Museus Inclusivos na Demência: um direito à cultura

Museus Inclusivos na Demência: um direito à cultura

A arte não cura a demência, mas pode aliviar o sofrimento, fortalecer vínculos, despertar memórias afetivas e criar experiências significativas. E isso não é pouco.


Em um mundo marcado por tantos conflitos e angústias, pergunto-me o que seria de nós sem a arte.

Há muitos anos trabalho com Arte-Reabilitação junto a pessoas idosas que convivem com o esquecimento e com as inseguranças de quem já não se reconhece plenamente em sua própria história. Nem todos têm a sorte de viver uma velhice com autonomia suficiente para enfrentar as complexidades do viver.

Viver bem é poder contar com recursos capazes de nos amparar quando nos falta o ar.

A Arte e a Cultura são janelas que abrimos para arejar um quarto abafado. E é somente quando o frescor entra que podemos voltar a respirar com plenitude.

Com esta singela introdução, convido à reflexão sobre as práticas inclusivas das instituições culturais de nosso país. Até que ponto nossos museus, centros culturais e espaços de memória estão preparados para acolher pessoas que vivem com demência? Como podemos transformar esses espaços em lugares de pertencimento, encontro, dignidade e participação?

É nesse contexto que apresento a MID – Rede de Museus para a Inclusão na Demência, uma iniciativa que nos inspira a repensar o papel social dos museus e o poder transformador da cultura na vida das pessoas.

Trata-se de uma rede colaborativa criada em Portugal para promover a participação cultural de pessoas que vivem com demência e de seus cuidadores. A iniciativa surgiu porque havia poucas atividades museológicas especificamente pensadas para esse público, apesar dos benefícios que o contato com arte, patrimônio e cultura pode trazer para o bem-estar, a estimulação cognitiva e a inclusão social.

Por quase quinze anos estive vinculada a um museu na cidade de São Paulo, trabalhando pela inclusão dessas velhices tão frequentemente marginalizadas dentro dos espaços culturais.

Foi nesse contexto que surgiu, em 2009, o programa Faça Memórias, acolhendo pessoas idosas com problemas de esquecimento e também aquelas que escolheram utilizar a arte como instrumento para manter a mente ativa e exercitar suas capacidades cognitivas.

O programa permaneceu ativo até o surgimento da pandemia, quando o museu fechou suas portas e seus ateliês. Mesmo após a retomada das atividades presenciais e o retorno à normalidade, as portas para esse público permaneceram fechadas, fato que sempre lamentei profundamente.

Desde então, tenho buscado abrir caminhos para a inclusão de pessoas idosas com demência em outros espaços culturais. No entanto, algo que ainda me escapa acontece nesse percurso. O que se observa, na maioria dos museus brasileiros, é uma preocupante ausência de iniciativas voltadas para esse público.

Ao conhecer a experiência da MID – Rede de Museus para a Inclusão na Demência, em Portugal, percebi o quanto o Faça Memórias foi uma iniciativa pioneira em nosso contexto. Ao mesmo tempo, não consigo deixar de lamentar a falta de interesse de muitos de nossos espaços culturais em contribuir para manter socialmente vivas pessoas que, muitas vezes, são condenadas a uma espécie de morte social ainda em vida.

Guia de boas práticas

A MID desenvolveu um guia de boas práticas extremamente relevante, oferecendo aos museus e instituições culturais não apenas orientações técnicas, mas também uma compreensão mais profunda da importância de seu papel na construção de uma sociedade mais inclusiva e humana. O documento demonstra que a inclusão das pessoas com demência não é uma ação assistencialista, mas uma questão de cidadania e de acesso aos direitos culturais.

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A publicação é da autoria de Filipa Aniceto (Associação Alzheimer Portugal), Margarida Rodrigues João (Fundação Calouste Gulbenkian), Marta Carvalho (Associação Alzheimer Portugal) e Virgínia Gomes (Museu Nacional de Machado de Castro). Contou com revisão de Acesso Cultura – Maria Vlachou e com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, 

Em Portugal, diversos museus vêm se tornando verdadeiramente inclusivos. Pessoas idosas que vivem com demência e seus cuidadores são acolhidos pela arte e pela cultura em ambientes preparados para recebê-los com respeito, sensibilidade e competência.

Por esse caminho, os museus e espaços culturais cumprem uma de suas mais nobres missões: utilizar a Arte e a Cultura como instrumentos de promoção do bem-estar, da dignidade e da qualidade de vida.

Devemos lembrar que a arte também é cognição. Para pessoas que envelhecem convivendo com doenças neurodegenerativas, receber estímulos cognitivos associados ao prazer, à beleza, à criatividade e à convivência é muito mais do que uma atividade cultural. É uma oportunidade de permanecer conectado ao mundo, aos afetos e à própria identidade.

A arte não cura a demência, mas pode aliviar o sofrimento, fortalecer vínculos, despertar memórias afetivas e criar experiências significativas. E isso não é pouco. Para muitos, é justamente o que permite abrir aquela janela do quarto abafado e deixar entrar o ar fresco da vida.

Que os museus e espaços culturais brasileiros possam ouvir o exemplo desses irmãos portugueses. Se o oceano nos separa geograficamente, que a proximidade dos afetos, dos valores e do compromisso com a dignidade humana possa nos aproximar. Quem sabe, assim, possamos aprender com essa experiência e construir, também em nosso país, espaços culturais verdadeiramente acolhedores para todas as formas de envelhecer.

vários idosos sentados em uma sala de museu com os braços levantados
Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra: Dinamização de Mindfulness.
Sessão conjunta – “EU no musEU”, sessão 55, julho de 2017 | MNMC | © Rita Sousa (voluntária).

Serviço
Museus Inclusivos na Demência. Guia de Boas Práticas
Organizado: MID – Rede de Museus para a Inclusão na Demência
País: Portugal
Ano: 2025

Foto de destaque: print da foto de José Frade, contida no Guia /Museu de Lisboa – Palácio Pimenta: Encontros no Museu – “Marcar o Lugar”, 2023.

Atualizado às 9h12


Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemorias.art.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemorias.art.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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