Se estamos aprendendo a viver mais, precisamos também aprender a educar para vidas mais longas.
Por Vinicius Coelho (*)
Há alguns anos, durante um encontro com pessoas idosas em uma instituição de longa permanência, percebi algo que hoje parece óbvio, mas que mudou profundamente a maneira como compreendo meu trabalho.
Estávamos cantando.
Uma música conhecida puxou outra. Uma senhora lembrou um verso. Outra corrigiu a letra. Alguém contou onde costumava ouvir aquela canção. Uma memória trouxe uma história de família. A história despertou outra lembrança. Entre risadas, movimentos, perguntas e respostas, aquela roda que poderia ser descrita simplesmente como uma “atividade recreativa” havia mobilizado memória, linguagem, atenção, expressão corporal, identidade, vínculos, cultura e participação.
No final, fiquei pensando: o que aconteceu ali?
Recreação? Entretenimento? Estimulação cognitiva? Convivência?
Talvez tudo isso estivesse presente. Mas faltava uma palavra que, para mim, se tornou cada vez mais importante: Educação.
Desde então, essa pergunta tem acompanhado minha atuação como pedagogo, gerontólogo e arte-educador em instituições de longa permanência, serviços de convivência e projetos culturais:
por que reconhecemos tão facilmente os processos educativos durante a infância e a juventude, mas temos tanta dificuldade de enxergá-los quando acontecem aos 70, 80, 90 ou 100 anos?
Vivemos mais. E a Educação?
A longevidade está transformando nossas sociedades.
Durante muito tempo, organizamos a vida quase como uma sequência previsível: primeiro aprendemos, depois trabalhamos e, por fim, nos aposentamos. A Educação ficou fortemente associada às primeiras décadas da existência e à preparação para a vida adulta e para o trabalho.
Só que a vida mudou.
Se nossas trajetórias estão ficando mais longas, essa divisão começa a fazer cada vez menos sentido.
A ideia de aprendizagem ao longo da vida nos convida justamente a compreender que aprender não é privilégio de determinada faixa etária.
Mas acredito que precisamos avançar um passo.
Não basta afirmar que pessoas idosas podem aprender. Precisamos perguntar:
Que oportunidades de aprendizagem estamos oferecendo para elas?
Quem planeja essas experiências? Com quais objetivos? Que conhecimentos e formas de expressão são reconhecidos? Como percebemos aquilo que foi aprendido?
E, sobretudo: onde está a Educação quando a pessoa envelhece?
Da “atividade” à vivência educativa
Essa pergunta se torna especialmente concreta dentro de uma Instituição de Longa Permanência para Pessoas Idosas.
No cotidiano desses espaços encontramos música, dança, pintura, jogos, rodas de conversa, contação de histórias, exercícios de memória, celebrações, artesanato e inúmeras outras propostas.
Todas podem ser valiosas.
Mas uma atividade não se torna educativa simplesmente porque ocupa uma hora na programação.
Existe uma diferença entre oferecer uma atividade e construir uma vivência educativa com intencionalidade.
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Quando proponho uma roda de cultura popular, por exemplo, não estou preocupado apenas em fazer com que as pessoas cantem.
Posso trabalhar ritmo e atenção; estimular lembranças e narrativas autobiográficas; reconhecer repertórios culturais trazidos pelos participantes; favorecer expressão corporal; provocar interação entre pessoas que pouco conversam; discutir direitos; apresentar algo que elas ainda não conhecem; permitir que uma pessoa ensine à outra; registrar histórias; relacionar aquela experiência à identidade de um território.
Nesse momento, a pessoa idosa deixa de ocupar apenas o lugar de destinatária de uma atividade.
Ela lembra, pergunta, compara, escolhe, ensina, cria, interpreta, discorda, compartilha e aprende.
Isso muda a maneira como enxergamos a prática.
Música, dança, literatura, oralidade, memória e cultura popular deixam de ser apenas recursos de entretenimento e passam a constituir linguagens educativas quando há objetivos, mediação, continuidade, observação e reconhecimento dos processos de aprendizagem.
Não se trata de transformar uma ILPI em escola. Trata-se de reconhecer que a Educação pode acontecer onde a vida acontece.
Educação na Longevidade
Foi desse chão da prática que comecei a utilizar a expressão Educação na Longevidade.
Tenho compreendido a Educação na Longevidade como um campo em construção que articula conhecimentos, práticas e políticas voltados à criação de oportunidades de aprendizagem, desenvolvimento humano, participação social, autonomia, expressão cultural e produção de conhecimentos ao longo da vida, considerando as múltiplas formas de envelhecer.
