A ciência tem demonstrado que hábitos podem contribuir para a proteção da saúde cerebral e redução do risco de desenvolvimento da Doença de Alzheimer.
Você já se perguntou se é possível cuidar do cérebro hoje para reduzir o risco de problemas de memória no futuro? Com o aumento da expectativa de vida e o envelhecimento populacional, cresce também a preocupação com doenças neurodegenerativas, como a Doença de Alzheimer. Embora ainda não exista uma forma garantida de prevenir seu surgimento, a ciência tem demonstrado de forma cada vez mais consistente que determinados hábitos de vida podem contribuir significativamente para a proteção da saúde cerebral e para a redução do risco de desenvolvimento da doença.
A Doença de Alzheimer é uma condição progressiva que afeta principalmente a memória, o pensamento, a linguagem e o comportamento, sendo mais frequente entre pessoas idosas. Seu impacto vai além do indivíduo, alcançando também familiares, cuidadores e os sistemas de saúde. Nesse contexto, a adoção de práticas saudáveis ao longo da vida tem sido apontada como uma importante estratégia para a promoção da saúde cognitiva e para a prevenção ou o retardamento do declínio das funções mentais (Lira et al., 2024). Isso significa que as escolhas realizadas no cotidiano podem produzir efeitos significativos na saúde do cérebro ao longo do processo de envelhecimento.
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Entre os fatores mais amplamente reconhecidos pela literatura científica está a prática regular de atividade física. Exercícios como caminhadas, dança, hidroginástica, musculação leve e outras modalidades adaptadas às condições individuais contribuem para melhorar a circulação sanguínea, inclusive no cérebro, favorecendo o funcionamento adequado das células nervosas e auxiliando na manutenção das funções cognitivas. Além disso, a atividade física desempenha papel fundamental no controle de doenças crônicas, como hipertensão arterial e diabetes, condições associadas ao aumento do risco de comprometimento cognitivo e demência.
Estudos também indicam que pessoas fisicamente ativas apresentam menor probabilidade de desenvolver demências ao longo da vida, além de experimentarem benefícios relacionados ao humor, à redução do estresse e à melhora da qualidade do sono, fatores que também impactam diretamente a saúde cerebral (Lira et al., 2024).
A alimentação constitui outro componente essencial na prevenção da Doença de Alzheimer. Uma dieta equilibrada, rica em frutas, verduras, legumes, grãos integrais e fontes de gorduras saudáveis, como azeite de oliva, castanhas e peixes, está associada à proteção das funções cognitivas e à preservação da saúde vascular. Esses alimentos contribuem para a redução de processos inflamatórios e do estresse oxidativo, mecanismos frequentemente relacionados ao envelhecimento cerebral e às doenças neurodegenerativas.
Em contrapartida, o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares, sódio e gorduras saturadas, pode acelerar processos prejudiciais ao funcionamento cerebral. Nesse contexto, padrões alimentares como a dieta Mediterrânea têm sido amplamente estudados e associados à redução do risco de declínio cognitivo e demência, sendo atualmente uma das estratégias nutricionais mais recomendadas para a promoção da saúde cerebral.
Além dos cuidados com o corpo, manter a mente ativa é igualmente fundamental para a preservação da cognição. Atividades como leitura, escrita, jogos de raciocínio, palavras cruzadas, aprendizagem de novos idiomas, prática musical ou participação em oficinas educativas representam importantes formas de estimulação cognitiva. Essas experiências favorecem o fortalecimento das conexões entre os neurônios e contribuem para a formação da chamada reserva cognitiva, conceito que se refere à capacidade do cérebro de compensar alterações relacionadas ao envelhecimento ou à doença, retardando o aparecimento de sintomas clínicos (Lira et al., 2024). A estimulação intelectual contínua, portanto, desempenha papel protetor importante e pode contribuir para maior autonomia e qualidade de vida ao longo dos anos.
O convívio social também é reconhecido como um fator de proteção significativo para a saúde do cérebro. Manter vínculos afetivos, participar de grupos comunitários, realizar atividades em conjunto e cultivar relações familiares e de amizade favorecem o bem-estar emocional e promovem constante estimulação cognitiva.
As interações sociais exigem atenção, memória, linguagem e capacidade de adaptação, funcionando como importantes exercícios mentais. Em contrapartida, o isolamento social tem sido associado ao aumento do risco de declínio cognitivo, depressão e piora da qualidade de vida (Lira et al., 2024). Participar de grupos de convivência, oficinas culturais, atividades religiosas ou encontros familiares são exemplos simples, mas valiosos, de estratégias que fortalecem tanto a saúde emocional quanto a cognição.
