À medida que as capacidades sensoriais e cognitivas se transformam ao longo do processo de envelhecimento, o espaço atua como mediador da autonomia, orientação e qualidade de vida.
A relação entre percepção e ambiente construído torna-se particularmente relevante diante do envelhecimento populacional. À medida que as capacidades sensoriais e cognitivas se transformam ao longo do tempo, o espaço passa a atuar como mediador da autonomia, da orientação e da qualidade de vida.
A neuroarquitetura, ao articular evidências da neurociência com decisões projetuais, oferece instrumentos para compreender como os estímulos ambientais podem sustentar a independência funcional, a autonomia e favorecer processos de envelhecimento mais saudáveis.
“(…) a percepção espacial é um fenômeno de estrutura e só se compreende no interior de um campo perceptivo que inteiro contribui para motivá-la, propondo ao sujeito concreto uma ancoragem possível”. (Merleau-Ponty, 2018. p. 377)
A experiência espacial não é recebida de forma passiva. O cérebro interpreta, complementa e organiza as informações provenientes da luz, das cores, das texturas, dos sons e das formas, construindo significados que influenciam emoções, comportamentos e respostas fisiológicas.
Em pessoas idosas, essa dinâmica possui um papel ainda mais decisivo, pois pequenas alterações na legibilidade do ambiente podem facilitar, ou até mesmo dificultar, a mobilidade, a memória e a sensação de segurança.

Foto: Instituição de Cuidados de Longa Permanência Wellesley Central Place, localizado em Toronto, Canadá. Fonte: TriAxis.com (2022).
Entre os elementos mais investigados está a cor. Determinadas tonalidades são capazes de modular níveis de excitação e fadiga, contribuindo para reduzir o estresse e melhorar a concentração.
Em contextos de cuidados de longa duração, escolhas cromáticas adequadas auxiliam profissionais e usuários; em moradias e espaços públicos voltados ao envelhecimento, colaboram para criar atmosferas arquitetônicas mais previsíveis, confortáveis e compreensíveis. A clareza visual favorece a orientação espacial e reduz a sobrecarga cognitiva, condição essencial para a manutenção da funcionalidade e da tomada de decisões.
Na atmosfera arquitetônica, “sem dúvida, há um saber sensível, inelutável, primitivo, fundador de todos os demais conhecimentos, por mais abstratos que estes sejam; um saber direto, corporal, anterior às representações simbólicas que permitem os nossos processos de raciocínio e reflexão”. (Duarte Jr., 2000, p. 14)
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Foto: Instituição de Cuidados de Longa Permanência Wellesley Central Place, localizado em Toronto, Canadá. Fonte: TriAxis.com (2022).
Além da tonalidade propriamente dita, a literatura destaca a importância do contraste como recurso fundamental de legibilidade ambiental. Com o avanço da idade, ocorrem reduções progressivas da acuidade visual, da sensibilidade ao contraste e da capacidade de adaptação luminosa.
Nesse cenário, diferenças nítidas entre o piso e a parede, entre os degraus e os patamares, entre as portas, os corrimãos e os seus fundos, deixam de ser meros detalhes estéticos e passam a constituir mecanismo de segurança. Ambientes com baixo contraste tendem a rebaixar a percepção de profundidade, dificultar a identificação de limites espaciais e aumentar a probabilidade de tropeços.
Ao reforçar bordas, mudanças de nível e percursos por meio de contrastes cromáticos e luminotécnicos, o projeto amplia a compreensão do espaço, diminui incertezas perceptivas e contribui diretamente para a prevenção de quedas.
Trata-se, portanto, de uma estratégia que atua simultaneamente nos domínios cognitivo, funcional e emocional: melhora a leitura do ambiente, sustenta a autonomia e reduz a ansiedade associada ao deslocamento.
As formas e os desenhos presentes nos espaços também influenciam o modo como as pessoas se sentem, e esses efeitos podem ser mensurados. Certos padrões repetitivos, comuns na natureza e intitulados de fractais, como os hexágonos presentes nas colmeias, costumam estar ligados ao relaxamento e à diminuição do estresse, ajudando o cérebro a permanecer calmo e, ao mesmo tempo, atento.

