A invisibilidade dos saberes de mulheres pretas, idosas e periféricas reproduz desigualdades históricas e impede que políticas públicas alcancem quem mais precisa.
Por Thiago Medeiros da Costa Daniele e Larissa Oliveira Nascimento (*)
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O envelhecimento populacional brasileiro deixou de ser uma projeção e passou a ser realidade. Esse fenômeno, contudo, não atinge a todos da mesma forma. Envelhece-se de modos distintos a depender do gênero, da raça, da renda e do território em que se vive. Reconhecer essa diferença é o primeiro passo para enxergar um grupo populacional que, mesmo crescente, segue invisibilizado nas estatísticas, nas políticas públicas e nos serviços de saúde: as mulheres pretas, idosas e periféricas. Suas trajetórias são marcadas pela sobreposição de discriminações, racismo, sexismo, idadismo e exclusão territorial, que se manifestam não como eventos isolados, mas como uma estrutura que organiza o acesso (ou a negação) a direitos básicos ao longo de toda a vida (Macinko et al., 2012; Barbosa et al., 2019).
Pesquisas mostram que essa sobreposição produz efeitos materiais e simbólicos. Materiais, porque essas mulheres acumulam piores indicadores de saúde, de renda e de acesso a serviços; simbólicos, porque seus corpos, suas histórias e seus saberes são sistematicamente apagados das narrativas oficiais sobre envelhecer no Brasil. Como denuncia Bento (2022), as estruturas de poder operam para reiterar o apagamento simbólico da população negra também nos espaços institucionais, inclusive na saúde. E como recorda Grada Kilomba (2019), silenciar as experiências de mulheres negras é negar sua humanidade.
Há, entretanto, uma dimensão menos discutida e igualmente decisiva: o direito ao reconhecimento dos saberes produzidos por essas mulheres no enfrentamento cotidiano da exclusão. Em bairros periféricos das grandes cidades brasileiras, mulheres idosas pretas conduzem redes de cuidado, sustentam filhos, netos, vizinhos e comunidades inteiras a partir de conhecimentos transmitidos de geração em geração, sobre o corpo, a comida, a fé, o luto, a doença e a resistência. Esses saberes, contudo, raramente são acolhidos pelos serviços públicos. Como argumenta Djamila Ribeiro (2017), pensar políticas públicas a partir de uma perspectiva interseccional exige que os sujeitos historicamente excluídos deixem de ser apenas objeto de análise e passem a ser sujeitos de proposição. O que ficou evidente é que reconhecer esses saberes não é uma concessão simpática: é condição para que políticas de saúde, assistência social e educação cheguem ao território com efetividade. Sem essa escuta, as ações institucionais continuam operando à revelia das vidas reais.
É a partir dessa constatação que nasce a etapa atual do projeto de pesquisa (1) “Das marcas (in)visíveis à produção de saberes: construção de um manual educativo com mulheres pretas idosas“, contemplado na 5ª edição do Edital Acadêmico Envelhecer com Futuro no ano de 2026: a construção participativa de um manual comunitário de cuidado e resistência, elaborado com as próprias mulheres do território, sistematizando suas práticas e oferecendo aos profissionais da atenção básica um instrumento concreto de acolhimento, formação e transformação. Mais do que um produto técnico, o manual é um gesto político, um deslocamento do lugar habitual da pesquisa, em que mulheres pretas idosas deixam de ser apenas tema de investigação para serem coautoras do conhecimento que organizará o cuidado.
Considerando a responsabilidade do Estado em garantir igualdade substantiva no acesso a direitos, o reconhecimento institucional dos saberes de mulheres pretas idosas periféricas constitui uma obrigação pública urgente e inadiável. Isso implica investir em pesquisas participativas, em formação interseccional de profissionais da saúde e da assistência, em produtos técnicos co-construídos com os territórios e em políticas públicas que tratem a velhice no plural, porque envelhecer não é uma trajetória única, e ignorar essa pluralidade é multiplicar desigualdades já acumuladas ao longo da vida. Envelhecer com dignidade não pode permanecer como privilégio de poucas. Ouvir, registrar e legitimar os saberes daquelas que sustentam o cuidado em silêncio nas margens do país é, antes de tudo, um ato de justiça social.
Nota
Resultados da pesquisa serão apresentados durante o III Congresso Internacional Envelhecer com Futuro a ser realizado de 25 a 26 de setembro no Pavilhão da Bienal, dentro do evento Fórum Festival Longevidade. As inscrições são gratuitas e estão abertas.
(*) Thiago Medeiros da Costa Daniele — Doutor em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Ceará (2017); Pós-doutor em Ciências Sociais pela Linköping University (2024). Atualmente é professor assistente do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Coordenador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Envelhecimento, Saúde e Subjetividades (GEPESS/UNIFOR). Coordena o projeto “Das marcas (in)visíveis à produção de saberes: construção de um manual educativo com mulheres pretas idosas”, contemplado na 5ª edição do Edital Acadêmico Envelhecer com Futuro no ano de 2026, promovida pelo Itaú Viver Mais e Portal do Envelhecimento e Longeviver. E-mail: thiago.daniele@unifor.br.
Larissa Oliveira Nascimento — Graduada em Educação Física pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC/UNIFOR). E-mail: larissa.nascimento201923@gmail.com
Foto de Owonaro Preye/Pexels