Essa perspectiva vem sendo construída, no meu percurso, no diálogo entre Pedagogia Social, Gerontologia, Arte-Educação e aprendizagem ao longo da vida.
Não pretendo, com essa expressão, substituir conceitos consolidados ou simplesmente dar outro nome ao que já existe.
A intenção é organizar uma pergunta que considero urgente: qual é o lugar da Educação em uma sociedade longeva?
Essa pergunta não pode ser respondida apenas pelas universidades abertas à terceira idade, por mais importantes que sejam.
Precisamos pensar também na pessoa que vive em uma ILPI.
Naquela que frequenta um Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos. Na que participa de um centro-dia.
Na pessoa idosa que vive em um território periférico ou rural. Naquela com deficiência.
Na que teve poucas oportunidades de escolarização.
Na que necessita de apoio para realizar atividades cotidianas.
E naquela que deseja estudar uma nova língua, aprender a tocar um instrumento, compreender uma nova tecnologia, contar sua história, ensinar uma técnica que domina há cinquenta anos ou simplesmente descobrir algo que nunca teve oportunidade de conhecer.
Não existe uma única velhice.
Consequentemente, também não pode existir uma única maneira de educar na longevidade.
O que a prática começou a exigir de mim
Com o passar dos anos, percebi que realizar bons encontros já não era suficiente. Eu precisava compreender melhor o que estava fazendo.
Comecei a registrar experiências, organizar planejamentos, observar respostas, produzir materiais pedagógicos e identificar dimensões que apareciam repetidamente no trabalho: cognição, movimento, identidade, memória, afetividade, cultura, convivência e participação social.
A prática começou a exigir método.
Depois, o método começou a exigir fundamentação.
E a fundamentação começou a me levar para uma pergunta maior sobre política pública.
Foi desse percurso que começaram a surgir diferentes esforços de sistematização: materiais pedagógicos, instrumentos de acompanhamento, uma metodologia de trabalho, a escrita de um livro sobre Educação na Longevidade e a construção de um marco referencial que procura aproximar prática cotidiana, conhecimento da gerontologia, fundamentos educacionais e políticas públicas.
Não apresento essas construções como respostas definitivas. Muito pelo contrário.
Elas nasceram porque a prática começou a produzir perguntas para as quais eu já não encontrava respostas apenas dentro de uma oficina ou de uma instituição.
Como formar profissionais para atuar educacionalmente com pessoas idosas?
Como planejar percursos educativos que tenham continuidade? Como reconhecer aprendizagens que não cabem em provas?
Como documentar desenvolvimento, participação, expressão, vínculos e produção cultural?
Como transformar boas experiências isoladas em programas sustentáveis?
E como fazer tudo isso sem escolarizar a velhice, infantilizar pessoas idosas ou transformar cada dimensão da vida em indicador?
São questões pedagógicas.
Mas são também questões gerontológicas, sociais, culturais e políticas.
Educação também é política de longevidade
Aquilo que observo no cotidiano das instituições não está desconectado do que o Brasil já reconhece juridicamente.
A própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional apresenta uma compreensão de educação muito mais ampla do que a escola. Seu artigo primeiro estabelece que a educação abrange processos formativos desenvolvidos, entre outros espaços, na convivência humana, no trabalho, nos movimentos sociais, nas organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.
Essa definição sempre me chama atenção.
Se a educação acontece também na convivência, nas organizações sociais e nas manifestações culturais, muitos dos espaços onde pessoas idosas vivem, convivem e participam podem ser também territórios educativos.
O Estatuto da Pessoa Idosa vai ainda mais longe.
Seu artigo 20 reconhece o direito da pessoa idosa à educação e à cultura. O artigo 21 determina que o poder público crie oportunidades de acesso à educação, inclusive adequando currículos, metodologias e material didático aos programas destinados às pessoas idosas.
O próprio Estatuto avança nessa direção. Em seu artigo 25, prevê a oferta, pelas instituições de educação superior, de cursos e programas de extensão destinados às pessoas idosas, presenciais ou a distância, constituídos por atividades formais e não formais, na perspectiva da educação ao longo da vida. Esse trecho me parece particularmente provocador.
Porque, se precisamos adequar currículos, metodologias e materiais, existe aí uma questão essencialmente pedagógica.
Portanto, quando falamos em Educação na Longevidade, não estamos partindo de um vazio jurídico.
O direito existe.
A pergunta que a prática me provoca é outra: como transformar esse direito em oportunidades educativas concretas nos diferentes lugares onde as pessoas envelhecem?
