Envelhecer com Sankofa

Envelhecer com Sankofa

Muitas vezes, o envelhecer é reduzido a declínio da produtividade, mas a velhice é o ciclo em que a vida nos convoca para a integração entre quem fomos, somos e o legado que deixamos.


Será que, na pressa de chegar ao futuro, não deixamos para trás as sementes que dariam sentido ao nosso amanhã? Em que momento paramos de escutar o ritmo da nossa própria alma para obedecer apenas ao compasso do relógio?

É preciso reconhecer que nunca é tarde para seguir em frente livre do peso paralisante do passado, transmutando cada experiência vivida em aprendizado fértil. Ao abraçarmos uma temporalidade fluida, compreendemos que o ontem não deve ser uma corrente que nos prende, mas sim o solo que nos impulsiona e dá raízes ao nosso caminhar.

Muitas vezes, o envelhecer é reduzido a um simples declínio da produtividade. No entanto, se mudarmos o olhar, descobriremos que a velhice é, na verdade, o ciclo em que a vida nos convoca para a maior de todas as tarefas: a integração entre quem fomos, quem somos e o legado que deixamos.

O diálogo com o corpo, com os afetos e com a psique exige um tempo próprio, que não se curva à pressa do mundo. Inspirados pelo pássaro Sankofa — que avança enquanto resgata o que ficou para trás — e pela sabedoria de Verena Kast sobre o tempo da alma, somos convidados a uma jornada de empatia. Ao nomear o passado sem o peso do juízo, revelamos que a vida não é feita de linhas que findam, mas de círculos que se entrelaçam.

A sabedoria ancestral de Sankofa

Os símbolos Adinkra, nascidos em solo africano, tecem a identidade da cultura Ashanti por meio de formas geométricas estilizadas. Neles ecoam os valores do povo Akan, presentes em regiões que hoje correspondem a Gana, Togo e Costa do Marfim, onde elementos da natureza e do cosmos se entrelaçam como saberes inscritos no tempo.

É desse tecido ancestral que emerge o Sankofa. Originada de um provérbio tradicional, a palavra, no idioma twi, ensina que “não há tabu em voltar para buscar o que foi esquecido ou perdido. Essa filosofia sugere que revisitar o passado não constitui um retrocesso, mas um gesto de sabedoria que permite seguir adiante com maior inteireza.

Visualmente, esse conceito se manifesta em dois ícones principais:

1) O coração estilizado: Simboliza a centralidade do amor e da memória no processo de aprendizado.

2) O pássaro mítico: Representado com o corpo voltado para frente e a cabeça voltada para trás, carregando um ovo delicadamente no bico. O corpo à frente representa o movimento contínuo; o olhar para trás simboliza a necessidade de mapear as raízes; e o ovo no bico representa o conhecimento e as sementes do amanhã coletadas na história.

Sankofa manifesta-se no movimento de interromper a marcha automática para mergulhar naquilo que foi retido pelo tempo. O resgate não busca reiterar a dor, mas recuperar potências latentes: o desejo silenciado, a curiosidade obscurecida pela pressa e a sabedoria ancestral negligenciada. Nesse processo, entende-se que o desenvolvimento não ressignificado não pertence ao passado; configura-se como uma pendência que atua silenciosamente sobre o agora.

Os códigos de resistência, como o símbolo de Sankofa, permanecem gravados nos portões de ferro e na arquitetura do Brasil desde o período da escravidão, reafirmando que resgatar o passado é essencial para construir o futuro. Ele é uma marca da herança cultural que fortalece o orgulho e as raízes da população negra, servindo como guia para a educação, a política e a vida pessoal.

Os princípios de Sankofa

Aprendizagem com o passado: O passado é um reservatório de lições necessárias para orientar o presente;

Preservação das raízes: A força reside no reconhecimento e na honra à história daqueles que vieram antes;

Análise de erros e acertos: Observação crítica para evitar a repetição de equívocos históricos;

Autoestima e potencialização: O resgate da história fortalece a identidade e gera empoderamento;

Responsabilidade social: O dever ético de transmitir o saber às novas gerações;

Ferramenta de reconciliação e cura: Ressignificar traumas, transformando dor em resistência; e

Não perca nenhuma notícia!

Receba cada matéria diretamente no seu e-mail assinando a newsletter diária!

Construção de um futuro harmonioso: Edificar o amanhã sobre bases sólidas e conscientes.

