Ser feliz depois dos setenta

Ser feliz depois dos setenta

Apesar de querer ser feliz ser uma ótima opção, é bom termos outros propósitos.


A pergunta que todos fazem, inclusive eu, é: “é possível ser feliz quando a idade já se representa por um número tão grande? Como? É bem provável que não haja uma resposta única, cada pessoa é um livro de muitas páginas, cada um tem uma história de vida e toda vida é plena de amores e de dores. Então, o que podemos fazer para chegarmos o mais próximo possível da felicidade?

Tenho convicção de que a felicidade é constituída de fragmentos, e instantes. E instante feliz, segundo o Professor Clóvis de Barros, é aquele que a gente não quer que acabe. Mas ele acaba. Podemos mudar a pergunta, já que perguntar não ofende. O que podemos fazer para diminuirmos nossos momentos infelizes, aqueles que gostaríamos que acabasse logo?



Não sou um Leonardo Orr, nem mesmo sou psicólogo, sou apenas um impertinente aprendiz metido a escritor, mas tenho também minha lista de possibilidades para realizar nosso propósito, segundo o Dalai Lama, de buscar a felicidade. Quem sabe, chegar até ela, mesmo que por uns momentos que não gostaríamos que acabasse. Ou, pelo menos, que eu possa dizer, parodiando o Chaves, “sou feliz por querer querendo”. Esse personagem adorado pelos meus filhos em seus tempos de criança ajudou-me a construir meu mantra: “sou feliz por opção, sou bem humorado por precisão”. Assim me preparo para viver mais um dia.

Na verdade, apesar de querer ser feliz ser uma ótima opção, uma opção fugaz como a chama de uma vela, é bom termos outros propósitos combinados, aqueles que, além de nos ajudar a ser felizes, permite que deixemos um legado mais duradouro. E o meu é escrever, publicar e vender minhas histórias. Ou pelo menos ter alguém que as leia ou as ouça. É por isso que levanto disposto todos os dias. E sigo a minha cartilha, aquela que construí para me ajudar a realizar a opção de ser feliz. Vamos a ela.

1.    Faça as pazes com suas origens

Talvez a sua concepção não tenha sido aquele momento de amor romântico entre seu pai e sua mãe; talvez o seu nascimento não tenha sido aquela alegria. É possível que tenha sofrido. Todos nós sofremos ao nascer, alguns mais que outros, por variadas razões. Talvez sua infância não tenha sido feliz como todas as infâncias deveriam ser; talvez os seus pais não tenham tido muito tempo para acarinhar você. A minha infância foi assim, bem cuidada, mas muito pouco acarinhada. Mas, e daí, cara? Você está vivo! Seus pais fizeram o melhor que puderam. E não poderiam dar o que talvez não tenham tido. Então, supere e ressignifique. Dê um abraço neles e agradeça a eles por lhe darem a vida. A vida é o bem mais precioso, e você faz parte dela. Dê um desconto, ame-os e ame os seus familiares e seus amigos.

2.    Pare de pensar e de falar desgraças

Lá pelos anos oitenta, não me lembro exatamente quando, assisti uma mesa redonda em um congresso sobre poesia e ouvi o conhecido letrista José Carlos Capinam falar que enquanto ele escrevia letras tristes e melancólicas, sua vida era um desastre. Um belo dia decidiu mudar o tom de suas letras. Passou a escrever sobre a alegria de viver e sobre o amor. Sua vida mudou de água a vinho. Ele se tornou outra pessoa. Depois daquele dia tomei a mesma atitude. Foi quando optei por ser feliz por querer. Nós somos o que pensamos e falamos. Se pensarmos em coisas boas, coisas boas acontecerão. Então, pare de pensar e de falar em desgraças e veja você mesmo!

3.    Mude para continuar

Há pessoas que fazem todos os dias as mesmas coisas. A rotina tem suas vantagens, lógico. Uma delas é que você passa a fazer tudo no piloto automático. Ao se levantar seus sapatos estão exatamente onde os deixou. A mesma coisa com os óculos e com sua xícara favorita para o café da manhã. O problema surge quando algum desavisado troca suas coisas de lugar. Aí vem o pânico, acompanhado da tristeza por pensar que alguém está lhe boicotando. É preciso saber mudar para continuar seguindo em frente. Mude os hábitos, mude os caminhos por onde passa, mude as rotinas de vez em quando. Ligue as antenas do cérebro e sorria quando não encontrar alguma coisa. Coisas não mudam de lugar sozinhas. Não as encontrar é uma ótima oportunidade de fazer diferente.

4.    Aprenda coisas novas

Tenho amigos, até mais jovens que eu, que costumam dizer que a essa altura de suas vidas não querem aprender mais nada. Que desperdício! Alguém que pensa assim, acredita também que não tem mais nenhuma contribuição a dar às pessoas de seu entorno e ao mundo. Está a um passo curto da decrepitude e da demência. E, em consequência, da infelicidade. Pois saiba que aprender coisas novas, seja uma arte ou uma técnica, traz você de volta ao plano da utilidade. Pois é tão bom ser útil de alguma forma! Então, aprenda a plantar flores, aprenda a escrever trovas, aprenda a fazer carrinhos de rolimã, aprenda a fazer arte com produtos recicláveis. Aprenda a falar espanhol e pense em visitar os países vizinhos. Por que não?

