Reivindicar o Sul Global como nosso norte é garantir que cada pessoa idosa tenha o direito de colher o tempo com respeito e de ser amparada pela coletividade.
Em 1943, o artista uruguaio Joaquín Torres García desenhou a sua emblemática América Invertida, colocando o Sul geográfico no topo da representação cartográfica e declarando: “Nosso norte é o Sul”. Conheci as obras desse artista ao visitar seu museu, em Montevidéu, durante um congresso da Redip – Red Interdisciplinaria Latinoamericana de Psicogerontología, da qual faço parte desde sua fundação. Mais do que um manifesto cartográfico, o gesto de Torres García inaugurou uma postura epistemológica: a recusa de ser a borda periférica ou a sombra imperfeita dos modelos produzidos no hemisfério norte.
Lembrei de Torres García e desse desenho ao mediar uma mesa durante o Seminário Territórios do Envelhecer, promovido pelo Sesc – SP (08/10). Não deu tempo de falar sobre, pois o tempo não permitiu, e por isso aproveito este espaço para compartilhar com vocês as minhas reflexões, a partir do tema da mesa “Promoção da saúde e envelhecimento no Sul Global”, que contou com os palestrantes Rayne Stroebel (África do Sul), Verónica Montes de Oca Zabala (México) e Alexandre Kalache (Brasil).
Discutir promoção da saúde e longevidade a partir do Sul Global exige repensar criticamente as visões hegemônicas do Norte globalizado, que frequentemente reduzem o envelhecer a perdas funcionais, gestão farmacológica e manutenção de uma produtividade utilitária. No Sul geopolítico e existencial, envelhecer carrega marcas profundas de desigualdades estruturais, mas também guarda as tecnologias de sobrevivência, resistência e reinvenção do nosso longeviver.
CONFIRA TAMBÉM:
Quando transportamos essa discussão para a gerontologia social, defrontamo-nos com uma urgência incontornável. O “norte” que historicamente nos foi apresentado como sinônimo de velhice bem-sucedida carrega o viés das sociedades hiperindustrializadas, brancas e liberais. No entanto, o Sul Global – que não é apenas um recorte geográfico, mas um espaço existencial de vivências partilhadas e, sobretudo, uma trincheira política de insurgência – precisa inventar a sua própria bússola. A velhice digna só pode ser o nosso norte se estiver ancorada nas realidades, feridas e potências do Sul.
O nosso letramento acadêmico a respeito do envelhecimento desde o início deste século, bebeu dessas premissas civilizatórias específicas: a preservação obsessiva da capacidade funcional, a manutenção da pessoa idosa como agente consumidor ou trabalhador flexível e a privatização do risco biológico. Sob o discurso sedutor do “estilo de vida saudável”, instituiu-se uma tirania moral: aquele que adoece, empobrece ou perde a autonomia funcional passa a ser visto como responsável pelo próprio declínio. Ou seja, a responsabilidade de um bom ou mau envelhecer passa a ser da pessoa idosa, que se torna empreendedora de sua própria velhice.
Nas realidades do Sul Global (aqui incluídas todas as velhices do planeta que estão às margens), essa equação é profundamente violenta e desumanizadora. Em países marcados por séculos de colonialismo e desigualdades estruturais, os corpos que envelhecem enfrentaram décadas de trabalho precarizado, insalubridade, racismo institucional, ausência de saneamento básico e privação de direitos fundamentais. Vender o envelhecimento como escolha de estilo de vida cosmopolita – reduzido a esteiras de academia, viagens turísticas e suplementação alimentar – significa apagar a história material e interditar a dignidade daqueles cujos corpos foram desgastados pela sustentação da infraestrutura social e econômica hegemônica.
As redes vivas do cuidado no Brasil: entre a dívida e a potência comunitária
Para desarmar a lógica utilitarista sobre o corpo velho, o pensamento indígena contemporâneo oferece um horizonte de cura ontológica. Em Ideias para adiar o fim do mundo, o mestre indígena e filósofo Ailton Krenak identifica a raiz da tragédia contemporânea: a ilusão ocidental de que a humanidade é uma entidade separada e superior ao organismo vivo da Terra.
O colonialismo tratou a Terra como mina de extração predatória e tratou os corpos humanos com a mesma régua extrativista. Sob essa lógica, quando o corpo envelhece e já não rende dividendos imediatos à engrenagem do capital, ele é descartado como resíduo improdutivo.