Porque uma política de educação ao longo da vida não pode alcançar somente aquela pessoa idosa que consegue chegar a uma universidade ou matricular-se em um curso.
É preciso perguntar também por quem vive distante dos grandes centros ou apresenta diferentes necessidades de apoio.
É justamente nesse espaço entre o direito reconhecido e a experiência cotidiana que situo a discussão sobre Educação na Longevidade.
Uma discussão que ultrapassa o Brasil
Essa preocupação não é exclusivamente brasileira.
O Plano Internacional de Ação de Madrid sobre o Envelhecimento, aprovado em 2002, colocou o envelhecimento dentro da agenda internacional de desenvolvimento e incluiu entre as preocupações relacionadas às pessoas idosas a ampliação de oportunidades educacionais e de aprendizagem ao longo da vida.
Duas décadas depois, o relatório GRALE 5 da UNESCO mostra que transformar esse princípio em realidade continua sendo um desafio. A própria organização ressalta que pessoas idosas estão entre os grupos que permanecem privados de oportunidades adequadas de aprendizagem de adultos em muitos países.
Existe, portanto, uma distância entre dizer que aprendemos durante toda a vida e organizar sociedades que realmente ofereçam condições para isso.
Essa distância é justamente onde as políticas públicas, as instituições e os profissionais começam a fazer diferença.
E onde a Educação encontra o envelhecimento saudável?
Outra aproximação que considero fértil acontece com a Década das Nações Unidas do Envelhecimento Saudável 2021–2030, liderada pela Organização Mundial da Saúde.
Para a OMS, envelhecimento saudável está relacionado ao desenvolvimento e à manutenção da capacidade funcional que possibilita bem-estar na velhice. Essa capacidade depende não somente das capacidades físicas e mentais da pessoa, mas também dos ambientes onde ela vive e da interação entre ambos.
A Década concentra seus esforços em quatro grandes áreas: mudar a forma como pensamos, sentimos e agimos em relação à idade e ao envelhecimento; desenvolver comunidades que favoreçam as capacidades das pessoas idosas; oferecer cuidados integrados e atenção primária centrados na pessoa; e garantir cuidados de longa duração a quem deles necessita.
É importante fazer uma distinção: Educação na Longevidade não aparece na agenda da OMS como uma quinta área da Década, e não seria correto apresentá-la dessa forma.
Mas vejo uma possibilidade importante de diálogo.
Se queremos comunidades e ambientes que favoreçam aquilo que as pessoas idosas são capazes de fazer e aquilo que valorizam, podemos perguntar: qual é o papel das oportunidades educativas na construção desses ambientes?
Aprender uma tecnologia que amplia autonomia, participar de uma experiência cultural, conhecer melhor seus direitos, transmitir um conhecimento para outra geração, desenvolver uma nova habilidade, produzir arte, compartilhar histórias, construir novos vínculos ou continuar tomando decisões são experiências diferentes entre si, mas todas nos lembram que uma pessoa continua estabelecendo relações com o mundo durante a velhice.
É nesse ponto que vejo uma possibilidade de aproximação entre Educação na Longevidade e envelhecimento saudável: não confundindo os campos, mas investigando como oportunidades educativas podem dialogar com participação, autonomia, ambientes favoráveis, vínculos e bem-estar.
A própria OMS tem reforçado a importância de produzir evidências e melhorar os sistemas de monitoramento das ações relacionadas ao envelhecimento saudável. Isso também nos provoca a pensar em como avaliar seriamente os efeitos das práticas que desenvolvemos, sem reduzir a complexidade da experiência humana a números.
Do direito à prática
Talvez, portanto, a discussão não precise começar pela criação de mais um direito. O direito à educação já está colocado. A aprendizagem ao longo da vida já aparece no debate internacional. O que precisamos discutir é como concretizá-la.
Que formação precisa ter o profissional que desenvolve processos educativos com pessoas idosas?
Como adaptar metodologias sem infantilizar?
Como planejar para grupos profundamente heterogêneos?
Como reconhecer aprendizagens quando não existem provas, notas ou diplomas?
Como incluir pessoas com diferentes graus de dependência?
Como transformar experiências pontuais em percursos educativos continuados?
Como registrar evidências sem transformar relações humanas em uma sucessão de indicadores?
E como fazer Educação, Assistência Social, Cultura, Saúde e Direitos Humanos dialogarem sem apagar as especificidades de cada política?
