Thelma: um filme metafórico

Thelma: um filme metafórico

Thelma, além de evidenciar a relação de avosidade, trazer reflexões sobre a finitude, a solidão, os medos e as fragilidades, lembra que envelhecer continua sendo uma aventura.


Nestas reflexões trazidas pelo filme Thelma, não me coloco como sabedora de tudo, tampouco tenho resposta para tantos desafios. Escrevo a partir dos sentimentos e de algumas vivências acumuladas ao longo desses anos mergulhada na Gerontologia Social. São reflexões gerontológicas despertadas por uma trama que, para mim, é repleta de metáforas.

É justamente nesse cenário que, logo no início, observei a relação intergeracional construída por meio das trocas entre avó e neto, inclusive mediadas pela digitalidade. Em um dos diálogos que mais me marcou no filme: “Eu não me sinto jovem, eu não me sinto velha.” Uma frase que, por si só, nos convida a pensar sobre a complexidade dos envelhecimentos, suas percepções e dinamicidade.

Na sequência dessa relação, o episódio disparador de toda a trama é o golpe digital (infelizmente muito conhecido), viabilizado pela fragilidade decorrente do não letramento digital. Ao mesmo tempo, situações afetivas com os demais membros da família são vivenciadas, principalmente quando Thelma destaca sentir-se envergonhada pelo ocorrido.

É a partir desse acontecimento que surge outro ponto crucial quando pensamos nas situações de golpes virtuais ou em outras fragilidades que a pessoa idosa pode vir a viver. A trama nos faz refletir sobre quem decide pela pessoa idosa. Na cena em que os familiares questionam sua independência e autonomia para continuar morando sozinha, após uma situação inesperada, somos convidados a pensar sobre os limites entre cuidado, proteção e autonomia. E a quem cabe decidir?

Idoso de cabelo curto mexendo em celular, cena do filme Thelma.

Para além dessa reflexão, o filme evidencia, de forma muito sensível, a relação de avosidade, as narrativas e as trocas com o neto, além do olhar diferenciado que ele demonstra em relação aos próprios pais. A trama também traz reflexões sobre a finitude, a solidão e os medos. Os dois personagens destacam as perdas percebidas de seus parceiros e amigos, bem como a preocupação com a solidão e com o cuidado daqueles que ainda permanecem vivos.

É nesse contexto que faço um parêntese e volto para a solidão das mulheres, para a negligência e a invisibilidade representadas naquela personagem que se senta no sofá, liga a televisão e parece ver a vida passar, “com um bater de asas”. Quantas e quantos reproduzem essa mesma vivência nos múltiplos cotidianos? Fica a reflexão.

Ainda entre as metáforas que atravessam a trama, a scooter, para mim, aparece como mais uma simbologia desse incrível filme. Ela traz a perspectiva da viabilidade, do ir e vir, da independência, da autonomia e da possibilidade de viver o inesperado, de aventurar-se.

Nessa mesma perspectiva, outro ponto bastante destacado é o processo de viuvez vivenciado pelos dois principais personagens dessa aventura. Com ele chegam as mudanças, as culpas e a saudade. Mas o filme também nos mostra que, ainda assim, existe a possibilidade de experimentar novas situações e, quem sabe, “comer sushi e gostar”.

Entre tantas reflexões, o que mais me chama atenção, enquanto estudiosa das avosidades, e que tantas vezes se reflete nos atendimentos realizados, é justamente o olhar desse neto sobre sua avó. Como bem trazido no filme: “Ela é durona.” Aqui percebemos a afetividade existente nas relações intergeracionais, onde existe cuidado e zelo, afinal “isso é pela minha saúde mental”, mas também admiração, um verdadeiro espelho geracional e uma troca genuína.

Esse olhar também se revela em outro aspecto que a película apresenta: a mudança de endereço. Para o personagem idoso, aventureiro, esse momento representa um processo de cuidado, de novas aprendizagens, de autocuidado e de encarar que a velhice chegou e, com ela, algumas dependências. Já Thelma insiste em dizer e demonstrar que ela é diferente. Em determinado momento afirma: “Eu sempre recolhi as meias.”

