Entre as pessoas idosas, a sensação de segurança pode influenciar diretamente a disposição para sair de casa, caminhar pela vizinhança e participar da vida comunitária.
“Compreender como tornar os bairros mais propícios à caminhada para pessoas idosas apresenta-se como uma questão importante de saúde pública. No entanto, os ambientes para caminhada nem sempre estão bem adaptados para atender às necessidades do corpo envelhecido. Para que a caminhada se torne um meio de transporte atraente, eficiente e seguro para a população idosa, é preciso repensar a forma como os espaços públicos são projetados, a fim de atender às suas necessidades e preferências” (Distefano; Pulvirenti; Leonardi, 2020).
O termo caminhabilidade refere-se ao conjunto de características do espaço público capazes de favorecer ou desestimular a disposição das pessoas para realizar deslocamentos a pé, seja como forma de mobilidade entre diferentes pontos de interesse, seja como prática de atividade física [1].
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Além dessa perspectiva, a caminhabilidade também pode ser interpretada como “a medida que o ambiente construído apoia e incentiva a caminhada, proporcionando conforto e segurança aos pedestres, conectando as pessoas a diversos destinos em um tempo e esforço razoáveis, além de oferecer atrativos visuais ao longo dos percursos em toda a rede” [2].
Na dinâmica urbana, a caminhabilidade não pode ser determinada exclusivamente pela qualidade física das calçadas, pela continuidade dos percursos ou pela presença de infraestrutura acessível. A decisão de caminhar também resulta da maneira como o indivíduo percebe e interpreta o ambiente em que vive. Especialmente entre as pessoas idosas, a sensação de segurança pode influenciar diretamente a disposição para sair de casa, deslocar-se pela vizinhança e participar da vida comunitária.
Os baixos níveis de percepção de segurança são caracterizados como uma das principais barreiras à mobilidade de pedestres nas cidades [3]. Essa insegurança decorre tanto do receio de acidentes envolvendo veículos quanto do medo da violência urbana.
Também é observado que o medo de caminhar nas ruas manifesta-se de forma mais expressiva entre mulheres e pessoas idosas [4], enquanto que a sensação de segurança exerce influência significativa sobre o bem-estar subjetivo durante o envelhecimento, apresentando maior impacto nesse grupo etário quando comparado a adultos jovens e de meia-idade [5].
A relevância desse fenômeno transcende a dimensão comportamental da mobilidade. Quando o ambiente urbano é constantemente percebido como ameaçador, a exposição cotidiana a situações de vigilância, apreensão e antecipação de riscos pode constituir uma importante fonte de estresse persistente.
Diferentemente de um episódio isolado de medo, a convivência prolongada com a insegurança percebida tende a restringir comportamentos cotidianos, reduzir o sentimento de controle sobre o próprio território e favorecer um estado contínuo de tensão emocional.
No envelhecimento, o estresse crônico interage com outros fatores frequentemente presentes nessa etapa da vida, como perdas sociais, redução da mobilidade, alterações funcionais e diminuição das oportunidades de participação comunitária.
A exposição persistente ao estresse tem sido associada ao comprometimento da saúde cognitiva na velhice. Uma revisão sistemática e meta-análise identificou que níveis mais elevados de estresse percebido estavam associados a um aumento de 19% no risco de comprometimento cognitivo leve e de 44% no risco de demência[6]. Entre pessoas expostas a dois ou mais eventos de vida estressantes, o risco de demência foi 72% maior em comparação àquelas sem essa exposição [6].
Estudos longitudinais também apontam uma relação entre maior estresse percebido, carga alostática e alterações nos padrões de cortisol — hormônio associado à resposta do organismo ao estresse — com maior velocidade de declínio cognitivo e maior risco de demência [7]. Neste estudo, a “carga alostática” apresenta-se como a forma de compreender o desgaste acumulado do organismo provocado pela exposição repetida ou prolongada ao estresse.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) ressalta que a sensação de segurança no lugar onde se vive interfere diretamente na vontade de sair às ruas, repercutindo sobre a independência, a saúde física, a integração social e o bem-estar emocional das pessoas idosas [8].
Essa constatação evidencia uma diferença importante entre segurança objetiva e segurança percebida: a disposição para utilizar o espaço público não depende apenas dos índices de criminalidade registrados, mas também da confiança que os moradores desenvolvem em relação ao ambiente cotidiano. Assim, bairros com condições urbanas semelhantes podem produzir experiências emocionais distintas, influenciando de maneira desigual os padrões de caminhada e de permanência nos espaços coletivos.
Dados recentes da OMS indicam que cerca de 1 em cada 4 pessoas idosas encontra-se em situação de isolamento social, enquanto aproximadamente 12% dos adultos com 60 anos ou mais vivenciam a solidão [8].