5.    Escreva um diário

É isso mesmo. Arranje um caderno com a capa bonita e, todos os dias, ao se levantar, escreva umas páginas com suas lembranças do dia anterior e seus sonhos à noite. Esta prática é excelente para a memória, é excelente para exorcizar seus medos e suas angústias e ainda o ajuda a melhorar sua escrita e sua oratória. A escrita o ensina a procurar palavras novas para seu vocabulário e o torna uma pessoa interessante em uma roda de conversa. O diário não é para as pessoas lerem, ele é altamente confidencial. O meu diário fica na estante e está escrito na capa, em letras grandes: “se quer saber algo de mim, pergunte-me em vez de ler meu diário”.

6.    Fique longe do Alzheimer

Muitas pessoas que, geneticamente, são propensas a terem Alzheimer, conseguem ficar longe dele com práticas cotidianas bem simples. Uma delas é a leitura que, além de melhorar seu vocabulário e ajudá-lo na escrita e na oratória, ajuda também a manter a memória ativa. Outra atividade incrível para o cérebro é, acreditem, a musculação, a ginástica para os músculos, principalmente das pernas. Pesquisas recentes nas universidades mostram que o exercício muscular ajuda a liberar nutrientes que fortalecem o cérebro. Então, vamos malhar?

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7.    Faça algo que nunca fez

Cada um tem dentro de si uma vontade de fazer algo que deixou para trás, como conhecer um lugar onde nunca foi, comer em um restaurante caro uma comida que sempre quis comer, nadar pelado em uma cachoeira escondida, rever uma pessoa que conheceu há muitos anos e nunca mais viu. Que tal, então, fazer algo que sempre teve vontade, nunca fez, e lhe daria um enorme prazer em fazê-lo? Eu sempre quis escalar uma montanha bem alta e só havia escalado montanhas menores. Um belo dia, em uma estrada no Chile, alguém me disse que do alto de certa montanha, de dois mil metros, se avistava uma bela paisagem. Não tive dúvidas. Parei o carro e a escalei. Quatro horas depois, desceu o cara mais feliz do mundo: eu.

8.    Respire de forma consciente

Parece brincadeira, de tão fácil. Mas tem gente que não consegue parar e respirar profunda e tranquilamente. Respirar não é apenas o que nos mantém vivos. Respirar com consciência pode melhorar nossa saúde física e mental. Porque ela nos conecta com o presente, com o agora. Tira de nossa mente pensamentos inadequados. E basta sentar confortavelmente e respirar testemunhando o ar entrando e saindo de suas narinas. Se quiser se aperfeiçoar em técnicas de respiração, há várias na literatura que nos ensina como respirar para nos melhorar em situações diferentes.

9.    Abandone sua ignorância

Ignorância é ausência de conhecimento. Todos somos ignorantes em muitas coisas as quais desconhecemos. Abandonar a ignorância é estar sempre em busca de novos conhecimentos. Mas pode ser um pouco mais que isso. Além de abandonar a ignorância você pode também cultivar sua sabedoria, que é usar o conhecimento adquirido para fazer bem ao outro e à sociedade. Nada mais portador de felicidade que ser útil. Sempre digo às pessoas tristes para sair e ajudar alguém. Faz um bem danado.

10. Agradeça

Agradeça o que tem em mãos e esqueça a grama e o cônjuge do(a) vizinho(a). Eles podem ser mais bonitos que os que tem em casa, mas culpa é sua. Por que não cuida de sua vida e embeleza o que tem? Agradecer é atrair o melhor do mundo para dentro de você.

Já estava para terminar esse texto quando entrei no sítio internet de um dicionário bem útil. No fim da primeira página tem uma indicação da palavra do dia. Faço isso para aprender palavras novas e usá-las principalmente em microcontos que escrevo diariamente. É um excelente exercício para desenvolvimento da escrita. E qual a palavra do dia de hoje?


INFAUSTO: desafortunado, azarento.
Aquele que expressa ou carrega a infelicidade.


O que escolhe ser, a partir de hoje? Um ser humano fausto ou infausto?

Foto de Кристина Алексеевна/pexels.

Atualizado às 11h20


Paulo Cezar S Ventura

Graduado (UFMG) e Mestre (USP) em Física, e Doutor em Ciências da Comunicação e da Informação, pela Université de Bougogne, em Dijon, França. Exerceu a profissão de professor, no CEFET-MG, onde dirigiu o LACTEA – Laboratório Aberto de Ciência, Tecnologia, Educação e Arte. Hoje se dedica à literatura e se identifica como poeta, cronista, contista e editor da Rolimã Editora Ltda. Autor de diversos livros. Participa do Movimento Vidas Idosas Importam e é membro da Academia Novalimense de Letras. [email protected] - @paulocezarsventura

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Paulo Cezar S Ventura

Graduado (UFMG) e Mestre (USP) em Física, e Doutor em Ciências da Comunicação e da Informação, pela Université de Bougogne, em Dijon, França. Exerceu a profissão de professor, no CEFET-MG, onde dirigiu o LACTEA – Laboratório Aberto de Ciência, Tecnologia, Educação e Arte. Hoje se dedica à literatura e se identifica como poeta, cronista, contista e editor da Rolimã Editora Ltda. Autor de diversos livros. Participa do Movimento Vidas Idosas Importam e é membro da Academia Novalimense de Letras. [email protected] - @paulocezarsventura

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