A Terapia de Reminiscência – ato ou processo de recordar o passado – têm sido utilizada para promover benefícios psicossociais dirigidos às pessoas que vivem com a Doença de Alzheimer.
A terapia de reminiscência é um processo que envolve resgatar memórias significativas do passado e explorá-las com um propósito terapêutico. Ao recordar eventos, pessoas e experiências marcantes, as pessoas idosas têm a oportunidade de fortalecer sua identidade, promover a autoaceitação e enfrentar desafios emocionais. Essa prática oferece um espaço para a expressão emocional, além de estimular a interação social e o compartilhamento de experiências, promovendo uma sensação de pertencimento e conexão com os outros.
O renomado Robert Butler foi pioneiro no campo dos estudos da reminiscência e das memórias autobiográficas ao publicar “Revisão de Vida”, em 1963. Nessa perspectiva, a reminiscência é entendida como um processo mental natural que desempenha um papel significativo na compreensão da identidade, do resgate de lembranças vividas e integra o ciclo de vida. Para o autor, reminiscência e revisão de vida são conceitos distintos porém estão relacionados.
CONFIRA TAMBÉM:
Reminiscência: é o ato ou processo de recordar o passado, que pode ocorrer involuntariamente ou de forma intencional.
Revisão de vida: processo mental universal e inerente, que engloba a reminiscência, embora seja impulsionado pela percepção da proximidade da morte.
A Doença de Alzheimer é a mais prevalente entre as demências e o principal domínio afetado é a memória recente. Nesse sentido, a Terapia de Reminiscência têm sido utilizada neste contexto a fim de promover benefícios psicossociais para as pessoas que vivem com a Doença de Alzheimer.
Além do tratamento farmacológico, as intervenções não farmacológicas ganham destaque no plano de cuidados, principalmente para controle de sintomas comportamentais e psicológicos das demências (SCPD), que impactam no modo como as pessoas interagem com o ambiente e outras pessoas. Entre os SCPD destacam-se a agitação, ansiedade, irritabilidade, depressão, apatia, desinibição, alucinações, alterações do sono e apetite.
Faith Gibson (2011) definiu a reminiscência em seu livro “Reminiscence and Life Story Work: A Practice Guide”, como: um processo de memórias, internas ou compartilhadas, que podem apresentar-se de maneira espontânea ou por meio de estímulos externos. A Terapia de Reminiscência (TR) é uma abordagem que utiliza estímulos sensoriais como fotos, músicas, objetos e cheiros.
Um estudo recente realizado na Irlanda, utilizou a gerontologia ambiental como pilar para a aplicação da TR e diferenciou-se de outros estudos por utilizar locais significativos para os participantes, com destaque para os domínios visuoespaciais, que são afetados na demência. Essa intervenção desatrelou-se dos ambientes fechados onde ocorrem comumente as intervenções, utilizando o ambiente físico e urbano como gatilho para as memórias autobiográficas de pessoas que vivem com a Doença de Alzheimer. Essa proposta vai de encontro com o conceito de “Aging in Place”, perspectiva que valoriza o envelhecer em casa e na comunidade.
Estudos que utilizam intervenções combinadas têm tido um destaque na literatura. Na China, a TR foi combinada com a Terapia de Redução do Estresse Baseada em Mindfulness e ganhos cognitivos foram percebidos ao longo do estudo, além de que, o grupo de intervenções combinadas apresentou melhores resultados em relação ao grupo apenas da TR após o acompanhamento de três meses. Dessa maneira, foi possível potencializar os resultados, já que o mindfulness atua na redução do estresse e dos sintomas depressivos, favorecendo os aspectos cognitivos que são impactados por esses fatores.
No mundo, a TR tem sido aplicada principalmente em grupo e seus benefícios estão relacionados principalmente à melhora da cognição global, redução dos sintomas depressivos e melhora da qualidade de vida, favorecendo o bem-estar emocional no dia a dia da pessoa que vive com a Doença de Alzheimer. Ademais, os avanços tecnológicos permitem que a realidade virtual seja utilizada como recurso terapêutico.
Além disso, essas abordagens terapêuticas podem ajudar as pessoas idosas a enfrentarem os desafios que podem surgir ao longo do ciclo de vida com mais resiliência e adaptabilidade. Ao explorar suas experiências passadas, eles podem desenvolver uma maior capacidade de lidar com as mudanças e transições da vida, encontrando conforto e orientação nas lições aprendidas ao longo do tempo.
De fato, essas terapias se destacam como recursos preciosos para melhorar o conforto e a qualidade de vida dos idosos. Ao oferecer um espaço seguro para explorar o passado e encontrar significado em suas experiências, essas intervenções podem ajudá-los a viver uma vida mais plena, gratificante e significativa.
A Terapia de Reminiscência é uma intervenção não farmacológica viável e com alto potencial para ser incorporada nos planos de cuidados, pois seus benefícios contribuem para à promoção da qualidade de vida da pessoa e também de seus cuidadores e familiares. Para além disso, a memória autobiográfica segue bastante preservada em um contexto demencial e a TR utiliza-se justamente da história de vida como recurso, trazendo uma abordagem centrada na pessoa e que pode ser totalmente personalizada e individualizada.
Referências
Butler, R. N. (1963). The Life Review: An Interpretation of Reminiscence in the Aged. Psychiatry, 26(1), 65–76. https://doi.org/10.1080/00332747.1963.11023339.
Pocknell, C., Dinius, C., Foley, R., Commins, S., McHugh Power, J., & Roche, R. (2026). Tracing dementia: Reminiscence therapy in and from place. Health & place, 102, 103744. Advance online publication. https://doi.org/10.1016/j.healthplace.2026.103744.
Zhang F, Wang Y, Lv D, Cai L and Zhou F (2026) Mindfulness-based stress reduction combined with reminiscence therapy: a non-pharmacological approach for older adults with mild cognitive impairment or mild dementia due to Alzheimer’s disease. Front. Aging Neurosci. 18:1772932. doi: 10.3389/fnagi.2026.1772932
(*) Assinam este texto perla ABG – Associação Brasileira de Gerontologia as autoras:
Gabriela Cristina Siqueira- Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestranda em Gerontologia pelo Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. E-mail: gabrielasiqueira@usp.br
Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da USP. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e vice-diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Coordenadora de grupos de apoio da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br.
Foto de Yulia Ilina/Pexels