E nos ensina o caminho inverso: “Nós somos Terra”. Envelhecer, na cosmologia originária, não é decair em direção ao nada; é estreitar o pertencimento cósmico, consolidar a ancestralidade e converter a carne em memória que fertiliza o chão comum. Os mais velhos não são estorvos previdenciários; são as raízes profundas que impedem o desmonte da aldeia, da comunidade e da cidade.
Em vez de enxergar a velhice como um período de decadência ou perda de produtividade, a cosmovisão indígena a entende como o ápice da integração de um indivíduo com o seu território e a sua comunidade.
Promover saúde e dignidade na velhice é, portanto, inseparável de defender as florestas, despoluir os rios, desmercantilizar o solo e honrar quem carrega a palavra viva que suspende o céu. Ou seja, promover saúde e dignidade na velhice é cuidar da vida!
Enquanto o Norte Global concebe o cuidado como um serviço asilar institucionalizado, técnico ou securitário, a realidade das maiorias sociais brasileiras revela outro tecido social. Diante da histórica fragilidade e descontinuidade das políticas públicas de amparo à dependência, o cuidado no Brasil sempre foi construído como tecnologia de sobrevivência comunitária e afetiva.
Nas favelas, periferias urbanas, territórios quilombolas e ribeirinhos, a proteção à pessoa idosa ganha corpo nas cozinhas solidárias, na vizinha que confere a medicação, no quintal compartilhado, na filha e na neta que entrelaçam gerações, e nos saberes das rezadeiras e erveiras que aliviam a dor onde a assistência formal não chega.
Contudo, a mirada decolonial não pode romantizar o abandono estatal: essa dedicação histórica tem custado a exaustão física e psíquica de mulheres racializadas e empobrecidas, muitas delas também idosas. A velhice digna no Brasil exige a transformação desse afeto comunitário em política de Estado inegociável – uma Política Nacional de Cuidados que, de fato, valorize e financie os arranjos locais, desconstrua a responsabilidade doméstica e institua o direito inalienável ao descanso e ao convívio comunitário.
Assumir a perspectiva do Sul Global é reconhecer que a dignidade na velhice não decorre da capacidade do corpo de continuar funcionando como engrenagem eficiente, mas do reconhecimento incondicional do valor sagrado de cada trajetória vivida.
Nosso horizonte gerontológico é político porque recusa a desumanização; é existencial porque acolhe a fragilidade como dimensão ontológica da vida; e é geográfico porque brota do território latino-americano, onde a ancestralidade pulsa como resistência. Reivindicar o Sul como nosso norte é garantir que cada idosa e idoso deste país tenha o direito irrevogável de colher o tempo com respeito, de ser amparado pela coletividade e de continuar partilhando suas histórias, todos os dias.
Em outras palavras, a velhice digna no Sul Global não se restringe a uma cartilha biomédica a ser seguida, mas um projeto civilizatório de defesa da interdependência e da vida.

Leituras recomendadas para aprofundar essa reflexão
BRASIL. Lei nº 15.069, de 23 de dezembro de 2024. Institui a Política Nacional de Cuidados; altera as Leis nºs 8.742, de 7 de dezembro de 1993 (Lei Orgânica da Assistência Social), e 10.741, de 1º de outubro de 2003 (Estatuto da Pessoa Idosa); e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2024. Disponível em: https://www.planalto.gov.br. Acesso em: 9 out. 2026.
DEBERT, Guita Grin. A reinvenção da velhice: socialização e processos de reprivatização do envelhecimento. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Fapesp, 1999.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EdUFBA, 2008.
FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. Tradução de Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2019.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Tradução de Suzana Gontijo. Brasília, DF: Organização Pan-Americana da Saúde, 2005.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 2020. Disponível em: https://www.who.int. Acesso em: 9 out. 2026.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 117-142.
RIVERA CUSICANQUI, Silvia. Ch’ixinakax utxiwa: uma reflexão sobre práticas e discursos descolonizadores. Tradução de Beatriz Dupre. São Paulo: n-1 edições, 2021.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 79, p. 71-94, nov. 2007.
TORRES GARCÍA, Joaquín. Universalismo constructivo: contribución a la unificación del arte y la cultura de América. Buenos Aires: Editorial Poseidón, 1944.
Imagem de destaque: Reelaboração artística e contemporânea pela IA (Gemini) da obra “América Invertida” (1943), de Joaquín Torres García. A imagem foi recriada valorizando as cores quentes, o estilo decolonial e a forte identidade visual do Universalismo Construtivo do artista, com texturas que remetem à arte e à terra da nossa região.
