada ao contexto da Atenção Primária à Saúde, com destaque para a implementação no Reino Unido, onde o National Health Service (NHS) incorporou essa estratégia como parte do seu plano de cuidados personalizados. Por meio de profissionais denominados “link workers” ou facilitadores comunitários, os usuários são orientados a participar de atividades culturais, artísticas, físicas, educacionais e de suporte social disponíveis na comunidade, conforme as necessidades e preferências (O’Sullivan et al., 2024).
A prescrição social se alinha às abordagens da gerontologia por considerar a complexidade das experiências do envelhecimento e valorizar a integralidade do cuidado. Essa prática representa uma estratégia para fomentar o envelhecimento ativo e saudável, ao possibilitar o engajamento social e a ampliação da autonomia em contextos comunitários. Estudos como a revisão de escopo realizada por Sadio et al. (2024), demonstram que atividades como jardinagem, aulas de arte, grupos de caminhada, clubes de leitura e programas intergeracionais promovem benefícios cognitivos, emocionais e funcionais entre pessoas idosas, especialmente aquelas em risco de isolamento social.
Além dos benefícios emocionais, como a melhora do humor e redução da solidão, Menhas e colaboradores (2023) destacam que o envolvimento em atividades socialmente significativas está associado ao fortalecimento das redes de apoio e sensação de pertencimento, fatores intimamente relacionados à saúde mental e à prevenção de declínios funcionais. Em pessoas idosas com condições como depressão, ansiedade, dor crônica e demência leve, tais estratégias têm se mostrado importante complemento ao tratamento clínico, reduzindo a medicalização excessiva e o uso inadequado de serviços de emergência (O’Sullivan et al., 2024).
Apesar dos benefícios associados à prescrição social, existem desafios para a implementação no campo da gerontologia. Entre eles, destaca-se a necessidade de capacitação específica de profissionais de saúde para atuarem como prescritores sociais e de facilitadores com competência para lidar com as especificidades da velhice. Além disso, a ausência de financiamento, a insuficiência de recursos comunitários em regiões vulneráveis e a dificuldade de mensuração de desfechos dificultam sua consolidação como política pública universal (Percival et al., 2022).
Ainda na perspectiva da gerontologia, é importante citarmos as demandas relacionadas aos cuidados de longa duração. Estudos realizados em países como China, Reino Unido, Canadá e Austrália apontam que a inserção da prescrição social nessa modalidade de cuidados, pode contribuir para retardar institucionalizações, reduzir o isolamento e promover maior engajamento das pessoas idosas em suas comunidades (Menhas et al., 2023; Sadio et al., 2024). A atuação dos prescritores sociais no ambiente domiciliar, por exemplo, pode facilitar o acesso a redes de suporte, atividades de lazer e serviços de assistência, contribuindo para o cuidado centrado na pessoa e a permanência no domicílio com qualidade.
A literatura também destaca que, quando articulada aos serviços formais de saúde e assistência social, a prescrição social pode reduzir a sobrecarga de cuidadores familiares, oferecendo opções de suporte emocional e atividades que promovem bem-estar tanto para a pessoa idosa quanto para o cuidador (O’Sullivan et al., 2024).
A integração da prescrição social aos sistemas de atenção primária e aos cuidados de longa duração exige investimentos em capacitação profissional, fortalecimento das redes comunitárias e estratégias de monitoramento. Ao reconhecer as dimensões sociais do envelhecimento e do cuidado, essa estratégia amplia as possibilidades de atuação intersetorial e aproxima os serviços de saúde das demandas e expectativas das pessoas idosas. Nesse sentido, avançar na implementação e na pesquisa sobre prescrição social é, portanto, um passo necessário para a construção de modelos de cuidado mais equitativos, personalizados e sustentáveis.
Referências
MENHAS, Rashid; YANG, Lili; DANISH NISAR, Rana. Community-based social healthcare practices in China for healthy aging: a social prescription perspective analysis. Frontiers in Public Health, v. 11, p. 1252157, 2023. Doi: 10.3389/fpubh.2023.1252157. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/public-health/articles/10.3389/fpubh.2023.1252157/full. Acesso em: 20 Maio 2025.
MORSE, Daniel F. et al. Global developments in social prescribing. BMJ Global Health, v. 7, n. 5, p. e008524, 2022. Doi: 10.1136/bmjgh-2022-008524. Disponível em: https://gh.bmj.com/content/7/5/e008524. Acesso em: 20 Maio 2025.
O’SULLIVAN, Declan J. et al. The effectiveness of social prescribing in the management of long-term conditions in community-based adults: a systematic review and meta-analysis. Clinical Rehabilitation, v. 38, n. 10, p. 1306-1320, 2024. Doi: 10.1177/02692155241258903. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/02692155241258903. Acesso em: 20 Maio 2025.
PERCIVAL, Amanda et al. Systematic review of social prescribing and older adults: where to from here?. Family medicine and community health, v. 10, n. Suppl 1, p. e001829, 2022. Doi: 10.1136/fmch-2022-001829. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9557282/. Acesso em: 20 Maio 2025.
SADIO, Rute et al. Social prescription for the elderly: a community-based scoping review. Primary Health Care Research & Development, v. 25, p. e46, 2024. Doi: 10.1017/S1463423624000410. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/primary-health-care-research-and-development/article/social-prescription-for-the-elderly-a-communitybased-scoping-review/C63CDEC136602499A47AB226BAFD36F1. Acesso em: 20 Maio 2025.
(*) Gabriela dos Santos – Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Gerontologia pela Universidade de São Paulo (USP), Graduada em Gerontologia pela USP, com Extensão pela Universidad Estatal Del Valle de Toluca. É pesquisadora no Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo e atua com estimulação cognitiva para pessoas idosas. E-mail: santosgabriela084@gmail.com
Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH- USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br
Foto de Kampus Production/pexels.
