Projeto alia inclusão digital, cidadania e saúde cerebral de pessoas idosas em Porto Alegre

Projeto alia inclusão digital, cidadania e saúde cerebral de pessoas idosas em Porto Alegre

Iniciativa do IGG/PUCRS, apoiada pelo Edital Itaú Viver Mais, combina letramento digital, estimulação cognitiva e pesquisa para fortalecer autonomia, participação social e políticas públicas.


Por Régis Gemerasca Mestriner (*)

Sair de casa, aprender a usar ferramentas digitais, reconhecer riscos de golpes na internet, acessar informações confiáveis, reencontrar o prazer de aprender e construir novos vínculos.

Para muitas pessoas idosas, a inclusão digital vai além do domínio de computadores, celulares ou aplicativos. Representa, sobretudo, a possibilidade concreta de ampliar autonomia, participação social e cidadania em uma sociedade cada vez mais mediada pela tecnologia.

Foi com esse propósito que o Instituto de Geriatria e Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (IGG/PUCRS)  inaugurou o Espaço de Inclusão Digital e Cidadania, voltado ao letramento digital, à estimulação linguístico-cognitiva e à convivência comunitária de pessoas idosas.

A iniciativa foi oficialmente apresentada pela Universidade em 1º de junho de 2026 e tem como público prioritário moradores das comunidades Nossa Senhora de Fátima, São Judas Tadeu e região, em Porto Alegre.

O projeto, intitulado “Inclusão digital: cidadania e promoção da saúde cerebral da pessoa idosa”, foi concebido em 2022 e estruturado para oferecer atividades em grupo voltadas à inclusão digital e ao estímulo cognitivo. A proposta prevê o atendimento de 80 pessoas idosas, incluindo participantes das comunidades parceiras, especialmente pessoas com baixa escolaridade, fator reconhecidamente associado à maior vulnerabilidade ao declínio cognitivo no envelhecimento.

Tecnologia como caminho para autonomia

A proposta parte da constatação de que muitas atividades da vida cotidiana passaram a depender do acesso ao ambiente digital. Serviços bancários, comunicação com familiares, marcação de consultas, busca por informações de saúde, acesso a direitos e participação social são, hoje, frequentemente mediados por tecnologias. Quando a pessoa idosa é excluída desse universo, a exclusão não é apenas tecnológica; ela pode se tornar social, econômica, informacional e afetiva.

Por isso, as oficinas de literacia digital contemplam desde conteúdos básicos, como conhecer o computador e acessar a internet, até o uso de ferramentas de busca, Wikipedia, Google, aplicativos, plataformas de reuniões virtuais, além de orientações sobre cuidados com golpes, fraudes e segurança no ambiente digital. A intenção é que o aprendizado seja aplicável à vida real, respeitando o ritmo, as experiências e as necessidades das pessoas idosas.

Em paralelo, o projeto desenvolve atividades teóricas e práticas sobre envelhecimento cerebral, funções cognitivas, memória, linguagem, funções executivas, atenção, raciocínio, criatividade e estratégias de prevenção do declínio cognitivo. As atividades combinam psicoeducação, dinâmicas de grupo, jogos cognitivos, exercícios práticos e momentos de convivência, reconhecendo que aprender, conviver e participar são dimensões inseparáveis do envelhecimento saudável.

Um projeto que não espera a doença chegar

Além da inclusão digital, o projeto traz uma dimensão preventiva. A proposta não se limita à entrega de equipamentos ou à renovação de espaços físicos. O centro da iniciativa está na oferta de literacia digital e estimulação linguístico-cognitiva para pessoas idosas da comunidade.

A justificativa científica dialoga com evidências recentes sobre prevenção de demência. Estudo publicado na The Lancet Regional Health Americas estimou que quase 60% dos casos de demência no Brasil poderiam estar associados a 14 fatores de risco modificáveis, entre eles baixa escolaridade, isolamento social e baixo estímulo cognitivo ao longo da vida.

Nesse sentido, a inclusão digital assume papel que vai além da aprendizagem técnica. Ela pode funcionar como estímulo cognitivo, meio de comunicação, ferramenta de independência e oportunidade de ampliação da rede social. Trata-se de um projeto que “não espera a doença chegar”.

Pesquisa para orientar políticas públicas

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Um dos diferenciais da iniciativa é a integração entre assistência comunitária, ensino e pesquisa. O projeto prevê acompanhamento da saúde cerebral dos participantes por meio de instrumentos de avaliação cognitiva, coleta de sangue e análise laboratorial de biomarcadores relacionados ao envelhecimento cerebral, declínio cognitivo e processos neurodegenerativos.

Para isso, a proposta contempla o uso de tecnologia de imunoensaio digital ultrassensível, com capacidade de detectar biomarcadores em concentrações extremamente baixas, como proteínas tau, beta-amiloide, neurofilamento, GFAP, BDNF e outros marcadores associados à saúde cerebral. Isso será possível por meio do FemtoQuest™ System, equipamento adquirido no âmbito do projeto – um dos primeiros a serem instalados na América Latina com essa finalidade.

A expectativa é que os dados gerados contribuam para compreender se a combinação entre inclusão digital e estimulação cognitiva é capaz de produzir efeitos mensuráveis em indicadores associados à saúde cerebral. A frente de pesquisa integrada ao foco assistencial busca gerar evidências que possam contribuir para futuras políticas públicas de envelhecimento ativo e saudável.

Para além do atendimento a um grupo específico, o projeto pretende testar um modelo de intervenção capaz de articular universidade, comunidade, gestão pública e financiamento social em torno de uma pergunta concreta: como oferecer estímulo cognitivo, inclusão digital e cidadania de forma efetiva, mensurável e socialmente relevante?

Universidade comunitária e compromisso com o território

O projeto foi aprovado pelo Conselho Municipal da Pessoa Idosa de Porto Alegre (COMUI), e viabilizado com recursos do Fundo Municipal da Pessoa Idosa de Porto Alegre, com grande parte dos recursos destinados pelo Edital Itaú Viver Mais (de seleção de projetos via Fundo da Pessoa Idosa), além da participação da Secretaria Municipal da Inclusão e Desenvolvimento Humano do município e da Pró-Reitoria de Saúde da PUCRS.

A iniciativa reforça a vocação comunitária da Universidade e o papel histórico do IGG, criado em 1973 e reconhecido como uma das primeiras instituições da América Latina dedicadas à geriatria e à gerontologia. Na prática, o Espaço de Inclusão Digital e Cidadania nasce como um lugar de aprendizagem, convivência e produção de conhecimento.

Um ambiente onde computadores são importantes, mas não são o ponto final. O ponto central é a pessoa idosa, com a sua história, sua autonomia, sua capacidade de aprender, sua presença na comunidade e seu direito de participar plenamente da vida contemporânea.

Em uma sociedade que envelhece rapidamente e que se digitaliza em velocidade ainda maior, iniciativas como essa mostram que inclusão digital também é promoção de saúde, prevenção, cidadania e justiça social. Para além de ensinar a usar ferramentas tecnológicas, o projeto convida pessoas idosas a seguirem aprendendo, convivendo e ocupando espaços, dentro e fora da Universidade.

(*) Régis Gemerasca Mestriner – Diretor Científico do Instituto de Geriatria e Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (IGG/PUCRS)  e coordenador atual do Espaço de Inclusão Digital e Cidadania.

Foto: Arquivo do Projeto



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