Entrevista com Mateus Aleluia, o mestre e o som da vida

Entrevista com Mateus Aleluia, o mestre e o som da vida

Músico, compositor e cantor, é uma das vozes mais singulares da música afro-brasileira. Há 65 anos, vem construindo uma obra em que arte e espiritualidade se encontram.


A voz chega como uma ventania de tanta grandeza, altura e força. Uma ventania que anuncia alguma coisa, antes mesmo que saibamos o que está por vir. Desperta o corpo para dar sentido ao movimento.

E então consegue mudar a direção dos sentidos, levando-nos ora ao mar de Iemanjá, ora à mata de Oxóssi, ora ao céu de Oxalá e ao trovão de Xangô. Uma voz que conhece os caminhos por onde a natureza também se faz sagrada.

Mas, de repente, muda. Torna-se brisa. E essa brisa já não nos leva para fora, mas para dentro de nós mesmos, como se nos conduzisse em direção a alguma suave transformação.

Há nessa voz uma atmosfera de muitos tempos, uma memória de um passado distante, mas que ainda se faz presente.

E então me pergunto: o que esse vento quer?

Talvez nos ligar ao sagrado e ao amor.

“No ar,
Há o amor…
O amor nos rege, não sejamos rebeldes. Para a nossa continuidade, entreguemo-nos, sem pestanejar.
O amor nos manda!

Esse vento tem nome.

Mateus Aleluia.

Músico, compositor e cantor, nascido em Cachoeira, na Bahia, em 1943, é uma das vozes mais singulares da música afro-brasileira. Há 65 anos, sua trajetória vem soprando por diferentes tempos e lugares, construindo uma obra em que arte e espiritualidade se encontram.

Foi com Os Tincoãs que esse vento ganhou mais força. Como um dos pilares do grupo, Mateus ajudou a levar para o centro da canção popular brasileira elementos, valores e referências do Candomblé. Em sua carreira solo, manteve esse caminho, aprofundando a investigação das raízes africanas que atravessam a formação do Brasil.

Em 2022, o álbum Afrocanto das Nações – Jêje levou Mateus à indicação ao Grammy Latino. Vieram também o título de Doutor Honoris Causa pela UFRB e a Comenda da Ordem 2 de Julho. Em 2025, esse percurso recebeu uma das mais altas distinções da cultura brasileira, a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural.

Aos 82 anos, Mateus define que o que conduz sua caminhada é a vida e o respirar, o corpo e sua sonoridade, o violão, a relação entre dor e prazer, o sagrado e o profano, a finitude e o renascimento a cada dia.

Nesta entrevista, fui reconhecendo a raridade de uma trajetória que se abre para ser compartilhada, e esse processo me ensinou algo valioso sobre a delicadeza de me aproximar do universo de um mestre e a responsabilidade de escutar aquilo que ele generosamente oferece.


Silmara: Um nome pode carregar histórias, memórias e sentidos. Em sua canção, Oh, Música! / Aleluia você canta: “Aleluia, foi este forte nome que meu pai me deu / Louvor celeste, presente que me dava sendo eu Mateus”. Quando esse nome ecoa na sua voz, o que ele faz emergir em você?
A voz é sonora, a sonoridade. Nós partimos do princípio de que tudo o que houve no início do mundo foi isso: o som. Então, esse som, tanto o nome Aleluia quanto o Mateus, como me foi dado, foi uma forma de identificação por parte de meu pai. Creio também que da minha mãe, que nada era feito sem o concorde dela, isso tem uma ressonância muito forte. É a primeira identificação que entrou pelos meus canais do não domínio, pelos canais da percepção, o áudio. Então, tanto o Aleluia, na sua forma original, é uma palavra hebraica e quer dizer louvor a Deus, e Mateus também é uma palavra hebraica que quer dizer presente de Deus. Juntando a sonoridade de quando esse nome me foi dado, proferido por meu pai e pela minha mãe, isso tem uma memória de início de vida dentro de mim que até hoje ressoa.

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Na sua infância, havia uma harmonia entre os tambores do Candomblé que embalavam o seu sono e os sinos da igreja católica que anunciavam o dia. Como essa convivência entre sagrados que se misturam no ar moldou a sua forma de ouvir o mundo?
Olha, de início da nossa vida, digamos assim, no início do nosso raciocínio de vida com o nosso ego, tudo é sagrado, e tudo que era profano era aquilo que fazia parte da nossa pedagogia, fazia parte da nossa educação. E o sagrado era aquilo que fazia parte da nossa educação, mas que era exercido pela Igreja de uma forma geral, tanto para os seguidores do catolicismo como não. Aquilo ecoava  na forma de aceitação total ou parcial, mas era o que nos influenciava como guia de pensamento. À medida que nós vamos crescendo, a sensibilidade que nos norteia e que nos envolve nos leva a ter uma percepção própria sobre tudo aquilo conforme nós fomos criados, que fomos andando perante a vida. E tudo me leva a crer que o sagrado e o profano, eles se completam. Eu dou sempre esse exemplo: é como uma lâmpada que nós acendemos em casa. Quando escuro, ela ilumina a casa. Para que isso aconteça, esse fenômeno se liga ao positivo e ao negativo. Não existe somente um fio positivo ou um fio negativo. Essa comparação eu faço para que as pessoas percebam o que é que eu, no caso Mateus Aleluia, tenho comigo: o que é sagrado e o que é profano. Creio que o sagrado e o profano têm que se entender. Têm que estabelecer um ponto de encontro para que isso resulte na luz do mundo, na luz da vida.

