Relato de um estagiário em uma URSI: “Obrigado, Seu Alecrim”

Relato de um estagiário em uma URSI: “Obrigado, Seu Alecrim”

Entrar na URSI foi como um mergulho no oceano, encontrei muita diversidade.


Diego Cianelli Sanmiguel (*)

Segue meu último relato de estágio do curso de Psicologia da PUC-SP em uma URSI – Unidades de Referência à Saúde do Idoso da cidade de São Paulo. As URSIs são centros de saúde pública voltadas ao atendimento de pessoas idosas em situação de vulnerabilidade física e psicológica, onde uma equipe multidisciplinar atua, identificando os principais problemas que acometem à pessoa idosa, para então encaminhar à atividade adequada.

Os nomes dos participantes presentes nesse relatório-crônica de estágio foram alterados por diferentes nomes de chá. Esta escolha foi tomada para proteger os integrantes do grupo e, também, reflete um pouco da experiência vivida naquele espaço. Cada um deles era um respiro diferente que aquecia o peito e parecia fazer bem todas as manhãs de segunda-feira, assim como um bom chá.

Meu relato

Me deparei com um lanche coletivo para a responsável pela atividade de Balance, a Tatiane, pelo seu aniversário. Camomila, uma idosa do grupo, lembrou-se na semana passada e propôs fazermos algo diferente, como um lanche coletivo. Acordei mais cedo, por volta de 7 horas para comprar pão de queijo e mini croissant de queijo na padaria antes de me dirigir à URSI.

Sentei na sala do primeiro andar esperando a Tati chegar enquanto escutava a conversa das outras funcionárias ao meu redor. Praticamente todas naquele horário são mulheres, isso me deixa extremamente confortável, principalmente pelo fato de que elas se conhecem a muito tempo e não ligam de falar qualquer coisa na minha frente enquanto fico sentado em silêncio. Fui criado muito tempo só por mulheres, ainda mais após os 15 anos de idade em que meu pai foi morar na Bahia e fiquei com minha mãe e minha vó. Mesmo antes disso, quando era mais novo, sempre tive muitas amigas mulheres e aprendi muito com elas. Tati chegou, sentou do meu lado e dei parabéns, ela ficou feliz e me abraçou. Para minha surpresa, ninguém na sala havia lembrado do seu aniversário, o que foi motivo para ela brincar com todas que até o estagiário de 1 semana lembrou e elas não, todos rimos e, a partir daí, ela foi me inserindo sempre nas conversas até descermos para começar a atividade.

Achei que faríamos algumas atividades do Balance e depois acabaríamos mais cedo para comer todos juntos, mas fizemos apenas lanche coletivo, uma ótima surpresa. Maracujá levou um bolo de fubá e deu de presente para Tati uma caneca e uma caneta do palmeiras, Dona Canela levou um bolo salgado que a Tati não parava de pedir na última segunda e deu um pano de prato de presente e a Senhora Hortelã levou sanduíches cortados em quadrados de pão de forma com patê e também deu uma caneca do palmeiras diferente. Além disso, Vanessa comprou coxinhas e a Tati comprou dois bolos de chocolate para o lanche pelo ifood que esperamos chegar para começarmos a comer. Além disso, também tinham ido Mate, Erva-Cidreira, Hibisco, Alecrim, Erva-Doce e Boldo.

Me sentei entre a Dona Canela e a Senhora Hortelã, conversei um pouco com elas enquanto pegava algumas coisas para Canela de vez em quando, já que tem problemas de locomoção. Ela falava do seu final de semana em que viajou para Presidente Prudente e voltou tarde, quase não foi, mas não queria deixar a Tati triste pelo bolo salgado.

Em certo momento, percebi Dona Canela olhando para as tatuagens em meu braço tentando entendê-las com os olhos cerrados, como se analisasse cada uma delas separadamente, mas sem conseguir diferenciá-las claramente, não sei se por julgamento, dificuldade de enxergar, ou um pouco de cada um. Em certo momento conversei com a Tati sobre a atividade ser cheia e as pessoas parecerem gostarem bastante e alguns minutos depois disso Canela virou para mim e falou:

– Eu gosto muito daqui. Eles nos tratam bem, realmente cuidam da gente. Tem carinho por nós e nos fazem fazer parte daqui, realmente funciona.

Essa fala me confortou o coração. Para um entusiasta de políticas públicas como eu, esse tipo de percepção sobre um mecanismo tão importante como o SUS e seu reconhecimento como política pública de saúde é emocionante. Entender o impacto que esse tipo de trabalho tem na vida das pessoas sempre foi um dos maiores motivos de gostar de política e conseguir ver isso na prática só me fez perceber mais o quanto a mudança para psicologia foi uma das melhores decisões que já fiz. A URSI funciona, tendo problemas como qualquer instituição, mas funciona, impacta diretamente na vida das pessoas, faz o máximo para garantir dignidade, bem-estar e saúde aos idosos e às idosas que são encaminhadas. Esse foi um dia repleto de risadas, conversas paralelas, piadas, brincadeiras e muita comida.

