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Conductores mayores, un peligro al volante?

Los conductores mayores de 75 años son el grupo de edad más peligroso al volante, a pesar de que popularmente se considere que los jóvenes son los que tienen mayores probabilidades de sufrir accidentes en la carretera, según un estudio de la Universidad de Zúrich.     "El primer grupo de riesgo son los mayores de 80 años. Este colectivo tiene cuatro veces más probabilidades que la media de herirse en accidentes que ellos mismos cometen, al mismo tiempo que el riesgo de perder su vida se multiplica por ocho", señala la investigación que analiza estadísticas suizas de accidentes en carretera. El texto agrega que el segundo grupo más peligroso son los conductores comprendidos entre 75 y 80 años, "que provocan más accidentes sin heridos que la media y tienen el doble de posibilidades de quedar lesionados gravemente tras un incidente que el resto de automovilistas". Los jóvenes, de entre 18 y 24 años, serían la tercera categoría según su peligrosidad en la carretera, a pesar de ser "el grupo automovilístico que tiene la reputación de representar los mayores riesgos al volante". Además, la investigación aclara que el colectivo de conductores entre los 70 y los 75 años no es aparentemente uno de los más proclives a causar accidentes, por lo que establecer a la edad de 70 años un control de aptitud para conducir "no es indispensable". Referências Acesse Aqui / Aqui  

Velhices

Stella Regina Pillar faz questão de que a grafia do seu nome esteja correta: “Por favor, com ‘s’ e dois ‘l’, é assim”, discorre sobre o momento que vive, alegrias e tristezas, a companhia de Madona, sua cachorrinha, e lamenta não poder viajar com frequência - não pela velhice, mas por dinheiro - e sentencia: “Na velhice, o que é bom é a paz e o sossego”. Julia Florez e Ruth G. da Costa Lopes   A entrevista faz parte das atividades do curso de Psicologia da PUC-SP que oferece no sexto período o Estágio Básico II, no eixo de práticas profissionais e na modalidade pedagógica de prática. Trata-se de uma atividade prática voltada para o exercício de competências e habilidades psicológicas que favoreçam a compreensão e posterior atuação do psicólogo em realidades específicas. Tem como objetivo principal identificar fenômenos psicológicos em diversas situações da realidade e identificar o conhecimento da Psicologia que permita sua compreensão e delimitação de estratégias para a atuação na realidade. Portal – Fale seus dados pessoais, por favor. Stella – Estou com 68 anos, sou solteira, e meu nome completo é Stella Regina Pilar. Anotou? Não tenho filhos, somente a minha cachorrinha, a Madona, que tem cinco anos. Eu a ganhei quando tinha um ano, o nome já tinha sido dado, aí eu o mantive. Portal - Você mora em São Paulo faz tempo? Stella - Vai fazer 14 anos. Bastante tempo, né? De repente eu parei para pensar, bastante tempo. Portal - Atualmente desenvolve alguma atividade? Stella - Dou aula de inglês. Quando precisar pode me procurar, manda as colegas. Agora só particular, dou aqui, aqui na minha casa mesmo. Portal – Formou-se na PUC? Stella – Sim, e depois fiz pós-graduação na Inglaterra. Um ano lá. Comecei o pós aqui na PUC, tinha começado aqui, ganhei uma bolsa e fui para lá. Fiquei um ano dessa vez, mas já fui outras vezes. Portal - Tinha amigos lá, família? Stella – Não. Fui ficar na faculdade. Das outras vezes sempre fazendo curso, alguma coisa assim, curso de um mês, um mês e meio. Ai ganhei a bolsa e fui praticar. Portal - Por que o inglês? Stella - Na realidade, nem sei bem por que, sempre gostei de línguas, acho que o inglês tinha mais campo, um pouco por causa de um irmão também, mas eu gostava do inglês. Já me interessava em aprender. Portal - Esse irmão fez línguas? Stella – Não, ele é economista, não tem nada a ver. Fala inglês, fala espanhol. Aí, discutindo, me disse: então faz Letras. E eu fui, mas já estava inclinada. Portal – E havia outros cursos que você estava pensando? Stella - Não... Talvez