A ciência diante do fim da vida: quando o corpo silencia, as perguntas permanecem

A ciência diante do fim da vida: quando o corpo silencia, as perguntas permanecem

Entre explicações médicas, relatos de experiências limítrofes e interpretações culturais, a morte se revela como um processo que desafia a ciência e atravessa o sentido da vida.



Em análise publicada pela Deutsche Welle, o jornalista científico Alexander Freund observa que a morte, frequentemente imaginada como um instante exato e definitivo, revela-se, do ponto de vista da medicina e das ciências biológicas, como um processo gradual. Longe de acontecer de uma só vez, o fim da vida envolve uma sequência de transformações que podem começar antes do último suspiro e se estender mesmo após a interrupção das funções vitais, deslocando a ideia de um limite claro entre estar vivo e estar morto.

Do ponto de vista médico, não há uma única definição de morte,  a chamada morte clínica ocorre quando o coração para de bater e a respiração cessa, condição que, em determinados contextos, ainda pode ser revertida com intervenções rápidas. Já a morte cerebral corresponde à interrupção irreversível das funções do cérebro, incluindo as áreas responsáveis pela consciência, pela respiração espontânea e pelos reflexos básicos. É esse marco que determina, de forma definitiva, o fim da vida como experiência subjetiva, ainda que o corpo continue apresentando respostas residuais.

Privado de oxigênio, o cérebro começa a sofrer danos graves em poucos minutos, enquanto outros tecidos conseguem resistir por mais tempo. O coração pode apresentar atividade residual, células continuam reagindo e processos físicos seguem em curso. Com o passar das horas, o sangue se deposita nas regiões mais baixas do corpo, os músculos entram em rigidez e, gradualmente, a decomposição se inicia. Esses fenômenos são descritos pela ciência, mas contrastam com a dificuldade humana de aceitar que a vida se extingue de forma silenciosa e progressiva.

Entre a interrupção das funções vitais e o fim definitivo da atividade cerebral, algumas pessoas relatam experiências intensas. Sensações de sair do próprio corpo, visões de luz, lembranças aceleradas de momentos da vida ou uma profunda sensação de paz aparecem em diferentes relatos de quem passou pela chamada morte clínica e retornou. Essas experiências, conhecidas como experiências de quase-morte, variam conforme contextos culturais e individuais e continuam desafiando explicações conclusivas.

As hipóteses científicas mais aceitas associam essas vivências à falta de oxigênio no cérebro, à liberação de neurotransmissores e à ativação de áreas ligadas à memória e à percepção. Ainda assim, essas explicações não dão conta, por completo, do impacto subjetivo dessas experiências, que frequentemente transformam a forma como as pessoas passam a compreender a vida, o envelhecimento e a própria finitude. Mesmo descritas em termos neurológicos, elas revelam que o processo de morrer envolve dimensões que ultrapassam o funcionamento estritamente biológico do corpo.

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Ao longo da história, diferentes culturas elaboraram respostas para aquilo que a ciência ainda não consegue afirmar. Tradições religiosas falam em continuidade da vida, ressurreição ou reencarnação, povos antigos criaram rituais para marcar a passagem; crenças contemporâneas seguem tentando atribuir sentido ao desconhecido. Do ponto de vista científico, não há evidências de que a consciência sobreviva à morte do cérebro, o que mantém em tensão o diálogo entre o que pode ser comprovado e o que permanece no campo da crença.

O medo da morte, nesse contexto, parece menos ligado ao ato de morrer e mais à incerteza do que vem depois, com o avanço da idade, essa questão deixa de ser abstrata e passa a ocupar o cotidiano. As mudanças do corpo, as perdas acumuladas e a proximidade da finitude tornam o tema mais presente para pessoas idosas, para quem cuida e para quem acompanha processos de adoecimento. Falar sobre a morte, nesses contextos, é também falar sobre cuidado, autonomia, despedidas e sentido.

Tratar do que acontece durante e após a morte, a partir de uma abordagem científica e sensível, contribui para ampliar o debate sobre envelhecimento e finitude. Reconhecer a morte como um processo, e não apenas como um evento abrupto, pode abrir espaço para conversas mais honestas e para um olhar mais cuidadoso sobre o viver até o fim, mesmo quando as respostas definitivas continuam fora do alcance.

Referência
Freund, Alexander. O que acontece durante e após a morte. Deutsche Welle Brasil. Disponível em: https://encurtador.com.br/gGJq. Acesso: 16/12/2025

Foto de Thom Gonzalez/pexels.

(*) Sob orientação de Beltrina Côrte – Jornalista, CEO do Portal do Envelhecimento. E-mail: beltrina@portaldoenvelhecimento.com.br

Ana Beatriz Ferraz
Ana Beatriz S. Ferraz

Ana Beatriz S. Ferraz é bacharelanda em Gerontologia pela Universidade de São Paulo. Atualmente é estagiária no Portal do Envelhecimento e Longeviver. www.linkedin.com/in/ana-beatriz-s-ferraz-a3a7a2132.

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Ana Beatriz S. Ferraz é bacharelanda em Gerontologia pela Universidade de São Paulo. Atualmente é estagiária no Portal do Envelhecimento e Longeviver. www.linkedin.com/in/ana-beatriz-s-ferraz-a3a7a2132.

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