Você atravessou o continente com o grupo musical Os Tincoãs, e depois viveu por quase 20 anos em Angola. Nesse caminho, que vida você encontrou e que vida nasceu em você?
Que vida eu encontrei? Eu encontrei vida. Penso que vida é sempre vida, nas suas mais diferentes formas da gente perceber, mas era como o tempo, né? O tempo é um e nós percebemos o tempo tão diferente. Até dividimos as estações do ano: outono, inverno, primavera e verão. Mas, às vezes, na primavera tem clima de outono; às vezes, na primavera tem clima de verão; às vezes, na primavera tem clima de inverno. E isso também ocorre nas outras estações. Enfim, o tempo é soberano e soberana, ele define. Vida? Ela é uma só. A gente, nas nossas formas de comparação, a nossa forma de perceber a vida é comparativa. Nós vivemos num mundo tridimensional, limitado pela espessura, largura e o comprimento: a vida em três dimensões. E assim, nós percebemos tudo, dizendo que uma vida ali é melhor, outra vida lá é pior. Não. A vida, onde ela se manifesta e onde você faz parte dela, é ela o verbo ser na sua forma mais perfeita. Estando aqui, eu percebo a vida. Aonde eu estiver, percebo a vida. Estive em Angola e eu percebi a vida. Vivi como angolano, que está em Angola. Voltei para o Brasil, vivo como brasileiro, que eu estou no Brasil. Se eu for para qualquer outro local, penso que vou viver de acordo com o local onde eu estiver, porque vida é vida. O homem tem moral, a natureza tem leis, a lei da vida é viver.

Falando em nascer, você cita que renasce a cada dia, assim como Oxalá. Epa, Babá! Aos 82 anos, o que ainda pulsa em você como força de recomeço, como vida que insiste em nascer?
A necessidade de respirar, que eu nem sei que tenho necessidade, apenas respiro. É um ato totalmente involuntário, mas que existe. Isso é a vida. Então, eu renasço como o Epa Babá, eu posso renascer como Jesus Cristo, o renascimento, posso renascer como Buda, posso renascer como qualquer pessoa ou ente que acredite no renascimento em contínuo, esteja você na condição que estiver. Quando a gente dorme, é como se fosse realmente um preparo para o que nós chamamos de morte, porque não temos consciência de nada quando dormimos. E, quando nós acordamos, é como se tivéssemos renascido. A gente pensa que tudo vai continuar como era, mas, na minha maneira de ver, parece que é, mas não é. Já é outra coisa. Estamos dando continuidade à vida da forma como ela se apresenta.

“Se a música veio antes de tudo”. Como você cultiva a sua escuta para não perder o contato com essa origem? Onde, na sua observação da vida, você reencontra esse som?
Em mim mesmo, no pulsar do meu coração, na minha respiração, nos passos que eu dou durante o dia, quando estou dormindo, quando eu me viro e acordo de repente, eu sei que me virei. Há uma sonoridade em tudo quanto nós fazemos. Quando nós respiramos, nós percebemos toda uma engrenagem de uma grande orquestra dentro de nós: o pulmão, o sangue correndo, o respirar, são os atritos e entre as articulações. Enfim, o nosso corpo, tudo é uma grande orquestra.

Os orixás nos ensinam caminhos de viver, de consciência e transformação no tempo da existência. Quando você diz “não me tire o violão”, aludindo a Oxóssi como a flecha que sustenta o caçador, Okê Arô! Que lugar o violão ocupa nesse aprendizado? O que ele te permite atravessar ou sustentar ao longo da vida?
O violão é o que me ajuda a sonorizar o já sonoro que existe em mim, como eu acredito que tem em cada um de nós. Cada um, em cada ser vivente, tem uma sonoridade, entendeu? Algo que está com cada um de nós ou cada uma de nós. E o violão, para mim, é a completude disso. É uma forma de eu apoiar os meus acordes, apoiar-me. Como posso falar? É uma forma de me conduzir para, quando eu me deixo levar por outro lado da vida que não é a sonoridade. O violão me faz lembrar que a sonoridade é que me equilibra e, quando olho para o violão, não tenho dúvida disso. O grande equilíbrio que posso ter.