Psicologia, mas acho que Letras era mais mesmo. Pensei que fosse aprender alemão, mas o meu grupo foi o primeiro do qual eles tinham tirado o alemão, a pedido dos próprios alunos. A minha licenciatura é português e inglês. Português, inglês e latim, na realidade. Cheguei a dar aulas de latim, mas muito poucas. Portas - Continua a fazer cursos? Stella - Quando acontece, né? Curso de um mês, palestra de alguém. Antes fazia muito, agora é quando dá na telha e interessa. Portal - Onde morava antes? Stella - Em São Paulo mesmo, mas não nesta casa, morava com a família. Portal - Seus pais são de São Paulo? Stella – Eram sim. Quando fiquei sozinha na casa vim morar para cá. Quando minha mãe morreu. Enquanto morei com eles fiquei na casa que era da família. Depois vim para cá, vim procurar meu canto, fiquei lá sozinha uns dois anos ainda e depois vim para cá. Portal - Quantos irmãos você tem? Stella - Tive três, mas agora são só dois, um faleceu. Dois vivos, o mais novo faleceu. Portal - Como considera a velhice? Considera-se velha? Stella - Acho que estou entrando na faixa, mas não me considero assim, incapacitada para nada, entendeu? E tenho que tocar a minha vida sozinha, e isso não é pouco. Até pouco tempo eu tinha carro, hoje não tenho, então, tudo que faço é a pé, vou a pé para todo canto. Dei sorte que é um bairro bom. Tem tudo perto, quer dizer, não tenho ajuda, tenho que tocar tudo sozinha. Se for para ir à farmácia, banco, supermercado, médico, é tudo comigo mesmo. Mas aqui graças a Deus neste bairro... Em último caso, se precisar, chamo um táxi. Nessas alturas já me acostumei a não ter carro, mas faz falta. Portal - O que aconteceu? Stella - Roubaram o meu, aí não comprei outro. Roubaram aqui na minha porta, num domingo. Faz cinco anos que me roubaram o carro. Nessas alturas não dá mais, então vamos levando. Portal - Tem namorado? Stella - Hoje em dia nada, só amigas, mas nada além de dois minutos. Ah, é ela, chegou a minha amiga. Portal - Como vê a saúde? Stella - Saúde?! Olha, acho que estou bem, mas estou em um processo de voltar ao médico por causa talvez de uma cirurgia, mas não que esteja preocupada, graças a Deus tenho saúde. Portal – O que é bom na velhice? Stella - Paz e sossego. Na velhice acho que a gente tem que se preparar em questão de saúde, sabe? Eu me preocupo em não dar problema para os outros, apesar de me dar bem com a família. Você não quer depender de ninguém e isso preocupa. Quero conseguir morar do jeito que eu moro e levar enquanto as pernas derem, como eu digo. Tenho irmãos, mas cada um tem sua família, essas coisas. Sou próxima deles sim, mas cada um tem sua família, não posso interferir. Portal – O que sonha de diferente em sua vida? Stella - Diferente? Meu problema é financeiro. Ter um dinheirinho a mais para dar um jeitinho aqui na casa. E de repente, viajei muito já, poder fazer uma viagenzinha de vez em quando. Algumas vezes fui como bolsista, e muitas outras por minha conta. Portal - Viajava sozinha? Stella - Em geral com uma amiga, tinha uma amiga que eu viajava muito com ela. Ou se estava indo por outra razão, cursos, essas coisas, aproveitava para fazer um turismo. Já viajei com gente que conheci durante o curso e fui viajar, foi muito bom... Mas essas coisas já passaram, quer dizer, gostaria muito de poder viajar, mas há um problema financeiro, não é um problema de saúde, nem de velhice, nem de nada disso. Portal - Além da aula de inglês, faz alguma outra atividade? Stella - Hoje em dia não, fazia na igreja uns voluntariados, mas era aula também, aula de português. Mas acabou o grupo. Portal - Como sua família vê essas atividades? Stella - Acha ótimo, não tem nada a dizer, fui profissional, sou. Desde que resolvi que era línguas, o natural é que eu chegasse onde cheguei. Fui diretora da Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa, mas em Campinas. Portal – Você me ajuda a dar um título para a entrevista? Stella – Um título? Estamos conversando sobre velhice, não? Então, poderia ser esse mesmo o título, o que acha?