Mesmo assim, o que mais me impactou no dia não foi nada disso. O resto do relatório crônica será muito pessoal. Enquanto chegava próximo do horário de acabar a atividade, paramos para cantar parabéns antes de cortar e comer o bolo. Nesse momento, também vieram várias pessoas que trabalhavam na URSI, mas que tocam outras atividades, enfermeiras e médicas para participar, mas inicialmente ficaram próximas da porta. Foi uma música de feliz aniversário engraçada, meio fora do ritmo, cada um numa parte um pouco diferente, ficando mais baixo e mais alto o volume aleatoriamente, o que estranhamente combinou com o dia e as pessoas pelo fato de, mesmo cada participante fazendo de uma forma, todos estavam confortáveis e felizes.

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No final do parabéns, Seu Alecrim levantou da cadeira com seu óculos escuros e boina e cantou em alto e bom tom um pequeno trecho de uma música de igreja destinada para esse momento de pós parabéns. Mesmo que na semana passada, Seu Alecrim tenha tido muita dificuldade em lembrar o nome da Tati na atividade de memória, ele não teve nenhuma vergonha, ou dúvida, de cantar lentamente essa música para ela. Todos nós ouvimos em silêncio, apenas olhando e aproveitando esse momento em que esse idoso tão particular cantava com um coro bem baixo de Dona Hibisco que também conhecia a música. Podem ter se passado alguns segundos só de música, mas senti como se meu peito tivesse ficado cheio, meus ouvidos amaciados e os olhos tremulantes de emoção, assim como agora enquanto escrevo esse relato. Enquanto Seu Alecrim cantava senti como se o tempo tivesse parado, fazia muito tempo que não era tocado tão profundamente dessa maneira e ficasse tão emocionado com uma cena que poderia ser tão corriqueira.

Fui pego de guarda baixa e parecia que todos os muros que criei dentro de mim para me proteger de não sei bem o que, tivessem sido quebrados de uma vez só e meu coração mole ficava, mais uma vez, exposto, batendo forte em contato com aquela cena, enchendo-se de vida. Parecia que fazia anos que ficava afastado do momento presente, preso nos planos futuros e na nostalgia do passado, mas depois de muito tempo, fui jogado sem paraquedas ao presente, como se tivesse ficado embaixo d’água vendo a superfície do fundo da piscina e agora pegasse o maior impulso que conseguia para ir o mais alto possível e respirar fundo. Segurei para não chorar. Um momento tão corriqueiro para Seu Alecrim, mas tão absurdamente lindo para quem o escutava.

Lembrei do meu pai, que mesmo sendo uma pessoa grande e bem pesada, subia em cima da mesa da minha sala depois do almoço de domingo e cantava uma música de igreja da época que ele era coroinha enquanto eu ria sem parar. Meu pai não é meu pai biológico, ele escolheu me criar quando ficou junto da minha mãe viúva, eu tinha 2 anos de idade. Mesmo assim, ele nunca me chamou de mais nada além de filho, pagou toda minha escolaridade, me apoiou em tudo que quis fazer, comprou um apartamento para minha mãe, pagou faculdade para ela que nunca havia feito mesmo com 40 e poucos anos, me buscou no trabalho quando fui Jovem-Aprendiz com 14 anos e me amou profundamente até o final da vida em 2013.

Pode ser que na semana que vem Seu Alecrim nem se lembre disso tão bem, provavelmente ele nunca vai lembrar de mim depois que acabar meu estágio, mas nunca vou esquecer desse momento na minha vida, nunca vou me esquecer de Seu Alecrim. Mesmo que não seja para ele, agradeço do fundo do meu coração.

Muito obrigado, Seu Alecrim!


O que a URSI foi para mim, um estagiário de Psicologia
Entrar na URSI foi como um mergulho no oceano, em que para todos os lados que olhasse enxergava uma imensidão ainda maior. Mesmo que isso pudesse ser assustador, os detalhes, a beleza e a diversidade encontradas não tinham nenhum fim e, sempre que perguntava ou conhecia algo, parecia que um mundo novo se abria para mim. Os relatórios, em formato de crônica, foram como um respiro depois de passar muito tempo debaixo d’água observando a tudo e a todos que podia, bom para dar uma pausa, mas sempre ansioso para o próximo mergulho. Foram horas conversando com minhas colegas e meus colegas, além da minha namorada e meus familiares, contando experiências, reflexões e momentos engraçados passados pelas águas da URSI, um lugar tão caloroso e especial em meio a um caos urbano aprofundado pela avenida sempre cheia. É triste escrever um último relatório, pois isso significa que acabou, não tem mais e o que resta são apenas memórias dessa experiência tão rica e importante para minha graduação e minha vida. Ao mesmo tempo, as boas despedidas são aquelas emocionantes, aquelas marcantes e que se sabe, lá no fundo, que sempre trarão um calor no peito quando se fala sobre. Mais do que qualquer outra coisa aprendi o que é a URSI, conheci mais do SUS e, tão importante quanto isso, entendi que realmente funciona. A URSI funciona, o SUS vive. Espero que isso não seja um adeus, mas apenas um até logo. Obrigado por tudo, URSI.

(*) Diego Cianelli Sanmiguel – Estudante do 6º semestre do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Texto produzido como resultado do Estágio Básico I, supervisionado pela Profa. Dra. Ruth G. da C. Lopes, Turma: EBIVE52. E-mail: [email protected]

Foto de Ami Suhzu/pexels.


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