A reconstrução envolve dimensões da pessoa idosa que vão além da moradia: acesso à saúde, renda, assistência social, convivência comunitária e suporte psicossocial.
Michelle Bertoglio Clos (*)
As enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul mobilizaram uma ampla rede de solidariedade, serviços públicos e ações emergenciais para atender milhares de pessoas atingidas pela maior catástrofe climática da história recente do estado. Entre os grupos mais afetados estavam as pessoas idosas, que enfrentaram não apenas a perda de moradia, bens materiais e vínculos comunitários, mas também desafios relacionados à saúde, mobilidade e acesso à proteção social.
Durante a emergência, uma das iniciativas implementadas foi o Abrigo Emergencial 60+, criado para acolher pessoas idosas desalojadas pelas enchentes. A experiência representou uma resposta inovadora ao reconhecer que o envelhecimento produz necessidades específicas em contextos de desastre e que a proteção social deve considerar essas particularidades.
Entretanto, uma questão permanece pouco explorada: o que aconteceu com essas pessoas após a desmobilização do abrigo?
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É justamente essa pergunta que orienta a pesquisa “Impacto social, medidas de apoio pós-desmobilização e avaliação de políticas públicas de proteção à população 60+ no contexto de desastres climáticos”[1] – selecionada na 5ª edição do Edital Acadêmico de Pesquisa: Envelhecer com Futuro, realizado pelo Itaú Viver Mais em parceria com o Portal do Envelhecimento e Longeviver – atualmente em desenvolvimento.
Embora a fase emergencial tenha mobilizado recursos, serviços e esforços institucionais significativos, os dados preliminares indicam que parte das pessoas idosas não recebeu apoio compatível com suas necessidades no período posterior ao encerramento do abrigo. As trajetórias identificadas até o momento apontam dificuldades relacionadas ao acesso continuado a serviços, à reconstrução de projetos de vida e à retomada da autonomia em contextos marcados por perdas materiais e emocionais.

Os primeiros achados da pesquisa revelam uma realidade complexa. Dos 61 acolhidos, foram localizados, até junho de 2026, seis idosos em situação de rua, oito residentes em instituições de longa permanência, quatro em domicílio e quatro falecidos. A identificação de óbitos ocorridos nesse período reforça a importância de compreender como se deu a transição entre a proteção emergencial e as ações de recuperação e reconstrução da vida cotidiana.
Embora a pesquisa não tenha como objetivo estabelecer relações causais entre esses eventos e a experiência do desastre, esses registros reforçam a necessidade de compreender de forma mais aprofundada as condições de vida e proteção social das pessoas idosas no período de recuperação pós-catástrofe.
A literatura sobre gestão de riscos e justiça climática tem demonstrado que os impactos dos desastres não se encerram quando as águas baixam ou quando os abrigos são fechados. A etapa de recuperação é decisiva para evitar o agravamento das desigualdades e a reprodução de vulnerabilidades já existentes. No caso da população idosa, a reconstrução envolve dimensões que vão além da moradia, incluindo acesso à saúde, renda, assistência social, convivência comunitária e suporte psicossocial.
O levantamento documental realizado pela pesquisa revela que nos últimos dois anos houve uma importante produção de normativas, protocolos e materiais orientadores voltados à proteção de públicos prioritários em contextos de desastres e emergências climáticas. Nas esferas federal e estadual, foram identificadas políticas públicas emergenciais, planos de contingência da Defesa Civil, protocolos intersetoriais e documentos técnicos que reconhecem a necessidade de respostas diferenciadas para grupos em situação de maior vulnerabilidade, entre eles as pessoas idosas.
Entre os materiais analisados está o Guia de Orientação para Salvaguarda dos Direitos Humanos de Públicos Prioritários em Contextos de Desastres e Emergências Climáticas (BRASIL, 2025). Nessa análise preliminar há uma convergência importante: a proteção das pessoas idosas não pode ser tratada apenas como uma ação emergencial de acolhimento. Os materiais orientam que os planos de contingência devem prever estruturas adequadas de abrigamento, acessibilidade, equipes especializadas, articulação entre assistência social, saúde e defesa civil, mecanismos de monitoramento e acompanhamento, além de estratégias voltadas à reconstrução das condições de vida após o desastre.
Os próprios documentos da gestão de riscos e desastres apontam que a etapa de recuperação deve contemplar o restabelecimento da normalidade das atividades essenciais, a reconstrução dos vínculos comunitários, a retomada do acesso aos serviços públicos e a redução de novas vulnerabilidades. Trata-se de uma compreensão ampliada da proteção social, que ultrapassa o momento da emergência e reconhece a necessidade de acompanhamento continuado dos grupos mais vulnerabilizados.
Nesse sentido, os primeiros resultados da pesquisa suscitam uma reflexão relevante. Se, por um lado, existe atualmente um conjunto significativo de orientações técnicas e normativas que reconhece as necessidades específicas da população idosa em contextos de desastre, por outro, as trajetórias identificadas até o momento indicam que parte das pessoas acolhidas no Abrigo Emergencial 60+ encontrou dificuldades para acessar apoios compatíveis com suas necessidades após a desmobilização.
Mais do que avaliar programas ou serviços isolados, a pesquisa busca compreender se os princípios previstos nas legislações, protocolos e planos de contingência efetivamente se materializaram na experiência concreta das pessoas idosas atingidas pelas enchentes. E, ao dar visibilidade às experiências das pessoas idosas após a saída do Abrigo Emergencial 60+, a pesquisa pretende contribuir para o debate sobre envelhecimento, mudanças climáticas e direitos humanos.
Nota
[1] Artigo vinculado à pesquisa “Impacto social, medidas de apoio pós-desmobilização e avaliação de políticas públicas de proteção à população 60+ no contexto de desastres climáticos”, selecionada na 5ª edição do Edital Acadêmico de Pesquisa: Envelhecer com Futuro, realizado pelo Itaú Viver Mais em parceria com o Portal do Envelhecimento e Longeviver.
Referências
PORTO ALEGRE. Prefeitura Municipal. PLACON Porto Alegre – 2025: Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil. Porto Alegre: Defesa Civil Municipal; ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade, 2025. Aprovado pelo Decreto Municipal n. 23.434, de 1º set. 2025.
PORTO ALEGRE. Prefeitura Municipal. Defesa Civil de Porto Alegre. Plano de Contingência de Porto Alegre. Coordenação: Defesa Civil de Porto Alegre; Hopeful Brasil. Porto Alegre: Defesa Civil de Porto Alegre, [s.d.].
BRASIL. Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil. Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil: PN-PDC 2025–2035. Elaboração: Adriana Leiras et al. Brasília, DF: Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, 2025.
BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Guia de orientação para salvaguarda dos direitos humanos de públicos prioritários em contextos de desastres e emergências climáticas. Brasília, DF: Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, 2025.
BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa. Guia de orientação para pessoa idosa em situação de riscos e desastres. Brasília, DF: Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, 2024.
(*)Michelle Bertoglio Clos – Assistente Social, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Doutora em Gerontologia Biomédica pelo Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS. É pesquisadora e especialista nas áreas de envelhecimento populacional, políticas públicas, longevidade e responsabilidade social, com atuação na formação de gestores, desenvolvimento de projetos sociais e assessoria estratégica para instituições públicas e privadas. E-mail: michelleclos@gmail.com
Fotos: Prints extraídos do Documentário “Abrigo Emergencial 60+“.