Em Portugal, 400 mil idosos vivem sozinhos

Em Portugal, há 400 mil idosos que vivem sozinhos – revela o Instituto Nacional de Estatística (INE). Os resultados do último Census, de 2011, indicam que há 2,023 milhões de pessoas com mais de 65 anos a residir em Portugal (ou seja, cerca de 19% da população total). Destas, cerca de 60% vive só: 400.964. E se tivermos em conta que há ainda 804.577 idosos que vivem em companhia de outras pessoas igualmente idosas, o resultado global – um milhão e 200 mil idosos – é que 19% da população vive nestas condições. Joana Ferreira da Costa (*)   Em termos globais, salienta ainda o INE, o total de idosos que vivem sozinhos ou na companhia de outros aumentou 28% nos últimos dez anos. «O aumento da esperança média de vida, a desertificação e a transformação do papel da família nas sociedades modernas terão, certamente, contribuído para explicar as mudanças observadas e as diferenças que se verificam entre as regiões» -- salienta o INE Os anúncios sucedem-se na internet, numa tentativa de encontrarem quem com eles converse ou os possa ajudar se tiverem um problema de saúde sem que para isso tenham de pagar um serviço. Muitos são incentivados pelos filhos e, em troca de companhia, oferecem um quarto gratuito. Num Portugal cada vez mais envelhecido (há 129 idosos para cada 100 jovens), quase um quarto das pessoas na terceira idade vivem completamente sós. Um problema que se agudiza nas grandes cidades onde as redes de apoio familiar e de vizinhança são mais frágeis. As recentes notícias espelham esta realidade: quase 2.900 idosos foram encontrados mortos em casa em 2011, a maioria em Lisboa, revelou a PSP. E apenas no primeiro mês do ano, outros 20 já foram descobertos sem vida, dias ou mesmo semanas depois de terem morrido. O alerta às autoridades foi quase sempre feito por vizinhos. E chegou tarde demais. «A solidão é um problema. Somos uma sociedade egoísta e não há respostas na comunidade que sejam alternativa aos lares», lamenta Carlos, que tentou através de um anúncio encontrar uma companhia para a mãe, hoje com 94 anos. Mesmo cedendo um quarto em casa em troca de companhia durante a noite e fins-de-semana, nenhuma das dezenas de pessoas que respondeu ao seu anúncio «preenchia minimamente os requisitos», admite. «Queriam o quarto de graça, não estavam empregados e não me inspiraram confiança». Acabou por desistir. A mãe vive hoje num lar. Para Leonor a resposta ao anúncio parece também ser a única solução. Aos 67 anos e viúva há 13, a mãe recusa-se «a ir para um lar porque ainda é muito nova». Isolou-se dos amigos e passa os dias a telefonar à filha por não ter ninguém com quem falar. «Liga-me três, quatro vezes por dia para o emprego e os telefonemas chegam a demorar uma hora. Está muito sozinha». Para Leonor o apoio constante à mãe está a tornar-se pesado. «A solidão tornou-a mais amarga. Às vezes é agressiva. E eu deixei de ter vida própria: não fui uma única vez à praia no Verão». Há um mês colocou um anúncio na internet oferecendo um quarto em troca de alguma companhia. «Tenho preferência por pessoas entre os 30 e os 60 anos. Porque assim será mais fácil elas terem o que conversar». Já teve duas respostas. Programa pioneiro Há cerca de oito anos que esta troca de apoios começou a ser incentivada no Porto. Ao abrigo do Programa Aconchego, 166 idosos e estudantes passaram a morar juntos. Os rapazes e raparigas são acolhidos em casa de uma pessoa de idade que viva na cidade, contribuindo apenas com uns simbólicos 25 euros para ajudar nos gastos com água e electricidade. Em troca, fazem-lhe companhia e comprometem-se a ajudá-lo em caso de emergência. «Já houve estudantes que salvaram o sénior com quem viviam, por o terem levado ao hospital», explica Daniel Teixeira Coelho, director de projectos da Fundação Porto Social (da autarquia), que em parceria com a Federação Académica do Porto, criou o projecto. «O segredo é ter