Foto: Projeto pavilhão sazonal constituído por madeira e por formas hexagonais, realizado em parceria entre o Instituto de Design Computacional (ICD), o Instituto de Estruturas de Edifícios e Projeto Estrutural (ITKE) e os alunos da Universidade de Stuttgart, Alemanha. Fonte: Archadaily.com (2011).
Quando o ambiente construído incorpora esse tipo de referência natural, ele pode despertar sensações parecidas com aquelas vividas ao ar livre, mesmo em áreas urbanas muito adensadas ou dentro de instituições de longa permanência com carência de áreas verdes. Para os autores contemporâneos da gerontologia ambiental, isso significa ampliar as possibilidades de descanso mental e recuperação da atenção sem que a pessoa precise realizar deslocamentos difíceis e cansativos.
“(…) a gerontologia ambiental — subárea interdisciplinar da gerontologia — envolve a análise de fatores que podem contribuir para a promoção de um envelhecimento saudável, como a acessibilidade, segurança, conectividade social e estimulação cognitiva proporcionadas pelos espaços e ambientes em que as pessoas idosas estão inseridas”. (Albuquerque; Santiago; Pereira, 2025)
Na arquitetura, tais padrões fractais podem ser observados em rosáceas, rendilhados e composições geométricas frequentemente apresentam estruturas em que formas semelhantes reaparecem em tamanhos diferentes, como círculos dentro de círculos, pétalas subdivididas e ramificações que compõem o desenho maior. Esse princípio de auto-semelhança produz alta complexidade visual mantendo ordem e coerência, favorecendo a leitura do conjunto mesmo diante da riqueza de detalhes.
Do ponto de vista perceptivo, essas configurações favorecem o engajamento da atenção, produzem sensação de harmonia e podem induzir estados contemplativos. A repetição em diferentes escalas organiza o campo visual, orienta o olhar e reforça a ideia de infinitude e transcendência buscada pelas catedrais da arquitetura medieval, por exemplo, reforçada pela interação entre os vitrais e a luz natural.

Foto: Interior da Catedral de Santa María de León, também conhecida como “Casa da Luz”, em León, Espanha. Fonte: Canva.com (2026).
O som constitui outra variável determinante. Paisagens sonoras influenciam humor, percepção temporal e desempenho cognitivo. Ruídos intensos e imprevisíveis tendem a elevar a tensão e prejudicar tarefas que exigem foco e planejamento, enquanto ambientes acusticamente equilibrados favorecem comunicação, descanso e participação social.
Para pessoas idosas, especialmente aquelas com maior vulnerabilidade cognitiva ou com certo declínio auditivo, o controle da ambiência sonora pode representar a diferença entre engajamento e retraimento.
O olfato, por sua vez, conecta-se diretamente a circuitos neurais ligados à emoção e à memória autobiográfica. Aromas específicos têm sido associados à redução de marcadores de estresse e à melhoria do bem-estar subjetivo.
Em projetos voltados ao envelhecimento em casa e na comunidade — aging in place —, estímulos olfativos devem ser empregados com cautela e intencionalidade, respeitando preferências individuais e evitando excessos que possam gerar desconforto ou confusão.
O conceito de “sonic seasoning”, compreendido como “tempero sônico” pelo pesquisador Charles Spence, demonstra que o cérebro integra informações auditivas, visuais, táteis e olfativas para construir aquilo que é chamado de gosto. O sabor, portanto, não é apenas da língua; ele é também uma experiência cognitiva.

Foto: Ambiências sonoras podem favorecer apetite, reduzir estresse durante refeições ou estimular memórias afetivas, levando em consideração que a experiência alimentar depende do ambiente e da situação vivenciada. Fonte: Canva.com (2026).
A dimensão tátil completa a experiência do corpo envelhecido no lugar ao evidenciar como materiais e temperaturas superficiais modulam julgamentos e interações sociais. Texturas agradáveis e aparentemente seguras reforçam a confiança no ambiente, estimulam a exploração e contribuem para prevenir acidentes.
Ao mesmo tempo, oferecem pistas sensoriais que auxiliam na navegação espacial, aspecto fundamental para pessoas com declínio visual ou, até mesmo, cognitivo.
“Eu compreendo o mundo porque estou situado nele e ele me envolve. Compreendo o meu corpo no instante em que experimento o corpo do Outro. A expressão do próprio corpo é, em última análise, o encontro e a comunicação de um correlato significativo dada no corpo do Outro”. (Falabretti, 2010, p. 198)