E é justamente aí que, como esse filme é permeado de metáforas, essa frase nos evoca a pensar e, possivelmente, fazer uma reflexão bastante intensa sobre o nosso próprio envelhecer. Talvez um dos grandes medos seja justamente a perda dos nossos papéis sociais. E poderíamos nos perguntar: quem vai recolher as meias?

Na continuidade dessa jornada, Thelma, em uma abordagem um tanto quanto “marota”, joga seu relógio tentando esconder onde está, para que sua família não a impedisse de cumprir sua missão. Essa cena nos evoca múltiplos olhares sobre as vivências e as velhices. Naquele ato existe uma criança, uma adolescente, uma mulher adulta e uma pessoa idosa. Todas essas fases lhe ensinaram artimanhas para sobreviver e lidar com as diferentes situações ao longo da vida, e isso é incrível.

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Mas toda aventura também encontra seus limites. E então, logo nos deparamos com a queda, a temida e vilã. Sim, como mais uma nuance que esse filme nos traz, ela representa o limite, a pausa. Nesse momento me deparo com inúmeras narrativas que conversam diretamente com o cotidiano do meu trabalho com pessoas idosas.

No entanto, essa queda acontece depois de ouvirmos frases como: “Somos velhos” e “Não somos o que éramos.” E, como um tapa de luva, para quem ainda acredita que envelhecer é parar no tempo, essa trama engraçada, genuína e tocante mostra exatamente o contrário. Até mesmo cada queda que a vida nos coloca à frente pode se transformar em aprendizagem. A educação para as velhices ou, como prefiro dizer, para os envelhecimentos também nos ensina a levantar, assim como em tantos outros momentos da nossa vida, e aqui com “técnicas adequadas”.

Como se o filme ainda quisesse nos surpreender, quando pensamos que essa aventura vai terminar por ali, chega o inesperado, cheio de humor, colocando em prática todos os aprendizados tecnológicos construídos ao longo da história e demonstrando o quanto somos resilientes.

E, para encerrar essa jornada, a metáfora da barata, de forma genial, rompe com padrões e com a ideia de que existe uma hora para “parar”. Para mim, não sei se também para vocês que lerão esta matéria, a barata parece representar esse limite entre acreditar que já não damos mais conta e descobrir que ainda somos capazes. E Thelma, mais uma vez, surpreende quando exerce sua autonomia e “dá o seu jeito”.

Espero que estas linhas tenham deixado em vocês o desejo de assistir a esse filme genial e, quem sabe, compartilhar suas próprias reflexões. Porque, ao final, talvez a maior metáfora de Thelma seja nos lembrar que envelhecer continua sendo uma aventura. E você, o que aprendeu com Thelma?

Serviço
Thelma
Elenco: June Squibb, Fred Hechinger, Richard Roundtree
Diretor: Josh Margolin
Ano: 2024, 1 hora e 34 minutos
Disponível em algumas plataformas digitais, como Netflix e Prime Video

Fotos: Divulgação


Raquel Pavin
Raquel da Silva Pavin

Assistente Social e Gerontóloga, Doutora em Memória Social e Bens, Especialista em Envelhecimento e Qualidade de Vida. Autora dos livros “Mulheres idosas e o apoio social” e “Narrativas de mulheres idosas avós: Construindo perspectivas sobre novos conceitos de avosidades”. Pesquisadora das velhices femininas, apoio social e avosidades. E-mail: pavinraquel@gmail.com. Instagram: @geronidade

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Raquel da Silva Pavin

Assistente Social e Gerontóloga, Doutora em Memória Social e Bens, Especialista em Envelhecimento e Qualidade de Vida. Autora dos livros “Mulheres idosas e o apoio social” e “Narrativas de mulheres idosas avós: Construindo perspectivas sobre novos conceitos de avosidades”. Pesquisadora das velhices femininas, apoio social e avosidades. E-mail: pavinraquel@gmail.com. Instagram: @geronidade

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