duas pessoas com um problema diferente que encontram uma solução recíproca. Todos têm a ganhar». Neste momento há 24 idosos que abriram as suas portas a estudantes. Há até casos de idosos que têm a morar consigo não um mas dois estudantes este ano lectivo. A selecção dos candidatos é feita com base em entrevistas individuais e familiares e com visitas a casa dos idosos. Os contratos são feitos por um ano lectivo mas podem prolongar-se. Para o sociólogo Villaverde Cabral anúncios ou projectos como estes podem ser uma solução pontual para quem vive sozinho e sem apoios, mas não resolvem o problema de fundo. «A descoberta de idosos mortos em casa é uma manifestação perversa do envelhecimento da população portuguesa, para o qual falta uma política integrada», defende o director do Instituto do Envelhecimento. «Deve ser criada uma Secretaria de Estado dedicada à terceira idade, que defina uma política e objectivos e os articule no terreno, aproveitando entidades já existentes», remata. (*)Texto publicado no SOL e reprodução autorizada pela autora, Joana Ferreira da Costa, e-mail: [email protected]. Disponível Aqui  

Novo envelhecimento

O envelhecimento e a urbanização são tendências demográficas importantes no século 21. A população urbana, que já corresponde à metade da humanidade, dobrará até 2050, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Por outro lado, se hoje existem cerca de 600 milhões de pessoas com mais de 60 anos, em 2050 a população nessa faixa etária será de quase 2 bilhões. A consequência disso é que a sociedade precisará repensar o lugar dos idosos nas cidades e implantar uma nova cultura do envelhecimento. Essa é uma das principais conclusões dos especialistas que participaram, no dia 29 de março, em São Paulo, da mesa-redonda "Aspectos urbanos e habitacionais em uma sociedade que envelhece". Fábio de Castro O evento integrou a programação do ciclo "Idosos no Brasil: Estado da Arte e Desafios", promovido pelo Institutos de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP), pelo Grupo Mais-Hospital Premier e pela Oboré Projetos Especiais de Comunicação e Artes. Coordenada por David Braga Jr., do Grupo Modelo de Atenção Integral à Saúde (Mais), a mesa-redonda – a terceira do ciclo – teve a participação de Alexandre Kalache, da Academia de Medicina de Nova York (Estados Unidos), e de Guita Grin Debert, professora do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). De acordo com Kalache, carioca que dirigiu por 13 anos o Programa Global de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS), os dados da ONU mostram que a população mundial crescerá cerca de 50% (para 9 bilhões) até 2050. No mesmo período, a população acima de 60 anos terá aumentado 350%, sendo que a maior parte desse aumento ocorrerá nos países em desenvolvimento, cada vez mais urbanizados. Essa perspectiva de futuro, segundo ele, deverá ser compreendida pela sociedade, que precisará desenvolver com urgência uma “cultura do envelhecimento” – o que inclui mudanças nas cidades e no comportamento ao longo da vida. “ É importante destacar que 2050 não é uma data distante. Os idosos de quem estamos falando são as pessoas que hoje já são adultas, que podem ter 20 ou 40 anos. Por isso, é fundamental personalizar a mensagem”, disse à Agência FAPESP. Com os avanços da medicina e da própria sociedade urbana, a parcela da vida que um indivíduo passa na condição de idoso será cada vez maior, apontou o especialista. Com essa tendência, já ocorre uma mudança de paradigmas em relação ao que significa envelhecer. “A ideia da vovó fazendo tricô e do vovô de pijama, lendo jornal, é um estereótipo do envelhecimento que não nos serve mais”, disse. Segundo Kalache, quando o prussiano Otto Von Bismarck implementou pela primeira vez a aposentadoria, no século 19, a expectativa de vida na Alemanha era de 45 anos e os idosos tinham muito menos acesso à saúde. Se continuassem