O medo de estar só na morte é o que move Kristófer no filme Touch, depois de se deparar com o fantasma da Doença de Alzheimer.
Touch é um filme de extrema delicadeza, feito para ser saboreado por almas sensíveis, visto e revisto, pois é impossível absorver todos os “toques” passados pela produção com uma só olhada. Toque (Touch), o título, carrega dois significados, o da sutileza, delicadeza, sensibilidade, e o medo do contágio, pois o filme se passa durante a pandemia da Covid 19, mas o medo do contágio vai além e você será surpreendido por algo inimaginável que não irei revelar.
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Os filmes que retratam a velhice costumam ter como protagonistas mulheres, mas em Touch o papel cabe ao ator islandês Egill Ólafsson, 73 anos, no papel do velho Kristófer e de Palmi Kormákur no papel do jovem Kristófer. Ao ser confrontado com o início da demência, ele segue a recomendação médica de resolver suas pendências enquanto pode. Literalmente recorre a sua caixa de memória, seus apontamentos, sua poesia em forma de haikai, e toma uma decisão radical: fechar seu restaurante na Islândia e viajar para Londres na tentativa de descobrir o paradeiro de Miko, o primeiro amor de sua vida.
O jovem Kristófer estuda economia em Londres, é engajado politicamente e se revolta contra o sistema, abandona as aulas para trabalhar em um restaurante japonês. O velho Kristófer, ao desembarcar em Londres, nos conta, por meio de suas memórias, esse período no qual se apaixona pela filha do dono do restaurante, que não existe mais, mesmo assim vai visitar o local, onde funciona um estúdio de tatuagem. Para não perder a viagem, contrata o trabalho do tatuador para desenhar em seu ombro um ideograma que significa coragem.
O jovem Kristófer cai nas graças do senhor Takahashi, que o ensina a falar japonês e permite que pratique a arte de cozinhar. Seus amigos da faculdade não entendem sua loucura, não veem que a paixão por Miko faz com que permaneça no trabalho. Ela, porém, tem namorado, mas o jogo entre os dois, uma referência explícita a Lennon e Yoko, paga o ingresso. Miko pergunta: você viu os dois na cama? Kristófer responde: vi, mas ninguém começa uma revolução em uma cama de hotel cinco estrelas.
Os toques sutis aparecem a todo instante, difícil perceber. Ao perguntar para Takahashi por que escolheu Londres para morar e trabalhar, ele responde que era o trecho em que a passagem, a partir de Tóquio, era mais barata. Dá a entender que a família é de Tóquio, mas Miko revela a verdade, sem entrar em detalhes, diz que a família é de Hiroshima e que ela é uma hibakusha.
Kristófer entende que ser uma hibakusha não é uma coisa boa, e que deve manter a informação em sigilo. O tempo todo haverá questionamento sobre a origem e até a nacionalidade da família. Quando os amigos de Kristófer aparecem no restaurante e ele vai cumprimentá-los, questionam se os donos são realmente japoneses. A dona da pensão, onde Kristófer mora, o aconselha a tomar cuidado com a garota, ela pode ser perigosa. Quando Kristófer pergunta para uma colega de trabalho japonesa o significado da palavra hibakusha, ela reage ofendida e manda ele se ocupar com outros assuntos. São falas soltas que passam despercebidas, desnecessárias e aparentemente sem sentido, porém, são falas terríveis, violentas, discriminatórias, que só serão percebidas no final.
O namorado de Miko desaparece depois de uma conversa com o pai dela. Miko supera rapidamente o rompimento, pois se apaixona por Kristófer, mas namoram escondidos, pois ela não quer que o pai saiba. Corte para a cena inicial quando Kristófer, o velho, aparece cantando em um coral na Islândia. Corte para o aniversário de um cliente importante, quando Kristófer, o novo, é convidado a cantar e escolhe a mesma música cantada no coral, uma ode à memória: Os dias que passaram estão guardados em meu coração / Aquelas lembranças tão lindas ficarão para sempre comigo / E eu nunca esquecerei… Essas lembranças boas e inesquecíveis, infelizmente, é o que falta a Miko para ter uma vida normal.
O velho Kristófer é convidado a deixar o hotel, que deve fechar devido a pandemia. Antes, com a ajuda do gerente, consegue o contato da antiga colega de trabalho, que reside em uma casa de repouso. A colega conta sobre Miko, que foi embora com o pai para Hiroshima, e mostra uma carta de onde Kristofér saca o endereço. Decidido a resolver sua pendência, parte para o Japão. Embora fale japonês, descobre em um bar de Tóquio uma palavra nova, Kodokushi, que significa medo de morrer só. Se é isto que o move, não sabe, mas precisa encontrar Miko.
Embarca em um trem de alta velocidade, o shinkansen, e depois em um comum, que permite admirar o monte Fuji. Finalmente o reencontro com Miko 50 anos depois. Ela vive só, rodeada por desenhos infantis. Novas memórias vêm à tona. Ela revela o que sofreu por ser uma hibakusha, sobrevivente da bomba atômica, e conta sobre sua gravidez, o que levou o pai a fechar o restaurante e deixar Londres. Kristófer descobre que é pai de Akira, mas Akira não sabe que é filho do casal, pois foi adotado logo que nasceu. Akira se tornou um chef famoso na região e toca um bar em uma cidade próxima. Miko é uma frequentadora assídua e costuma conversar com Akira sobre todos os assuntos. E assim, sem turbulências, o filme acaba como começa, sutilmente, com o casal jantando no restaurante de Akira e depois caminhando de braços dados ao longo do rio no qual o restaurante se encontra ancorado.

Serviço
Filme “Touch”
Direção: Baltasar Kormákur
Roteiro Ólafur Jóhann Ólafsson, Baltasar Kormákur
Elenco: Egill Olafsson, Pálmi Kormákur Baltasarsson, Kōki
Título original: Snerting
Ano: 2024
Netflix
Fotos: Divulgação
