Encontros sobre cuidado e gestão de ILPIs sinalizam a transição de um modelo assistencialista para um modelo centrado na pessoa idosa.
A transição da estrutura etária, acompanhada pelo rápido aumento da população idosa e pela reconfiguração das dinâmicas familiares, exige do país respostas estruturadas e urgentes. No centro dessa reflexão estão as Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas (ILPIs).
Inclusive, foi divulgado ontem pela mídia nacional a criação de um Ministério da Pessoa Idosa para 2027, a fim de incluir atenção social, saúde e proteção da população idosa.
A verdade é que os meses de setembro e outubro marcam um momento decisivo para o ecossistema de cuidados que, durante décadas, flutuou entre a invisibilidade de políticas públicas e a carga social do estigma.
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O debate sobre a gestão institucional, a humanização da assistência e a profissionalização do cuidado tomou corpo por meio de três eventos de apelo estratégico, todos organizados no estado de São Paulo e por mulheres comprometidas com a temática há muitos anos: Márcia Vieira, Aline Salla e Eliz Taddei:
1) CONACARE Internacional, dedicado a reunir profissionais de saúde, lideranças do poder público, setor privado e terceiro setor, familiares e cuidadores para ampliar o movimento para qualificação dos cuidadores e aperfeiçoamento das redes de cuidado e da economia da longevidade, idealizado por Márcia Vieira e pela MasterCare Brasil; 2) MPC Brasil 2026 (Meeting dos Profissionais de Cuidar) – promovido por Aline Salla (CEO da Revista Cuidar) e realizado em São José do Rio Preto (SP); e 3) Trevoo Expo Summit 2026, idealizado por Eliz Taddei, a ser realizado no Centro de Convenções Frei Caneca, em São Paulo, amanhã e sábado (dias 30 e 31 de outubro).
Unidos por um imperativo ético e técnico, esses encontros sinalizam um ponto de virada: a transição definitiva de um modelo puramente assistencialista ou focado na doença para uma gerontologia aplicada, humana, sustentável e centrada na pessoa.
CONACARE 2026: Longevidade não tem idade
No final de setembro foi realizado o CONACARE 2026, que teve como objetivo promover saúde, aprendizado, cuidado e bem-estar de forma constante, expandindo o conceito de viver muito para o de viver bem, sempre. O evento destacou que a longevidade traz conquistas inéditas, mas expõe também vulnerabilidades profundas, como sistemas de saúde pressionados, redes de cuidado insuficientes, famílias sobrecarregadas, desigualdades ampliadas e um déficit crescente de profissionais qualificados para o cuidado de longa duração. Destacou ainda que o envelhecimento tornou-se um eixo estratégico para a economia, o trabalho, as cidades (como transformar os lugares onde vivemos em espaços que acolhem, conectam e cuidam das pessoas ao longo da vida), a inovação, a proteção social e os direitos humanos. Por isso exige novas respostas, mais integrais, humanas e sustentáveis. Afinal, a sociedade brasileira quer envelhecer bem, com autonomia, dignidade e cuidado.
MPC Brasil 2026: “não corpos, pessoas” e a deshierarquização do cuidado
Idealizado na Itália há mais de uma década por Giulia Dapero e trazido ao país sob a liderança de Aline Salla (CEO da Revista Cuidar), o MPC Brasil 2026 estreou no início de outubro no Sítio Espaço Viva. O evento propôs quebrar os paradigmas tradicionais dos congressos acadêmicos, a começar pelo espaço físico onde o evento foi concretizado. Sob o tema emblemático “Não corpos, pessoas: lançando luz sobre o significado de cuidar”, a imersão eliminou palcos e distâncias hierárquicas, promovendo rodas práticas de escuta e aprendizado horizontal.
O encontro debateu questões do cotidiano institucional, entre elas: 1) O manejo das demências no dia a dia – A abordagem comportamental das síndromes demenciais, enfatizando a redução do estresse nas equipes e o banho humanizado sem contenções; 2) Segurança jurídica e sustentabilidade – A necessidade de profissionalizar contratos, organizar registros institucionais e viabilizar a captação de recursos via editais do Fundo da Pessoa Idosa; e 3) Saúde mental e preservação das equipes – A incorporação do autocuidado como premissas indispensáveis. Equipes sobrecarregadas e desamparadas não conseguem sustentar um cuidado de excelência.
Ao destacar que “ninguém cuida sozinho”, o MPC Brasil ratificou que a qualidade da ILPI nasce da escuta, da presença consciente e do reconhecimento da subjetividade do residente.
Trevoo Expo Summit 2026: inovação, negócios e métricas de qualidade
Complementando essa agenda, o Trevoo Expo Summit 2026 reúne na capital paulista gestores, profissionais de saúde, órgãos de fiscalização, a indústria e prestadores de serviços. Presidido por Eliz Taddei, o encontro projeta as ILPIs, moradias e serviços sênior sob a ótica da modernização operacional e da viabilidade econômica.
O ecossistema do Trevoo Summit prioriza eixos estruturantes para a profissionalização do setor, como 1) Exposição de Experiências Inovadoras – Apresentação de cases de sucesso em ILPIs públicas, privadas e filantrópicas, abordando modelos centrados na autonomia do residente, ambiência, integração comunitária e redução de contenções; 2) Tecnologia e Eficiência em Gestão – A adoção de softwares de prontuário eletrônico, IoT para prevenção de quedas, ferramentas de governança financeira e estratégias de compliance junto à Vigilância Sanitária; e 3) Multidisciplinaridade e Hotelaria Sênior – A urgência de enxergar a moradia coletiva para pessoas idosas além da clínica, integrando gastronomia adaptada, arquitetura gerontológica e atividades com propósito de vida.
O evento consolida o entendimento de que a sustentabilidade financeira e a gestão eficiente não se contrapõem ao afeto; pelo contrário, constituem o suporte indispensável para a dignidade contínua do atendimento.
Caso você tenha perdido os dois primeiros eventos, ainda dá tempo de participar do Trevoo Summit. Leitores do Portal do Envelhecimento contam com desconto especial de 20% na inscrição, bastando utilizar o cupom PORTAL20 no ato da inscrição.
O desafio institucional
A convergência dos três eventos, em que o Portal do Envelhecimento foi um dos apoiadores, evidencia que as ILPIs brasileiras estão em pleno processo de amadurecimento. Prova disso é que nossa fundadora, Beltrina Côrte, estará participando como mediadora na mesa em que se debaterá “os 7 dilemas éticos que toda ILPI já enfrentou (ou vai enfrentar)” no próximo sábado. Ou seja, não há mais espaço para a improvisação ou para a reprodução de padrões institucionais desatualizados com a nossa Constituição e o Estatuto da Pessoa Idosa. O mercado e a sociedade exigem instituições transparentes, humanizadas, juridicamente blindadas e gerontologicamente capacitadas.
Integrar a teoria à prática do cuidado, garantir o bem-estar dos colaboradores e aplicar tecnologias e processos eficientes são metas complementares. Parabenizamos as organizadoras desses três eventos – Márcia Vieira, Aline Salla e Eliz Taddei – por contribuírem com a qualificação do ecossistema do cuidado, ganhando espaço tão potente para transformar a velhice em situação de institucionalização em uma etapa de vida segura, digna, respeitada e planejada.
Foto de Dr. Nafish Sadik/Pexels