trabalhando, teriam produtividade baixíssima e criariam muitas dificuldades no ambiente de trabalho. “Era plausível dar um dinheirinho para que o idoso ficasse em casa pelos poucos anos que lhe restavam. É óbvio que isso não pode dar certo nas condições atuais, muito menos nas condições que teremos até 2050. É preciso que os jovens reinventem seu planejamento de vida”, afirmou. No modelo convencional, a primeira etapa da vida era dedicada ao aprendizado, enquanto a segunda etapa era voltada para a produção e a aplicação do aprendizado no trabalho. A etapa final seria dedicada ao descanso e ao ócio. “Não podemos mais pensar assim. A expectativa de vida é cada vez mais longa e as pessoas serão idosas por um período cada vez maior de suas vidas. Elas terão condições de produzir até uma idade bem mais avançada. Por outro lado, a pessoa não pode mais parar de adquirir conhecimento aos 25 anos de idade, pois o aprendizado fica obsoleto cada vez mais cedo”, disse. Se a produção e o trabalho serão uma realidade cada vez mais presente na velhice, em contrapartida a aquisição de conhecimento não poderá mais ficar confinada apenas às primeiras décadas. “É do interesse da sociedade que a pessoa mantenha o aprendizado e que produza ao longo de toda a vida. As pessoas terão oportunidades – que a sociedade vai precisar oferecer – para se reciclar, estudar e se reavaliar”, afirmou. De acordo com Kalache, a capacidade funcional dos indivíduos será preservada, cada vez mais, para além dos 65 anos. Com isso, espera-se que a aposentadoria compulsória possa ser revista. “Isso é saudável, porque o passado idealizado do idílio do pijama e do tricô é algo que talvez nunca tenha existido. Na maior parte dos casos, sob esse estereótipo se escondia um idoso sem autonomia, sofrendo abusos e deprimido”, disse. O envelhecimento e a urbanização, segundo Kalache, são as duas principais tendências demográficas do século 21. O Brasil, segundo ele, é um modelo adequado para se observar essa realidade. “ Somos um país emergente já urbanizado, que envelhecerá mais do que qualquer outro. Mas temos que fazer nossa própria discussão sobre o envelhecimento. Os modelos do Japão, da Dinamarca ou da França não nos interessam. Esses países enriqueceram primeiro, depois envelheceram. Não teremos essa oportunidade. Se imitarmos esses modelos, vamos apenas perpetuar a desigualdade”, disse. No Brasil, segundo Kalache, a população de mais de 60 anos passou de 8% para 12% nos últimos 30 anos. Na França, foram necessários 115 anos para que a proporção de idosos passasse de 7% para 14%. “ Por outro lado, a concentração urbana também foi vertiginosa no Brasil. Um terço da população vivia em cidades em 1945 e hoje essa proporção passou para 87%. Vamos precisar mudar a realidade do idoso no contexto urbano – e para isso é fundamental ouvi-lo e fazê-lo contar como é a experiência de ser idoso na cidade”, afirmou. Kalache foi responsável pela publicação, em 2007, do Guia da OMS das Cidades Amigas dos Idosos, produzido com base em pesquisas em 35 cidades em todo o mundo, fundamentadas em entrevistas com grupos focais de idosos durante seis meses. Uma das experiências do programa foi feita no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde Kalache nasceu. Em 33 anos na Europa, o pesquisador fundou o Departamento de Epidemiologia do Envelhecimento da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, no Reino Unido. Hoje, trabalha na criação de um Centro Internacional de Políticas para o Envelhecimento. Questão pública Guita Debert, que integra a coordenação da área de Ciências Humanas e Sociais da FAPESP e coordena o Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp, destacou que trabalhar com a velhice representa um enorme desafio, já que a questão passou por muitas modificações recentes. Um dos principais panos de fundo dessa mudança é que a velhice, que historicamente dizia respeito à esfera privada, vem se