Dificuldades financeiras ao longo da vida podem influenciar o envelhecimento do cérebro?

Dificuldades financeiras ao longo da vida podem influenciar o envelhecimento do cérebro?

Pesquisa aponta que cuidar do envelhecimento também significa criar condições para que as pessoas possam viver com maior segurança, oportunidades e proteção social ao longo de todo o curso de vida.


As condições em que vivemos ao longo da vida podem influenciar não apenas nossa saúde física e emocional, mas também a maneira como o cérebro envelhece. Um estudo publicado em 2026 na revista científica Innovation in Aging amplia essa discussão ao investigar a relação entre adversidade financeira persistente, desempenho cognitivo e saúde cerebral ao longo do curso de vida.

Conduzida por Liu e colaboradores, a pesquisa buscou compreender se a exposição prolongada à baixa renda e às dificuldades financeiras durante a vida adulta poderia estar associada à cognição na meia-idade, às mudanças cognitivas posteriores e a marcadores de saúde cerebral na velhice.

Um dos diferenciais da pesquisa é sua abordagem longitudinal. Os pesquisadores utilizaram dados do MRC 1946 National Survey of Health and Development (NSHD), uma coorte britânica que acompanha pessoas nascidas em uma mesma semana de março de 1946.

A análise principal incluiu 2.759 participantes, com avaliações cognitivas realizadas aos 53, 63 e 69 anos. Uma parcela também participou do subestudo de neuroimagem Insight 46, possibilitando investigar marcadores da saúde cerebral por meio de exames realizados na velhice.

Para avaliar a adversidade financeira, os pesquisadores consideraram duas dimensões complementares: a baixa renda domiciliar, utilizada como indicador objetivo, e as dificuldades financeiras percebidas, representando a experiência subjetiva de enfrentar problemas econômicos.

Essas experiências foram avaliadas em diferentes momentos da vida adulta e classificadas como inexistentes, intermitentes ou persistentes. Dessa forma, o estudo pôde investigar não apenas se uma pessoa enfrentou dificuldades financeiras, mas principalmente por quanto tempo essas condições estiveram presentes em sua trajetória.

Os resultados mostraram uma associação em padrão de dose-resposta: quanto maior a exposição à adversidade financeira, menor foi o desempenho em velocidade de processamento e memória verbal aos 53 anos.

Um resultado que exige atenção foi a observação de declínio mais lento da memória verbal entre alguns participantes mais expostos à adversidade financeira. Os próprios pesquisadores ressaltam que esse achado não significa que as dificuldades financeiras tenham efeito protetor. A interpretação é que esses indivíduos já apresentavam desempenho cognitivo inferior aos 53 anos e, portanto, partiam de um nível basal mais baixo.

Esse aspecto é importante porque mostra que parte das desigualdades cognitivas pode estar estabelecida antes mesmo da velhice.

A pesquisa também investigou se a adversidade financeira estava relacionada a marcadores objetivos de saúde cerebral.

Maior exposição à baixa renda domiciliar esteve associada ao maior volume ventricular entre 69 e 71 anos, um marcador relacionado a alterações estruturais cerebrais.

Os resultados também indicaram que determinadas pessoas poderiam ser mais vulneráveis aos efeitos da adversidade financeira persistente. Associações mais expressivas com marcadores de atrofia cerebral foram observadas entre homens, pessoas que vivenciaram condições socioeconômicas desfavoráveis na infância e portadores do alelo APOE-ε4, um importante fator genético de risco para a doença de Alzheimer.

Entre portadores do APOE-ε4, a exposição persistente à baixa renda ou às dificuldades financeiras esteve relacionada a maiores taxas de atrofia cerebral e hipocampal e maior expansão ventricular. Os resultados sugerem, portanto, uma possível interação entre vulnerabilidades sociais e biológicas.

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O estudo dialoga diretamente com a perspectiva do curso de vida e com a teoria da desigualdade cumulativa.

Segundo essa abordagem, experiências adversas não necessariamente desaparecem quando determinado período termina. Desvantagens podem se acumular e interagir ao longo das diferentes etapas da vida, contribuindo para trajetórias distintas de saúde.

Assim, não é apenas uma dificuldade financeira isolada que merece atenção. A persistência da adversidade ao longo dos anos parece ser especialmente relevante.

Os autores discutem ainda que as preocupações financeiras constantes podem aumentar a carga cognitiva e o estresse crônico, consumindo recursos necessários para processos como atenção e tomada de decisão. Entretanto, os mecanismos que ligam adversidade financeira e alterações cerebrais ainda precisam ser investigados em novos estudos.

Os resultados ampliam uma discussão fundamental para o envelhecimento: a prevenção do declínio cognitivo e da demência não pode ser compreendida exclusivamente como responsabilidade individual.

Atividade física, alimentação saudável, controle de fatores cardiovasculares, estimulação cognitiva e participação social são importantes para a saúde cerebral. Entretanto, as oportunidades de adotar e sustentar comportamentos saudáveis também são influenciadas pelas condições sociais e econômicas em que as pessoas vivem.

O estudo de Liu e colaboradores reforça que reduzir desigualdades, combater a pobreza persistente e oferecer proteção a pessoas financeiramente vulneráveis também pode fazer parte de uma abordagem de saúde pública voltada ao envelhecimento cerebral.

Mais do que olhar apenas para a velhice, os achados convidam a pensar a saúde cerebral como resultado de experiências acumuladas durante décadas. Cuidar do envelhecimento, portanto, também significa criar condições para que as pessoas possam viver com maior segurança, oportunidades e proteção social ao longo de todo o curso de vida.

Referências
LIU, Yiwen; WELS, Jacques; JAMES, Sarah-Naomi; KEUSS, Sarah E.; MADDOCK, Jane; PARKER, Thomas D.; STAFFORD, Jean; SCHOTT, Jonathan M.; RICHARDS, Marcus; PATALAY, Praveetha. Persistent financial adversity and cognitive aging: a life course investigation. Innovation in Aging, v. 10, n. 8, igag054, 2026. DOI: https://doi.org/10.1093/geroni/igag054

(*) Assinam este texto pela ABG – Associação Brasileira de Gerontologia as autoras:
Flávia Roberta Evaristo Veloso – Gerontóloga, graduada pela Universidade de São Paulo (USP). Pós-graduanda em Reabilitação Neuropsicológica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) e em Neurociências pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Atua como Assessora Científica do Método SUPERA – Ginástica para o Cérebro e integra o Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo (GETCUSP), vinculado ao programa USP 60+, sob coordenação da Profa. Dra. Thaís Bento Lima da Silva. Desenvolve atividades nas áreas de envelhecimento saudável, estimulação cognitiva, reabilitação neuropsicológica, capacitação de equipes multiprofissionais de saúde, educação gerontológica, inclusão digital e promoção da saúde da pessoa idosa. E-mail: flaviareveloso@gmail.com
Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH- USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Coordena Grupos de Apoio para cuidadores da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera com a condução de ensaios clínicos. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br.

Foto de Jonathan Borba/Pexels


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Blog do Gerontólogo - Iniciativa coordenada pela Diretoria Científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Reúne discussões sobre as potencialidades e as possibilidades de atuação dos profissionais bacharéis em Gerontologia, bem como notícias sobre projetos, programas e serviços liderados por gerontólogos. São discutidos temas contemporâneos sobre a pauta do envelhecimento, enaltecendo as contribuições do gerontólogo à sociedade. Henrique Salmazo da Silva - Presidente Tatiane Andrade Alvarez - Vice-Presidente E-mail: abgeronto@gmail.com

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