Filme de Susana Garcia revela que, para as mulheres, ter uma rede de apoio vai muito além do afeto, é uma necessidade biológica.
Anna Beatriz Mafei Toniolo (*)
No último mês foi lançado o filme Minha Melhor Amiga, dirigido por Susana Garcia. A história fala sobre Júlia, interpretada por Mônica Martelli, e Clara, por Ingrid Guimarães, duas amigas na casa dos 50 anos que resolvem viajar juntas para a Europa após sentirem diversas mudanças em suas vidas e verem suas filhas embarcarem para Portugal em um intercâmbio. A narrativa mostra como a amizade entre mulheres no processo de envelhecimento ajuda a enfrentar essas etapas conjuntamente.
Durante o filme, são trabalhados temas como mercado de trabalho, juventude, casamento, criação de filhos e identidade. Júlia é uma jornalista com anos de carreira que foi trocada por alguém mais jovem, considerada “um rosto novo” para o jornal. A filósofa Susan Sontag cunhou o termo “Duplo Padrão do Envelhecimento” para explicar como a sociedade estabelece regras diferentes para o envelhecimento de homens e mulheres, mostrando como as empresas preferem contratar mulheres mais novas, mesmo sem a experiência necessária para o cargo.
Mulheres com idade igual ou superior a 45 anos começam a sofrer discriminações sutis caracterizadas pelo etarismo, visto que a sociedade associa a juventude a algo mais belo, produtivo e capaz. Discriminações intensificadas pelo patriarcado, que perpetua sofrimento, exclusão e perda de identidade. Júlia começa a questionar sua aptidão e valor no serviço, internalizando a falsa premissa de que sua longa trajetória profissional se tornou subitamente descartável.
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Enquanto isso, Clara vive em um casamento no qual não é feliz, mas se mantém nele por medo de ficar sozinha. No ambiente familiar, as mulheres muitas vezes passam pelo silenciamento, afastamento e pela imposição do papel de cuidadora, sendo responsáveis por cuidar da casa, do marido, dos filhos e de parentes, sem ter sua opinião levada em consideração, além de lidarem com a sobrecarga “invisível” entre a família e o mercado de trabalho. Soma-se a isso o fato de que meninas e mulheres aprendem desde a infância a necessidade de estarem em um relacionamento para serem felizes, com a venda do amor romântico como a completude do seu próprio ser, aprendendo a não pensar em si mesmas, mas sempre em agradar aos outros.
É exatamente diante dessa sobrecarga crônica e do sentimento de que tudo ao redor está ruindo que a amizade atua como um regulador homeostático. Trata-se de um elemento fundamental no desenvolvimento humano em todas as fases da vida, agindo na preservação da saúde mental e promovendo o bem-estar social e psicológico.
Segundo Güroğlu (2022), sob uma perspectiva neurocientífica, as amizades possuem um papel crucial no desenvolvimento humano, atuando ativamente na modulação das redes neurais do cérebro social e fortalecendo a resiliência ao longo de toda a vida. Essa função protetora é sustentada fisiologicamente pelos mecanismos descritos por Carter (1998), que demonstra como os vínculos de apego e o suporte social ativam vias neuroendócrinas mediadas pela ocitocina.
Esse processo inibe diretamente a atividade do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), atenuando as respostas fisiológicas ao estresse e consolidando a amizade não apenas como um apoio emocional, mas como um escudo biológico seguro contra as adversidades.

Conforme os anos passam, a conexão entre amigas se consolida, permitindo que as experiências compartilhadas aprofundem a empatia e o entendimento mútuo. O elo entre Clara e Júlia vai além de outros laços afetivos, caracterizando-se pelo companheirismo, diálogos francos, apoio incondicional e afeto sincero, em uma parceria na qual uma impulsiona a outra a buscar o melhor para si. A amizade na vida adulta feminina representa um refúgio essencial diante das pressões e convenções sociais impostas às mulheres, oferecendo um espaço autêntico onde não há necessidade de atender a expectativas externas.
Por outro lado, em contraste com os laços masculinos, frequentemente estimulados como uma fuga das obrigações diárias, a rivalidade entre mulheres ainda é incitada pela cultura patriarcal e machista, que induz meninas e adultas a competirem entre si em vez de cultivarem conexões satisfatórias e genuínas. Enquanto isso, mulheres que buscam vivenciar amizades com a mesma liberdade socialmente concedida aos homens enfrentam frequentes questionamentos e cobranças em relação às suas atribuições e obrigações domésticas (Zanello, 2018).
Para a antropóloga Marcela Lagarde (2006), a inimizade feminina é um mito alimentado para evitar a união das mulheres. Por isso, cultivar conexões satisfatórias, francas e genuínas na maturidade, exigindo para si a mesma liberdade de convivência socialmente concedida aos homens, deixa de ser apenas uma questão de lazer para se tornar um verdadeiro ato de resistência e autopreservação
Assim, a obra se apresenta como um conteúdo essencial para meninas e mulheres ao refletir sobre as pressões vivenciadas na sociedade. Sobretudo, o filme destaca a força dos laços e das amizades femininas na promoção do apoio mútuo, do fortalecimento da autoestima e da preservação da saúde mental. Visto que o envelhecimento é um processo desafiador para qualquer indivíduo, e ainda mais complexo para as mulheres, ter um espaço seguro para compartilhar dilemas matrimoniais, desafios do trabalho, da maternidade, das tarefas domésticas e mudanças hormonais e corporais, revela-se profundamente libertador. Poder expressar a própria essência e contar com uma rede de apoio torna-se um alívio indispensável diante de uma sociedade que cobra perfeição e conformidade desde a juventude.
Referências
CARTER, C. S. Neuroendocrine perspectives on social attachment and love. Psychoneuroendocrinology, v. 23, n. 8, p. 779-818, 1998. GÜROĞLU, B. The power of friendship: The developmental significance of friendships from a neuroscience perspective. Child Development Perspectives, v. 16, n. 2, p. 111-117, 2022. DOI: 10.1111/cdep.12450.
LAGARDE, M. Pacto entre mujeres: sororidad. Aportes para el debate, [S. l.], 2006. MARTINS, C. F. S.; OLIVEIRA, C. D. de. Amizade ao longo da vida: impacto no desenvolvimento, relações interpessoais e bem-estar psicológico. Revista Fragmentos de Cultura – Revista Interdisciplinar de Ciências Humanas, v. 34, n. 1, p. 32-40, 2024. DOI: 10.18224/frag.v34i1.14090.
MINHA melhor amiga. Direção: Susana Garcia. Intérpretes: Mônica Martelli; Ingrid Guimarães e outros. Brasil: [Nome da Produtora], 2024. 1 filme.
SANTOS, A. C. G.; XAVIER, F. C. F.; PINTO, M. J. A.; OLIVEIRA, P. de A. Os impactos do etarismo em mulheres com idade igual ou superior a 45 (quarenta e cinco) anos, nos contextos familiar, profissional e social e suas estratégias de resistência.
SOUZA, L. K. de; HUTZ, C. S. Relacionamentos pessoais e sociais: amizade em adultos. Psicologia em Estudo, v. 13, n. 2, p. 257-265, 2008. DOI: 10.1590/S1413-73722008000200008.
ZANELLO, V. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Appris, 2018.
(*) Anna Beatriz Mafei Toniolo é membro da Liga Acadêmica do EnvelheSer (LAES) Unaerp. E-mail: ligaacademicadoenvelheser@gmail.com.
Fotos: Divulgação
