Quebrando tabus: Eliana Corrêa Tamer, aos 73 anos, iniciou tratamento com cannabis medicinal

Quebrando tabus: Eliana Corrêa Tamer, aos 73 anos, iniciou tratamento com cannabis medicinal

Professora aposentada encontrou na cannabis medicinal uma alternativa para lidar com a dor crônica da artrose e recuperar qualidade de vida na velhice.


Conviver com dor crônica ainda faz parte da rotina de muitas pessoas idosas. Em geral, essa dor é naturalizada como consequência inevitável do envelhecimento, o que frequentemente adia o acesso a tratamentos adequados e a estratégias de cuidado mais amplas. É nesse contexto que se insere a história de Eliana Corrêa Tamer, professora aposentada, 73 anos, com o uso da cannabis medicina.

Eliana compartilhou sua experiência com o uso de cannabis medicinal em entrevista concedida ao jornal Cannabis & Saúde. A conversa foi conduzida por sua filha, Denise Tamer, jornalista formada pela PUCRS, com mestrado em Comunicação e Cultura pela Universidad Católica del Uruguay, em Montevidéu. Denise também concluiu, recentemente, capacitação em Consultoria de Cannabis Medicinal pela Lev Academy, ampliando sua atuação na interface entre comunicação, educação em saúde e cuidado.

O diagnóstico de artrose acompanha Eliana há cerca de quatro anos, no início, a dor era discreta, concentrada nas articulações dos dedos, com o tempo, passou a atingir outras regiões do corpo, como ombros, joelho esquerdo e quadril, interferindo diretamente no sono e nas atividades cotidianas.

“Eu acordava com dor no ombro. Mas se virava para o outro lado, o quadril doía. Era uma noite sempre interrompida, nunca tranquila”, relatou na entrevista.

Como ocorre com muitas pessoas idosas, a principal estratégia para lidar com a dor foi, durante anos, o uso recorrente de medicamentos anti-inflamatórios. Embora oferecessem algum alívio, os efeitos eram temporários, e as noites seguiam fragmentadas pela dor.

A artrose é uma das condições mais prevalentes na velhice e acompanha o avanço da idade em diferentes graus de intensidade. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a maioria das pessoas diagnosticadas com a doença tem mais de 55 anos, o que evidencia sua forte relação com o envelhecimento populacional.

Ainda assim, a dor associada à artrose costuma ser subestimada, tanto pelos próprios pacientes quanto pelos serviços de saúde. Muitas pessoas aprendem a conviver com a dor como se ela fosse uma consequência natural do envelhecer, adiando a busca por cuidado e naturalizando limitações que impactam diretamente a autonomia, o sono, o humor e a participação social. Esse silenciamento da dor contribui para um sofrimento prolongado e invisível, especialmente entre pessoas idosas, para quem o acesso a abordagens terapêuticas individualizadas e seguras ainda é desigual.

Na entrevista ao Cannabis & Saúde, Eliana contou que sua resistência inicial ao tratamento com cannabis medicinal não esteve relacionada ao preconceito, mas à falta de informação. “Não avaliava que a Cannabis seria mesmo o meu melhor tratamento. Hoje vejo que perdi tempo”, afirmou.

Após avaliação clínica e acompanhamento médico, Eliana iniciou o uso de um óleo de cannabis medicinal do tipo full spectrum, com predominância de canabidiol (CBD) e canabigerol (CBG). Segundo seu relato, os efeitos não foram imediatos, mas progressivos.

Desde que comecei a usar Cannabis medicinal, eu nunca mais tomei anti-inflamatório. Eu durmo e acordo sem dor. Antes, minhas noites eram interrompidas pela dor nos ombros; hoje, durmo tranquila depois de tomar minhas gotinhas”, contou.

Embora a artrose continue presente, a dor deixou de ser o elemento central da rotina, o sono tornou-se mais regular, o humor melhorou e atividades do dia a dia passaram a ser realizadas com mais autonomia. 

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Experiências como a de Eliana dialogam com um campo de pesquisas científicas em expansão que investiga o papel do sistema endocanabinoide (um sistema fisiológico presente no corpo humano) na regulação da dor, da inflamação e de outros processos relacionados ao equilíbrio do organismo. Revisões científicas publicadas em periódicos internacionais indicam que esse sistema participa da modulação da dor inflamatória e nociceptiva, o que tem despertado interesse em sua atuação em condições de dor crônica.