tornando cada vez mais uma questão pública. “A velhice passou a fazer parte da geografia social, por assim dizer. À medida que a gerontologia se consolidou como saber específico, criado para identificar necessidades do idoso, ela se tornou um ator político e também um agente do mercado de consumo”, afirmou. Inicialmente focada na ideia do idoso como um indivíduo que perde os papéis que tem na sociedade, a gerontologia passou a mudar seu enfoque a partir da década de 1980. “ Em vez de um momento de perdas, a velhice passou a ser considerada um momento de lazer, de novas experiências e projetos. A velhice foi deixando de ter o sentido de uma perda do papel na sociedade e se tornou o momento de direito ao não-trabalho, na qual o lazer se torna central.” Segundo Guita, o Brasil adquiriu know-how e sofisticação nas opções de lazer e atividades para os idosos. Mas isso se limita aos “jovens idosos”, isto é, aquela parcela que preserva sua autonomia funcional. “Há um grande contraste. Para os idosos que têm a autonomia funcional comprometida, estamos em estágio precário, não oferecemos nada”, afirmou. Para integrar o idoso à cidade, segundo a pesquisadora, não basta levar em conta apenas a diversidade de poder aquisitivo, raça e local de moradia, entre outros fatores. É necessário também pensar nas diferenças de autonomia e capacidade. “É preciso avaliar sobretudo as diferenças de custos de políticas públicas para os idosos ‘jovens’ e para os outros. É hipocrisia dizer que existe uma política para idosos, se ela só está beneficiando justamente a parcela que tem menos dificuldades. São boas iniciativas, mas têm foco apenas em uma parcela privilegiada dos idosos”, disse. A antropóloga destacou também que as mudanças ocorridas no espaço urbano recentemente podem permitir um aprimoramento da autonomia do idoso. “Devemos fugir da confusão entre morar só e estar submetido à solidão. Principalmente porque hoje é possível operar com a ideia da intimidade a distância, viabilizada pelos meios de comunicação, sobretudo eletrônicos. E isso pode ocorrer até mesmo fora das relações familiares.” Segundo ela, a gerontologia ainda valoriza profundamente a ideia de manter o idoso junto à família, fechado no universo privado. “É importante rever essa ideia, quando pensamos na cidade que acolhe o idoso”, afirmou. Estudos realizados em ciências sociais, em especial na antropologia, mostram que se tinha pouca informação sobre a vida do idoso há 100 ou 200 anos, segundo Guita. Ainda assim, é provável, segundo ela, que a vida no seio da família tenha sido a preferência do idoso apenas quando ele não tinha a opção de ser autônomo. A antropóloga sugeriu também que seja repensada a oposição entre integração e segregação. Segundo ela, os trabalhos sobre envelhecimento não confirmam a ideia de que a integração com sociedade multigeracional garante o bem-estar do idoso. “Muitas vezes, nos ambientes onde todos são idosos, a velhice deixa de ser uma marca identitária e a satisfação passa a ser maior. Há uma busca de independência e de estar entre os iguais, de forma similar aos adolescentes. É importante não ter uma visão binária de segregação e integração”, afirmou. A preservação da vida na comunidade é outra ideia predominante no senso comum, segundo Guita. Para preservar a qualidade de vida do idoso, nessa concepção, o indivíduo deveria permanecer sempre na mesma casa, ou bairro. “Mas isso nem sempre é verdade, porque a dinâmica urbana é muito intensa. Os bairros podem passar por rápidos processos de degradação. Ou podem passar por um súbito enriquecimento, fazendo com que os antigos moradores desapareçam. Nesses casos, as perdas da coletividade estão muito presentes. A ideia de que a comunidade é sempre boa e deve permanecer deve ser revista”, disse. A pesquisadora destacou também a importância de se dar voz aos idosos. “Essa já é uma ideia muito presente, mas é preciso valorizar a pluralidade de vozes. Não se pode ouvir representantes, mas os protagonistas, em toda sua diversidade. É preciso que haja vozes dissonantes”, disse. Guita criticou ainda as políticas públicas brasileiras em relação ao novo papel assumido pela família quanto à responsabilidade pelo idoso. “Há uma hipocrisia nas políticas de distribuição de renda que têm enfoque familiar. Elas concentram as responsabilidades na família e, em especial nas mulheres, que acabam assumindo essas obrigações”, afirmou. Fonte: Agência Fapesp/EcoAgência , 13/04/11 – Por Fábio de Castro. Disponível Aqui