Foto: Localizada em Gandhinagar, na Índia, a Escola para Crianças Cegas e com Deficiência Visual (School for Blind and Visually Impaired Children), projetada pelo escritório SEAlab, foi concebida para responder diretamente às necessidades de orientação e autonomia dos alunos. Na imagem, observa-se que as paredes do pátio incorporam texturas diferenciadas que funcionam como referências táteis de percurso, auxiliando no deslocamento seguro e na identificação de destinos. Fonte: Bhagat Odedara, ArchDaily Brasil, Tovar (2023).
Quando esses diferentes estímulos são articulados de maneira coerente, produz-se uma experiência multissensorial capaz de fortalecer vínculos afetivos com o lugar. Ambientes memoráveis tendem a ser mais facilmente reconhecidos e apropriados, ampliando a sensação de pertencimento. Na velhice, essa familiaridade sustenta a continuidade da vida cotidiana, preserva rotinas e reduz a ansiedade e as frustrações diante de mudanças bruscas ou não desejadas.
“(…) o senso de lugar do indivíduo também pode ser influenciado pelas memórias formadas em experiências anteriores, seja uma no mesmo local ou em um espaço semelhante”. (Villarouco et al., 2021, p. 145)
A incorporação desses conhecimentos redefine o papel do projeto. Não se trata apenas de compor esteticamente um espaço, mas de construir condições que apoiem capacidades ao longo do curso de vida. A neuroarquitetura contribui para a gerontologia ambiental ao traduzir evidências científicas em diretrizes que favorecem orientação, conforto sensorial, interação social e estímulo cognitivo. Ao fazer isso, cria suportes para que a pessoa idosa permaneça como o agente de suas próprias escolhas.

Foto: Instituição de Cuidados de Longa Permanência Wellesley Central Place, localizado em Toronto, Canadá. Fonte: TriAxis.com (2022).
Manter autonomia e independência não depende exclusivamente de atributos individuais; envolve a qualidade das relações estabelecidas com o entorno. Ambientes previsíveis, acessíveis e emocionalmente positivos reduzem demandas desnecessárias e liberam recursos mentais para atividades significativas. Assim, o espaço projetado torna-se parceiro do envelhecimento, promovendo dignidade e continuidade existencial.
“Eu me experimento na cidade; a cidade existe por meio de minha experiência corporal. A cidade e meu corpo se complementam e se definem. Eu moro na cidade, e a cidade mora em mim” (Pallasmaa, 2011, p. 38).
Dessa forma, reconhecer como o cérebro percebe, sente e responde ao ambiente torna-se uma responsabilidade ética para quem planeja, gere, mantém e projeta o espaço construído. Quando o desenho da cidade, bem como os edifícios, são concebidos a partir da participação intersetorial e das evidências científicas, passam a funcionar como estruturas de cuidado que acompanham as mudanças do corpo e da mente ao longo da vida, sem subtrair da população sua liberdade tampouco enfraquecer sua condição de cidadã.
Referências
ALBUQUERQUE, C. F. H.; SANTIAGO, Z. M. P.; PEREIRA, R. M. Neurociência e Gerontologia Aplicadas à Arquitetura: como projetar uma moradia responsiva ao Aging In Place e ao envelhecimento saudável? In: POMPERMAIER, J. P.(Org.). Neuroarquitetura: Projetando ambientes para os desafios contemporâneos. Rio de Janeiro: Editora Rio Books, 2025.
DUARTE, C. R. et al. Experiência do lugar arquitetônico. [s.l.] Rio Books, 2023.
DUARTE JÚNIOR, J. F. O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível. Tese (Doutorado em Educação). Universidade Estadual de Campinas, 2000.
FALABRETTI, E. S. A presença do Outro: inter-subjetividade no pensamento de Descartes e de Merleau-Ponty. Rev. Filos. Aurora, Curitiba, v.22, n.31, 2010, pp.515-541.
MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2018.
PALLASMAA, J. Os Olhos da Pele: A Arquitetura e os Sentidos. [s.l.] Artmed, 2011.
SPENCE, C. Sonic Seasoning and Other Multisensory Influences on the Coffee Drinking Experience. Frontiers in Computer Science, v. 3, 15 abr. 2021.
VILLAROUCO, V. Neuroarquitetura : a neurociência no ambiente construído. Rio De Janeiro: Rio Books, 2021.
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