Embora isolamento social e solidão não sejam sinônimos — o primeiro refere-se à redução objetiva das relações e contatos sociais, enquanto o segundo corresponde à experiência subjetiva de sentir-se desconectado — ambos constituem importantes determinantes sociais da saúde e estão associados à pior qualidade de vida, maior sofrimento psicológico e desfechos negativos para a saúde física e mental.
No contexto urbano, a restrição da mobilidade pode contribuir para esse processo. Uma pessoa idosa que deixa de caminhar por medo tende a reduzir também suas oportunidades de encontros espontâneos, participação em atividades culturais, frequência ao comércio local e contato cotidiano com vizinhos.
Progressivamente, a diminuição dessas interações pode enfraquecer redes de apoio e ampliar sentimentos de afastamento da comunidade. Portanto, a insegurança urbana pode atuar como elemento capaz de comprometer a dimensão relacional da vida cotidiana, favorecendo condições que podem intensificar o isolamento social.
A própria OMS reconhece que a perda de amigos, familiares e parceiros ao longo da vida constitui um dos fatores que tornam muitas pessoas idosas mais suscetíveis ao isolamento, sobretudo quando inexistem oportunidades para a construção de novos vínculos comunitários.
Ressalta-se que o envelhecimento não está necessariamente condicionado à maior fragilidade emocional. Trata-se de uma população heterogênea, marcada por diferentes trajetórias de vida, capacidades adaptativas e recursos de enfrentamento.
Condições ambientais persistentemente adversas podem aumentar a carga emocional associada ao cotidiano, sobretudo quando se combinam insegurança, isolamento, perdas afetivas e limitação das oportunidades de participação social [9]. Compreender a relação entre cidade e envelhecimento requer considerar não apenas os riscos objetivos existentes no território, mas também a experiência subjetiva de habitar esse espaço.
Estudos internacionais e nacionais indicam que intervenções centradas exclusivamente na melhoria do desenho urbano apresentam eficácia limitada em áreas caracterizadas por elevados níveis de violência [9].
Calçadas qualificadas, arborização, mobiliário urbano e travessias acessíveis, embora indispensáveis, não são suficientes para estimular a mobilidade quando permanecem sentimentos generalizados de medo e insegurança [4,5,6]. Dessa maneira, a promoção da caminhabilidade depende da articulação entre políticas de mobilidade, prevenção da violência, qualificação dos espaços públicos e fortalecimento das relações comunitárias.
Considerando que aproximadamente 25% das pessoas idosas vivenciam isolamento social em algum grau [8], a promoção de espaços públicos seguros, acessíveis e socialmente ativos constitui uma estratégia que transcende a mobilidade, alcançando dimensões fundamentais da saúde, da participação e da dignidade no processo de envelhecimento.
Referências
[1]: GLICKSMAN, A. et al. Is “walkability” a useful concept for gerontology? Journal of Housing for the Elderly, Philadelphia, v. 27, n. 1-2, p. 241-254, 2013.
[2]: SOUTHWORTH, M. Designing the walkable city. Journal of urban planning and development, Reston, v. 131, n. 4, p. 246-257, 2005.
[3]: DISTEFANO, N.; PULVIRENTI, G.; LEONARDI, S. Neighbourhood walkability: elderly’s priorities. Research in Transportation Business & Management, [s. l.], v. 40, p. 100547, 2021.
[4]: ROMAN, C. G.; CHALFIN, A. Fear of walking outdoors: a multilevel ecologic analysis of crime and disorder. American journal of preventive medicine, New York, v. 34, n. 4, p. 306-312, 2008.
[5]: LUCCHESI, S. T. et al. The role of security and walkability in subjective wellbeing: a multigroup analysis among different age cohorts. Journal of Transport & Health, v. 23, p. 100559, 2021.
[6]: FRANKS, K. et al. Association of Stress with Risk of Dementia and Mild Cognitive Impairment: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of Alzheimer’s Disease, vol. 82, no. 4, p. 1573–1590, 2021.
[7]: GOU, Y. et al. Association of allostatic load with all‐cause and cause‐specific dementia: A prospective cohort study. Alzheimer’s & Dementia: Translational Research & Clinical Interventions, vol. 11, no. 2, 2025.
[8]: WORLD HEALTH ORGANIZATION. From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies. Report of the WHO Commission on Social Connection. Geneva: World Health Organization, 2025.
[9]: ALBUQUERQUE, C. F. H.; SANTIAGO, Z. M. P. Neurourbanism integrated to the City’s Sensory Image and “Aging-In-Place”: designing responsive environments to active aging. Rio de Janeiro: Anais do 5th International Congress on Ambiances, p. 1800 – 1813, 2024.
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