No caso dos fitocanabinoides, como o canabidiol (CBD), estudos experimentais e clínicos apontam que esses compostos podem atuar em diferentes vias envolvidas na percepção da dor e nos processos inflamatórios, inclusive em condições musculoesqueléticas como a artrose. Ensaios clínicos controlados conduzidos com pessoas com osteoartrite também vêm sendo publicados, indicando boa tolerabilidade e segurança do uso de óleos à base de cannabis sob acompanhamento médico, ainda que os resultados sobre eficácia variem entre os estudos.

Em conjunto, essas evidências reforçam a importância da avaliação individualizada e do acompanhamento profissional, especialmente no cuidado com pessoas idosas, para quem o uso prolongado de anti-inflamatórios tradicionais pode representar riscos adicionais.

No Brasil, o acesso à cannabis medicinal é permitido dentro de um marco regulatório definido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Atualmente, a regulamentação é estabelecida pelaRDC nº 660/2022, que dispõe sobre a importação, por pessoa física, de produtos à base de cannabis para uso próprio, mediante prescrição de profissional de saúde legalmente habilitado. A norma reforça a necessidade de acompanhamento médico, controle de qualidade e avaliação individualizada, aspectos especialmente relevantes no cuidado com pessoas idosas, que frequentemente fazem uso concomitante de outros medicamentos e demandam monitoramento contínuo dos efeitos e da segurança do tratamento.

Relatos como o de Eliana contribuem para desmistificar e quebrar tabus que ainda cercam o uso de medicamentos à base de cannabis, especialmente no cuidado de pessoas idosas. Ao trazer a experiência vivida para o centro da narrativa, essas histórias ajudam a deslocar o debate do campo do preconceito para o da informação qualificada, do cuidado em saúde e da autonomia, mais do que apresentar a cannabis como solução, esses relatos evidenciam a importância do acompanhamento profissional, da escuta atenta e da construção de decisões terapêuticas compartilhadas, respeitando trajetórias individuais, limites clínicos e contextos de vida no envelhecimento.

Referências
Bannister, S. Et Al. Cannabinoids, The Endocannabinoid System, And Pain. European Journal Of Pain, V. 25, N. 6, P. 1243–1256, 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33729211/. Acesso Em: Jan. 2026.
Vasilakis, A. Et Al. Effectiveness Of Cannabidiol To Manage Chronic Pain: A Systematic Review. Pain Management, V. 13, N. 1, P. 1–15, 2023. Disponível em: https: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37953193/. Acesso Em: Jan. 2026.
Philippe, D. Et Al. Cannabis And Joints: Scientific Evidence For The Alleviation Of Osteoarthritis Pain By Cannabinoids. Journal Of Pain Research, V. 11, P. 257–268, 2018. Disponível em: https: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29635215/. Acesso Em: Jan. 2026.
Van De Donk, T. Et Al. Oral Cannabidiol For Osteoarthritis Pain: A Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled Trial. The Lancet Regional Health – Europe, V. 30, 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41487518/. Acesso Em: Jan. 2026.
Organização Mundial da Saúde (OMS). Osteoarthritis. Genebra: World Health Organization, s.d. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/osteoarthritis. Acesso em: jan. 2026.

(*) Sob orientação de Beltrina Côrte – Jornalista, CEO do Portal do Envelhecimento. E-mail: beltrina@portaldoenvelhecimento.com.br

Foto de Kindel Media/pexels.


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Ana Beatriz Ferraz
Ana Beatriz S. Ferraz

Ana Beatriz S. Ferraz é bacharelanda em Gerontologia pela Universidade de São Paulo. Atualmente é estagiária no Portal do Envelhecimento e Longeviver. www.linkedin.com/in/ana-beatriz-s-ferraz-a3a7a2132.

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Ana Beatriz S. Ferraz é bacharelanda em Gerontologia pela Universidade de São Paulo. Atualmente é estagiária no Portal do Envelhecimento e Longeviver. www.linkedin.com/in/ana-beatriz-s-ferraz-a3a7a2132.

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