O tempo da alma e a resistência ao relógio

Essa imagem ancestral encontra eco na psicologia analítica de Verena Kast, que nos lembra que a alma possui um tempo próprio, muitas vezes em conflito com o “tempo do relógio”. Sankofa funciona como um “fenômeno de ressonância” que ajuda a psique a encontrar seu próprio ritmo contra o fast-food emocional da atualidade, alertando que a pressão por escolhas rápidas fragmenta nossa atenção e dissolve o investimento de tempo no que é essencial.

Nessa perspectiva, a alma exige o que a economia despreza: a pausa e a gratuidade. Enquanto o mundo exterior exige rendimento, o mundo interno requer um tempo orgânico para que o conhecimento se transforme em sabedoria. Afastar-se do simbólico para focar apenas no concreto adoece a alma. Como cita a autora: “No símbolo o mundo fala conosco, em tudo que já foi(p. 60). Assim como o pássaro carrega o ovo com delicadeza, o amadurecimento psíquico exige paciência — não se pode forçar a casca do ovo.

Ciclos imbricados e a cura pela nomeação

A criança que fomos não ficou “lá atrás”, mas está imbricada no adulto que somos hoje. A autora defende que a alma não descarta fases; ela as acumula em camadas vivas sob a pele atual. Olhar para o passado torna-se, então, o que Kast define como um exercício de empatia profunda: é o ato de reconhecer desafios, validar medos e despertar sonhos adormecidos.

Para que a vida atual ganhe sentido, os vínculos entre o presente, o passado e o futuro devem ser constantemente tecidos. Segundo a autora, é necessário que a vivência bruta seja transformada em experiência sentida, enraizada no coração. Quando permitimos que as lembranças sejam vividas em sua plenitude sensorial, elas deixam de ser apenas memória para se tornarem a base que sustenta quem realmente somos.

Nesse processo, ocorre uma mudança fundamental descrita por Kast: o indivíduo deixa de julgar o que passou e passa a nomear o que ocorreu. Para a psicóloga analítica, essa nomeação é o que restaura o vínculo entre o mundo interno e a realidade externa. Ao silenciar o “tribunal interno”, atinge-se o discernimento que ecoa o princípio de Sankofa: a capacidade de concluir – se é preciso aceitar a situação como parte de uma história imutável, ou se é o momento de colher essa sabedoria para modificá-la.

O valor da própria jornada

No envelhecimento, essa filosofia encontra sua morada definitiva. A alma exige um tempo de ressonância dilatado. O “ovo” no bico representa, agora, a integração de todos os ciclos — uma vida que encontra sentido em caminhar em direção ao horizonte final com dignidade e paz.

Sankofa nos aponta que reconhecer nossas origens é o que nos permite avançar com integridade; valorizar quem fomos e o que vivemos nos dá a sustentação para honrar quem somos hoje e vislumbrar quem ainda podemos vir a ser. Quando validamos cada fragmento da nossa memória, transformamos o passado em um alicerce de dignidade, compreendendo que a nossa história não é um fardo, mas a base que merece ser vista, celebrada e valorizada. É nesse girar consciente sobre o próprio eixo que a vida se expande, como bem descreveu Rainer Maria Rilke:

“A minha vida eu a vivo em círculos crescentes
sobre as coisas, alto no ar.
Não completarei o último, provavelmente,
mesmo assim irei tentar.
Giro à volta de Deus, a torre das idades,
e giro há milênios, tantos…
Não sei ainda o que sou: falcão, tempestade
ou um grande, um grande canto.”

Referências
Dicionário de símbolos. https://www.dicionariodesimbolos.com.br/simbolos-adinkra/. Acesso em: 26 de janeiro de 2026.
Oliveira, Alan Santos de. Sankofa: a circulação dos provérbios africanos: oralidade, escrita, imagens e imaginários. Dissertação (Mestrado em Comunicação). Universidade de Brasília, Brasília. 2016. https://repositorio.unb.br/handle/10482/20735. Acesso em: 25 de janeiro de 2026.
Kast, V. A alma precisa de Tempo. Petrópolis: Vozes, 2016.

Imagem de destaque: print do vídeo “A filosofia de Sankofa)”


banner em fundo verde anunciando curso de acompanhamento terapeutico no envelhecimento
silmarasimmelink
Silmara Simmelink

Psicodramatista formada pela Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

Compartilhe:

Avatar do Autor

Silmara Simmelink

Psicodramatista formada pela Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

Silmara Simmelink escreveu 37 posts

Veja todos os posts de Silmara Simmelink
Comentários

Os comentários dos leitores não refletem a opinião do Portal do Envelhecimento e Longeviver.

LinkedIn
Share
WhatsApp
Follow by Email
RSS