Velhos não se enxergam

Velhos não se enxergam

O velho não mudou nada, continua negando a velhice, querendo ser jovem a qualquer custo, e o custo é alto para quem não escuta o próprio corpo. Esses, além de cegos, surdos.


Fortaleza, década de 1960

Em Fortaleza, havia uma expressão curiosa: fulano não se enxerga. Pelo contexto, referia-se ao fato de uma pessoa, de qualquer idade, não ter noção sobre seus atos. Minha tia Josefa, Sefa para muitos, Neném para os parentes, ia além, usava a expressão de forma olímpica sempre que se referia a uma pessoa idosa: velhos não se enxergam.

Apesar do sujeito sem noção da oração ser simples, um velho galanteador conhecido (seu Alcides deu em cima da dona Isaura, que contou para o marido, que foi tirar satisfação, brigaram etc), na sua análise o sujeito se torna indeterminado: velhos. Confronto-a: tia, a senhora é velha, quer dizer que a senhora não se enxerga? Não, por isso sou Neném! Maro matou a charada, vai ganhar um cocorote e um doce gelado, diz tio Mariano em meio às gargalhadas. Os dois mangam de mim, mas não ligo, pois o cocorote é de mentira e o doce gelado é de coco, mas se acertei alguma coisa, foi obra do acaso.

Havia uma cumplicidade bonita entre os dois, que nos finais de semana viviam como aposentados: tia Neném no nheco-nheco da cadeira de balanço e tio Mariano no sofá cutucando as feridas do diabetes. Me chamam de Maro e de nada adianta corrigi-los, fingem-se de mocos. Maro vai ser doutor, é o mais estudioso da família.

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São Paulo, anos 2000

Pedro, vem cumprimentar seus tios, estão indo embora. Pedro demora, a mãe insiste, larga os brinquedos depois de muito custo e aparece na sala apressado: tchau, velhinhos. Por que diabos ele nos chama de velhinhos? Estamos na faixa dos 50 anos e os pais dele na faixa dos 40, não somos tão diferentes, não aparentamos a idade. Meu cunhado diz que é influência de um desenho animado, Pernalonga, um coelho que cumprimenta o caçador com um bordão: o que é que há, velhinho? O velhinho, no caso, é Hortelino Troca-Letras. Hortelino aparenta ser bem mais velho do que eu, mas como explicar para uma criança a diferença entre um velho, um velhinho e um adulto? Transporto-me para a sala da minha tia e me pego chamando-a de velha. Quantos anos tinha minha tia na época? Provavelmente menos do que tenho quando Pedro me chama de velhinho. Mas então é mentira que estou bem para idade; que não aparento ter a idade que declaro etc.?

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São Paulo, dias atuais

Minha tia, falecida; Pedro, homem feito; eu, velhinho, na altura dos 70 anos, cumprindo hora extra, desafiando o tempo. Vigor físico, tenho, ando quilômetros, minha pisada segue firme e disposição para sair da cama não falta, aliás, acordo mais cedo do que gostaria e desconfio que a idade adiantou o relógio biológico. Porém, de que adianta acordar cedo se cochilo o dia inteiro. Para me manter acordado preciso ficar ativo o tempo todo, pois se sento diante da televisão, depois do almoço, para ver o noticiário, bate uma soneira de quebrar o pescoço. E minha luta quixotesca atual é contra a próstata, a maior inimiga do homem. Levo vantagem, mas não sei até quando, pois a bendita não para de crescer e se empoderar. Benigna, diz o urologista, mas traiçoeira, fraciona meu tempo no banheiro, logo eu, que nunca gostei de matemática.

Não é preciso contar os anos nos dedos para saber que a velhice faz festa. A vista cansada, o cabelo ralo, a pele de seda, os sinais que abundam feito verrugas pelo corpo inteiro. Por isso, ninguém me engana no universo da cegueira: para sua idade, você está muito bem conservado. Pode parar com essa palhaçada e assumir a idade, comemorar, enxergá-la, dar as boas-vindas, abrace a velhice, pois o contrário é caixão. Velhice não é fardo, carregue-a com leveza, confraternize, pois ela está por toda parte, nas ruas, nos mercados, nos transportes, nos bares, teatros, shows, salve a velhice. Negá-la, camuflá-la, disfarçá-la torna o velho tão sem graça que beira o ridículo. Velhos de espírito jovem; velhos jovens por dentro; sedutores; garanhões; velhos de porta de bar que passam o dia olhando bundas e sussurrando: ai se eu te pego! Velhos ridículos que não se enxergam!

Tia Neném, os velhos que não se enxergam estão por toda a parte. Vivemos uma epidemia de velhos assim e não tem mutirão de catarata que dê conta. Pelo contrário, enxergam menos depois que se livram de qualquer indisposição, qualquer susto: me sinto bem mais jovem depois disso ou daquilo. Os velhos que não se enxergam são aqueles que não conseguiram se livrar do fantasma da juventude, acertei? Tia, vou confessar uma coisa, enxergar a velhice é muito difícil. É mais fácil se agarrar ao fantasma da juventude e gastar os tubos com cirurgia plástica. Não importa o quanto eu pareça ridículo, o importante é manter minha autoestima elevada, cercada por pessoas que vão concordar comigo: esse procedimento deixou você com pele de bebezinho. 

Luiza Erundina, a senhora conhece, votou nela, diz que a política e seus ideais a mantém jovem. O poder, tia, qualquer poder, tem a capacidade de rejuvenescer por dentro. Acredita nisso, tia? Eu sei que a senhora não acredita, pois morreu dizendo que os velhos não se enxergam. Mas Erundina, entrando nos noventa, diz que basta a pessoa ter um sonho para não envelhecer. Tia, todo mundo sonha e todo mundo envelhece, o que tem a ver a cueca com as calças? Coisa de caduca, a senhora diria, mas todo político pensa igual.

Bolsonaro, caindo aos pedaços, vangloriava-se de possuir uma força descomunal, depois que deixou o poder desmoronou, pois era tudo farsa, uma espécie de plástica social que chamam de cargo. Sem o cargo o velho que não se enxerga vira suco. Trump, esse a senhora não conhece, elegeu-se chamando o adversário de velho, como se ele, com a mesma idade, fosse jovem, não é engraçado? Mas funciona, rende votos, viraliza (essa expressão a senhora não conhece, é nova). Falam que atualmente vivemos uma polarização, mas só na política, porque o velho, tia, não mudou nada, continua negando a velhice, querendo ser jovem a qualquer custo, e o custo é alto para quem não escuta o próprio corpo. Esses, além de cegos, surdos.

Foto: arquivo Portal do Envelhecimento


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Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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