Não tenho respostas prontas para todas essas perguntas. E talvez essa seja uma das razões pelas quais considero importante colocá-las em circulação. A Educação na Longevidade que venho construindo não nasceu primeiro em um documento. Nasceu do encontro.
Depois vieram os registros, os estudos, os planejamentos, os materiais, a metodologia e a tentativa de sistematização.
Esse caminho também me ensinou que sistematizar uma prática não significa engessá-la. Significa criar condições para compreender por que fazemos determinada escolha, o que pretendemos favorecer e o que podemos aprender com aquilo que acontece.
Não educar para “ocupar o tempo”
Existe uma expressão que sempre me inquieta quando falamos de pessoas idosas: “ocupar o tempo”. Como se, depois de determinada idade, o grande desafio fosse preencher horas vazias.
O tempo de uma pessoa com 90 anos não vale menos do que o tempo de uma pessoa com 20. Talvez, justamente por ser um tempo atravessado por tantas experiências, ele mereça ainda mais escuta.
Educação na Longevidade não significa negar perdas, doenças, dependências ou necessidades de cuidado.
Também não significa romantizar a velhice.
Significa recusar a ideia de que essas condições anulam todas as outras dimensões da pessoa.
Alguém pode necessitar de cuidado e continuar aprendendo.
Pode apresentar limitações motoras e continuar produzindo cultura. Pode viver em uma instituição e continuar fazendo escolhas.
Pode apresentar dificuldades de memória e ainda estabelecer vínculos, experimentar, sentir, criar e participar.
Cuidado e aprendizagem não são opostos.
Talvez uma sociedade verdadeiramente preparada para a longevidade seja justamente aquela capaz de oferecer ambos.
A escola da vida não fecha
Tenho aprendido muito sobre Educação convivendo com pessoas idosas. Aprendi que ensinar nem sempre significa transmitir alguma coisa. Às vezes significa criar condições para que uma memória encontre espaço. Às vezes é fazer uma pergunta e saber esperar. Às vezes é apresentar algo que ninguém naquela roda conhecia.
E, em outras, é perceber que quem deveria “receber” a atividade é justamente quem tem algo para ensinar.
Talvez seja esse um dos grandes desafios que a longevidade apresenta à Educação.
Durante muito tempo perguntamos: Como preparar as pessoas para a vida?
Agora precisamos acrescentar outra pergunta: Como construir oportunidades educativas para uma vida que pode durar 80, 90, 100 anos ou mais?
Não tenho uma resposta definitiva.
Tenho uma prática que produz perguntas, uma construção pedagógica em desenvolvimento e uma convicção que se fortalece a cada encontro: a pessoa não deixa de ser sujeito de aprendizagem porque envelheceu.
Se a escola formal termina, a possibilidade de aprender não termina com ela. Se a carreira termina, o desenvolvimento humano não precisa terminar.
Se determinadas capacidades mudam, outras formas de aprender, ensinar, criar e participar continuam possíveis.
Por isso, quando penso em Educação na Longevidade, penso menos em levar uma escola para dentro da velhice e mais em reconhecer aquilo que a própria vida nos mostra todos os dias: enquanto houver vida, haverá possibilidade de encontro, descoberta, troca e aprendizagem.
A escola da vida não fecha.
Referências
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF.
BRASIL. Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Estatuto da Pessoa Idosa. Brasília, DF.
UNITED NATIONS. Madrid International Plan of Action on Ageing. Second World Assembly on Ageing. Madrid, 2002.
UNESCO INSTITUTE FOR LIFELONG LEARNING. Fifth Global Report on Adult Learning and Education – GRALE 5. Hamburgo: UNESCO, 2022.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Decade of Healthy Ageing: Plan of Action 2021–2030. Geneva: WHO, 2020.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Decade of Healthy Ageing: Baseline Report. Geneva: WHO, 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Measuring the progress and impact of the UN Decade of Healthy Ageing (2021–2030): framework and indicators. Geneva: WHO, 2025.
(*) Vinicius Coelho – Pedagogo, gerontólogo e arte-educador. Atua diretamente com pessoas idosas em Instituições de Longa Permanência para pessoas idosas (ILPIs), serviços de convivência e projetos socioculturais em Florianópolis (SC). Desenvolve estudos, práticas e materiais pedagógicos no campo da Educação na Longevidade, articulando aprendizagem ao longo da vida, cultura, participação social e desenvolvimento humano. Autor do livro livro Diários do sentir Minhas Raízes. Fortalecimento da identidade (Editora Afetiva, 2026). Instagram:@artevivamais. E-mail: artevivamais@gmail.com.
Foto: arquivo Portal do Envelhecimento
