O envelhecimento da população no Brasil evidencia um novo nicho de mercado consumidor, caracterizado por valores, estilo de vida, necessidades e comportamentos específicos.
Por Laís Vilela Pinese (*)
As políticas públicas, os avanços na saúde e as melhorias nas condições de vida impulsionaram o processo acelerado de envelhecimento da sociedade atual. Essa realidade está relacionada à transição demográfica, evidenciando-se em países desenvolvidos e em desenvolvimento, considerando os desafios e as oportunidades. Com o intuito de esclarecer as demandas desse grupo populacional, a gerontologia se configura como um campo interdisciplinar que se beneficia do crescente uso das inovações tecnológicas para ampliar essa compreensão (WHO, 2022).
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Os estudos sobre o comportamento de consumo do público idoso têm se ampliado e despertado crescente interesse. Assim, é necessário realizar investigações considerando uma perspectiva que engloba as questões sociais inerentes a essa nova realidade demográfica, possibilitando maior compreensão das características e singularidades da população idosa, estimulando as organizações a contribuírem, em suas variadas esferas, para o desenvolvimento de produtos, serviços e ações adaptados às necessidades e demandas desse grupo geracional (Barreto; Ferreira, 2011).
O envelhecimento da população no Brasil evidencia um novo nicho de mercado consumidor, caracterizado por valores, estilo de vida, necessidades e comportamentos específicos. Atualmente, por exemplo, com o aumento da expectativa de vida, existe a ampliação da oferta de produtos que associam a imagem do idoso a cosméticos que rejuvenescem e embelezam, viagens ao exterior, turismo, vitaminas fortificantes e faculdades, além de outros segmentos (Esteves; Slongo; Esteves, 2012).
É preciso considerar que o processo de envelhecimento da população também acarreta impactos na economia, visto que os níveis de consumo e renda sofrem modificações com a idade, o que influencia o ciclo de vida econômico das pessoas. Nesse sentido, é interessante um aprofundamento nas questões relacionadas às alterações na composição da população, na estrutura familiar e no padrão de consumo dentro de todos os grupos etários ao longo do tempo. Assim, seria possível analisar o padrão de consumo e suas alterações com maior precisão, e como isso reflete na estrutura produtiva da economia (Zanon; Moretto; Rodrigues, 2013).
Ao analisar o macroambiente do mercado, nota-se que a população acima dos 60 anos tende a aumentar e, dentro dessa projeção, apresentará o crescimento populacional mais expressivo, conjuntamente com o aumento constante da expectativa de vida. Nesse cenário, observa-se que os idosos terão mais tempo ativo no mercado de trabalho e, assim, poderão ter um poder de compra maior, ressaltando que esse aumento do poder econômico fortalece a autonomia dos idosos (Benedet, 2019).
O envelhecimento populacional implica mudanças nas políticas públicas e privadas para a população e incentiva a criação de novos serviços voltados ao atendimento dos idosos, como a teleassistência, um atendimento remoto já existente no Brasil e consolidado no exterior, com ênfase em países nos quais a população idosa é predominante (Souza et al., 2024). Verifica-se que adaptações de produtos e serviços das empresas e marcas frente às demandas do público são altamente necessárias para que os clientes realmente se sintam ouvidos e satisfeitos, o que pode se refletir em uma possível lealdade e crescimento de vendas (Esteves; Slongo; Esteves, 2012).
O avanço acelerado da tecnologia reflete diretamente na mudança do perfil do consumidor nos últimos anos, em que é visível a transformação de um formato focado no consumismo mais direto de muitos bens para um maior interesse em adquirir serviços, em vez de somente produtos. Nesse contexto, os produtos e serviços estão se tornando cada vez mais personalizados e específicos, o que vem sendo considerado um diferencial relevante no mercado da terceira idade. Entretanto, ainda existem demandas e necessidades que não são atendidas, pois não foram mapeadas, falta conhecimento da sua existência por parte desse público ou existe alguma impossibilidade de produção no momento (Benedet, 2019).
Acompanhando as demais mudanças no perfil das pessoas da terceira idade, ressalta-se o interesse por temas contemporâneos como compras, tecnologia e viagens, associando-os a mais qualidade de vida para si e seus familiares. Entre as novas possibilidades de negócios voltadas ao entretenimento, destacam-se eventos, bares, restaurantes e shows especificamente voltados para os idosos, além de produtos direcionados para esse público. Desse modo, o mais apropriado para se destacar nesse mercado é unir a usabilidade e a funcionalidade de maneira tecnológica e moderna (Benedet, 2019).
Seguindo essa linha de raciocínio, as possíveis modificações englobam o design dos produtos, as formas de abordagem e a prestação de serviços para que as empresas possam ser mais assertivas ao atingir esse consumidor (Esteves; Slongo; Esteves, 2012). Portanto, diante dessas transformações, torna-se importante seguir acompanhando as preferências da terceira idade, realizar novas pesquisas, compreender as mudanças em seus comportamentos e explorar as oportunidades que surgem nesse cenário.
Assim, conclui-se que é fundamental que esse público se reconheça nas publicidades, nos espaços de convivência, nas atividades de lazer e nas diferentes iniciativas da sociedade. Além de buscar atender às suas necessidades, é preciso valorizar seus interesses, respeitar suas individualidades e ampliar suas oportunidades de escolha, sem limitá-los por estereótipos associados à idade. Pensar no envelhecimento significa reconhecer que essa fase da vida também é marcada por descobertas, interesses diversificados e experiências que dialogam com os desejos e os diferentes modos de viver de cada pessoa.
Referêrncias
BARRETO, R. O.; FERREIRA, L. “Luto e melancolia”: contribuições psicanalíticas para o entendimento dos reflexos da aposentadoria na subjetividade dos indivíduos. In: ENANPAD, 35., 2011, Rio de Janeiro. Anais… Rio de Janeiro: ANPAD, 2011.
BENEDET, J. H. H. Diagnóstico do setor de serviços ocupacionais para o público de terceira idade. 2019. Trabalho de Curso (Bacharelado em Administração) – Departamento de Ciências da Administração, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2019. Acesso em: 07 out. 2026.
ESTEVES, P. S.; SLONGO, L. A.; ESTEVES, C. S. O crescimento da terceira idade: necessidade de adaptações no mercado. Revista Negócios e Talentos, Porto Alegre, ano 9, n. 9, p. 33-47, 2012. Acesso em: 07 out. 2026.
SOUZA, A. M. M. et al. Contratação de mão de obra na terceira idade: um novo cenário para as empresas do século XXI. Revista Tópicos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 9, p. 1-17, 2024. DOI: 10.5281/zenodo.11399186. Acesso em: 07 out. 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. (2022). Ageing and Health. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/ageing-and-health. Acesso em: 06 out. 2026.
ZANON, R. R.; MORETTO, A. C.; RODRIGUES, R. L. Envelhecimento populacional e mudanças no padrão de consumo e na estrutura produtiva brasileira. Revista Brasileira de Estudos de População, v. 30, p. S45-S67, 2013. Disponível em: https://www.rebep.org.br/revista/article/view/383/pdf_359. Acesso em: 8 out. 2026.
(*) Laís Vilela Pinese é membro da Liga Acadêmica do EnvelheSer (LAES) Unaerp. E-mail: ligaacademicadoenvelheser@gmail.com.
Foto: estúdio Cottonbro/Pexels