Atotô, Obaluaê! Seu padrinho. Há caminhos em que a dor também é mestra, e o tempo vai revelando outras formas de existir. Ao longo da sua vida, o que foi se transformando em você, daquilo que um dia foi dor, até se tornar saber?
A dor, o saber e o prazer, eu penso que estão misturados. É como se fosse o equilíbrio realmente do positivo e negativo. Você tem que saber dosar, e essa dose aí que vem está na sua forma de encarar essa manifestação e se apossa de nós, em determinado momento, ou de prazer, muito prazer, mata; muita dor, mata também. Muito riso enlouquece, muito choro, penso que também não é uma coisa muito boa. Então, tem que haver um ponto de equilíbrio. Um homem sobre uma corda bamba, ele tem que andar para frente e para trás. Se ele ficar parado, ele cai. Ele não consegue se equilibrar por muito tempo. Para poder se equilibrar, ele tem que fazer movimentos, e o movimento é música.

Saluba, Nanã! Senhora do barro e do tempo, a orixá mais velha; e Oxalá, o sopro que nos põe de pé. Dentro desse fundamento, em que o corpo retorna à terra e o espírito segue seu caminho, como você percebe a finitude e o mistério da existência?
Através da ciência, nós sabemos que nós fomos vencedores: muitos espermatozoides, sem saber de onde também eles provêm. Sabemos simplesmente que nós já estamos nesse plano de vida, nessa vida tridimensional, nessa Terra, nesse universo. Sabemos que nós fomos vencedores, que os outros ficaram para trás, que nós conseguimos chegar. É como se nós vencêssemos um concurso dificílimo. Agora, como que isso aconteceu? Eu não tenho recordação. Apenas começou a ter um vislumbre de consciência de que isso aconteceu. Agora, como? Então, é tudo muito no plano do inexistente. O inexistente nunca quer dizer que não existiu. É uma inexistência que existiu, vai estar acima da nossa compreensão.

Em sua canção Despreconceituosamente, você declara: “Eu vou vivendo a minha vida / Não importa a cor da pele / Não me importa a cor da ida”. Diante das feridas provocadas pelo preconceito e pelo racismo, o que sustenta essa forma de viver e de se posicionar diante da vida?  
Todo momento a gente acaba se ferindo. Nós mesmos nos ferimos e também nos endurecemos, mas nós também temos que ter certeza de que nós temos que nos ferir e nos curar. Porque, se a gente causa a própria ferida e não curar essa ferida, ela vai criar uma inflamação tão grande que pode criar um abscesso maior ainda, e isso pode depois ter consequências que a gente não controla. A postura de vida a gente não assume, a postura que nos assume. E, no meu caso, eu não sou rebelde, por exemplo. Quando aquela voz que eu sei que não está, que não é minha própria voz consciente, aquela voz inconsciente que dita dentro de mim, que não pertence ao meu eu coletivo, que me pertence ao meu eu individual, e mesmo que eu não a entenda, a ponto de pronunciar o que ela quer, eu a entendo do jeito do que ela quer que eu faça, aí eu me deixo levar. É o tipo de coisa incerta em que eu tenho certeza. Quando essa incerteza vem e me diz: “Faça isso”, a minha incerteza certa me diz: “Faça”, porque você não sabe de onde ela vem, mas é ela realmente que te dirige por todas essas dimensões que você passou até chegar aqui e ser Mateus Aleluia.

Dizem que as águas mais profundas são as mais silenciosas. No Baía Profunda, você transforma esse silêncio em uma sinfonia de cura e memória. Para encerrarmos: depois de tanto caminhar, cantar e renascer, como é hoje, para você, habitar essa Baía Profunda? O que há nela que te faz acreditar que a vida, apesar de finita, é eterna enquanto for partilhada?
Em tudo o que eu faço, a respiração minha, eu estou respirando. Não sei se eu vou parar daqui a um segundo, ou um minuto, ou daqui a dez anos, 20, e mais do tempo que eu já vivi aqui, como homem respirante, como ser respirante, como ser vivente. Essa incerteza, certeza, é que me faz prosseguir. Enquanto eu posso prosseguir, eu não me detenho. Eu sinto que eu posso prosseguir, então, eu ando. Quer dizer, eu não paro só por parar. Eu penso que, até quando estamos dormindo, nós não estamos parados. Nós estamos fazendo alguma coisa que não temos plena consciência do que é. E, quando acordamos, a gente não se recorda de nada. Tudo é muito novo. E a gente parece que tudo é continuação. Aí eu digo: esse não é e que é. Como é que a gente vai explicar?


Foto: Fernando Naiberg


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Silmara Simmelink

Psicodramatista formada pela Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Especialização em Saúde do Idoso-UNIFESP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

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Psicodramatista formada pela Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Especialização em Saúde do Idoso-UNIFESP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

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