Carvalho et al., (2024) destacam que um aspecto frequentemente negligenciado, mas essencial para a prevenção do comprometimento cognitivo, é a qualidade do sono. Dormir bem é fundamental para que o cérebro organize memórias, consolide aprendizagens e elimine substâncias potencialmente prejudiciais ao tecido cerebral. Alterações como insônia persistente, ronco intenso, despertares frequentes ou sonolência excessiva durante o dia merecem atenção e, quando necessário, avaliação profissional. Estudos apontam que o sono adequado está diretamente relacionado à manutenção das funções cognitivas e à redução de fatores associados ao risco de demência.
Além disso, controlar doenças crônicas, evitar o tabagismo e reduzir o consumo excessivo de álcool são medidas indispensáveis para a proteção da saúde cerebral. Esses fatores estão intimamente ligados à prevenção de doenças cardiovasculares e metabólicas, que podem comprometer a circulação cerebral e acelerar processos neurodegenerativos. Assim, adotar um estilo de vida saudável deve ser compreendido como uma estratégia global de cuidado, capaz de beneficiar não apenas o cérebro, mas a saúde integral do indivíduo (Lira et al., 2024).
Em síntese, embora não exista uma forma única ou definitiva de prevenir a Doença de Alzheimer, a ciência já demonstra de forma consistente que hábitos saudáveis podem reduzir significativamente os riscos e favorecer um envelhecimento mais ativo, autônomo e com melhor qualidade de vida. Cuidar do corpo, estimular a mente, cultivar relações sociais e investir em práticas de autocuidado representam escolhas valiosas para o presente e para o futuro. Pequenas mudanças incorporadas ao cotidiano, quando mantidas ao longo do tempo, podem gerar benefícios duradouros. Nesse sentido, a prevenção começa hoje, por meio de atitudes simples que fortalecem a saúde do cérebro e ampliam as possibilidades de envelhecer com bem-estar e autonomia.
Referências
CARVALHO, L. G. S. et al. A influência dos hábitos de vida no diagnóstico, tratamento e prevenção do Alzheimer. Revista Brasileira de Neurologia, 2024.
LIRA, G. G. O. et al. Estilo de vida e a Doença de Alzheimer: uma revisão integrativa. Revista de Pesquisa Interdisciplinar, 2024.
LIRA, G. G. O. et al. Estilo de vida saudável como fator preventivo da Doença de Alzheimer: revisão integrativa. Revista Ciência Plural, 2024.
SOUSA, M. J.; GUIMARÃES, J. Prevenção da doença de Alzheimer: o papel da dieta Mediterrânica. Revista de Nutrição, 2023
Este texto da ABG contou com a autoria de:
Eloá Silva Lira – Graduanda do curso de Bacharelado em Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Atua como monitora voluntária do projeto Oficina Revivendo Memórias através das paixões e também da oficina Mentes Ativas, ambas da USP 60+ da EACH-USP, coordenadas pela Profa. Dra. Thais Bento. E atua como estagiária no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, orientada pelo Prof° Dr. Luciano Pontes. E-mail: eloaslira@usp.br | LinkedIn: https://br.linkedin.com/in/elo%C3%A1-lira-952133274.
Catiana Silva – Graduanda do curso de Bacharelado em Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). E-mail: catianasilva@usp.br.
Larissa Januário de Oliveira – Graduanda do curso de Bacharelado em Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Atua como monitora do projeto Oficina Revivendo Memórias através das paixões da USP 60+ da EACH-USP, coordenado pela Profa. Dra. Thais Bento. E atua como coordenadora da Jornada Universitária da Saúde da Universidade de São Paulo.
Adriana Nancy Medeiros dos Santos – Doutora em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Gerontóloga e Mestra em Gerontologia pela Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP), vinculado ao Departamento de Neurologia, e do Laboratório de Investigação Médica em Envelhecimento (LIM-66) do HC-FMUSP. É pesquisadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. É membro da International Society to Advance Alzheimer’s Research and Treatment (ISTAART) e integra a diretoria científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG).
Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH- USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Coordena Grupos de Apoio para cuidadores da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera com a condução de ensaios clínicos. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br.
Foto de Yaroslav Shuraev/Pexels
