Uma escrita inspirada no filme o Último Azul e na obra A Vida Impossível. Em ambas, as personagens estão condenadas à reclusão da velhice.
Raquel da Silva Pavin (*)
O filme O Último Azul nos provoca a refletir sobre o quão etarista nossa sociedade é. Embora baseado em uma ficção, não são irreais as formas de tratamento e os comportamentos esperados e observados pela sociedade em relação aos corpos que envelhecem.
Ao assistir à trama, é impossível não estabelecer conexões com dois livros: Velhos demais para morrer, de Vinícius Neves Mariano, e A vida impossível, de Matt Haig.
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No primeiro, Vinícius denuncia, em forma de romance, uma sociedade que elimina os corpos velhos em nome da manutenção econômica. Essa crítica dialoga com a narrativa de Gabriel Mascaro em O Último Azul, que apresenta um Norte brasileiro onde, por determinação governamental, pessoas que completam 75 anos são obrigadas a se “mudar” para uma colônia. Há, portanto, uma importante conexão entre as duas obras.
Já em relação à obra de Matt Haig, a aproximação se dá por meio das personagens Tereza, uma mulher de 77 anos convidada a se aposentar, e Grace, uma professora de matemática aposentada aos 72.
Mas, afinal, o que as aproxima? Estão condenadas à reclusão da velhice.
Ainda que em cenários distintos, as marcas da segregação sobre os corpos envelhecidos são denunciadas nas duas tramas. E, quando observamos o recorte de gênero, esses corpos tornam-se ainda mais descartáveis aos olhos de uma sociedade patriarcal.
No entanto, como são mulheres de “voar”, o destino as coloca à prova.
Grace, após viver dois marcantes lutos, deixa sua cidade na Inglaterra e se muda para Ibiza, para uma casa herdada de uma amiga. Em uma viagem só de ida, inicia a descoberta da trama envolvendo a morte desta sua antiga amiga.
Tereza, por sua vez, depois de trabalhar duro em dois empregos, criar a filha e ser obrigada a se aposentar, declara que, antes de ir para a colônia, tinha um desejo: voar. Ao buscar realizar esse sonho, encontra o inesperado.
Assim, tanto Grace quanto Tereza são surpreendidas…
As duas obras utilizam símbolos naturais para reforçar suas mensagens: em uma, um caracol raríssimo com gosma azul encontrado nas águas do Amazonas; na outra, uma alga escondida nas profundezas da ilha de Ibiza. E o encontro com esses elementos transformam as vidas de ambas numa perspectiva libertadora.

E, nessa aventura, tanto Grace quanto Tereza intensificam suas identidades femininas, inteligência, capacidades, autonomia, afetividades e manifestam uma genuína revolta — que acredito habitar em todas as mulheres quando percebem as padronizações que nos oprimem, onde somos caladas em nossos desejos e condenadas a esconder nossas múltiplas capacidades.
Tanto O Último Azul quanto A Vida Impossível nos convidam a refletir: qual lugar ocupam as mulheres que envelhecem? Como nossa sociedade invisibiliza os corpos velhos em nome de uma lógica econômica, supervalorizando apenas o belo e o novo?
Essa escrita não se propõe a oferecer respostas fechadas diante de provocações tão intensas e complexas, mas sim a chamar atenção para a feminização das velhices e para todos os atravessamentos dessa realidade. Assim, as três obras citadas merecem destaque, em especial as produções brasileiras, pois somos um país que envelhece de forma veloz e plural. E essas velhices precisam ser evidenciadas, compreendidas e dignificadas.
Destaca-se tais produções porque realçam mulheres que querem — e devem — voar, independentemente do marcador cronológico, tempo. Assim, fazem uma denúncia ao idadismo e aos estereótipos que insistem em ditar como os corpos devem envelhecer. Basta!
Referências
HAIG, Matt. A vida impossível. Tradução de Juliana Romeiro. Rio de Janeiro: Record, 2024.
MARIANO, Vinícius Neves. Velhos demais para morrer. Rio de Janeiro: Malê, 2020.
MASCARO, Gabriel. O último azul [filme]. Brasil: Desvia Filmes, 2024.
(*) Raquel da Silva Pavin – Doutora em Memória Social e Bens, Especialista em Envelhecimento e Qualidade de Vida. Graduada em Serviço Social e Gerontologia. Autora dos livros “Mulheres idosas e o apoio social” e “Narrativas de mulheres idosas avós: Construindo perspectivas sobre novos conceitos de avosidades”. Articuladora do Grupo de Estudos sobre Velhices Plurais (GEVP). Pesquisadora das velhices femininas, apoio social e avosidades.
Instagram: @geronidade
Fotos: Divulgação do filme O Último Azul