Malvadezas

Houve um tempo em que um dos meus esportes prediletos era procurar nas publicações – revistas, jornais etc – qualquer descuido do jornalista ou do redator ou de algum entrevistado que falasse algo que me soasse falso ou erro grosseiro. Mandava ver. Pena não ter guardado todas as broncas que enviei para as redações. Hoje, teria farto material para mais de uma crônica. Vamos ver o que guardei. Waldir Bíscaro *   Em 2002 e 2003, quando tentava esclarecer a confusão que alguns profissionais de RH criavam a respeito de certas práticas da psicologia aplicada em organizações, como “coaching”, “counseling” e “mentoring”, eu ficava possesso ao ler certas entrevistas ou artigos em que o profissional, ao tentar vender seu peixe, exibia ignorância e pretensão. Foi o que encontrei em entrevista dada à revista de “T & D”, por uma psicóloga que assim dizia: “Counseling” é uma espécie de “coaching” individualizado...” Então escrevi: A entrevistada ouviu cantar o galo, mas não sabe onde... É que a prática do “counseling” consagrada por Carl Rogers existia nas empresas desde os anos quarenta, bem antes da chegada do “coaching” que também é individualizado e mais orientado para o desempenho profissional. Mais adiante a entrevistada nos presenteia com outra bola fora: “O “mentoring” é mais voltado para as questões de ordem mental, como é a origem do nome, “mentes”... Nesta, a moça caprichou, errou no latim, na origem do nome e na conceituação do termo. No latim, ela deveria falar “mentem” - acusativo singular - e não “mentes”. O nome “mentoring” vem de um nome próprio grego: Mentor, personagem da Odisséia. Ulisses, quando partiu para Tróia, confiou a Mentor a educação de seu filho Telêmaco. Com isso o vocábulo Mentor se tornou sinônimo de tutor, preceptor, nada a ver com “mentes”. E o mentoring tornou-se uma prática em que profissionais mais experimentados e selecionados se encarregam de apoiar e orientar os mais jovens, em começo de carreira. Essa área me inspirou muitas broncas. A que vem a seguir, eu não havia guardado comigo, mas graças à internet e ao bom humor do jornalista “abalroado”, apareceu na página do “Observatório da Imprensa” do Google, assinado pelo jornalista Moacyr Jupiassu: Errei, sim. “Farça Curtura” – O leitor Waldir Bíscaro, - RG:....., de São Paulo, envia coluna da revista Veja na qual estava assinalado o seguinte trecho: “ (...) E o que é um Menem? Um palimpsesto político, palavra que se pode ler da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, porque não faz diferença”. “Ah!, essa farça curtura” comenta o malvado Bíscaro. É que a tal palavra que se lê de qualquer jeito é: palíndromo”. E o jornalista continua: E que diacho é palimpsesto? Entre outras acepções, trata-se de uma espécie de pergaminho”. (fev 1994) Bem que o jornalista poderia ter sido mais preciso a respeito de “palimpsesto” que não é exatamente uma espécie de pergaminho e, sim, um pergaminho em que originalmente havia sido escrito, por exemplo, um poema de Homero e que, mais tarde, alguém, por ignorância ou necessidade, teria raspado as letras originais para escrever por cima números ou qualquer anotação. Graças à paciência dos monges beneditinos, muitos documentos de valor foram resgatados removendo-se inscrições sem interesse literário ou histórico e descobrindo o texto original impregnado no couro de carneiro. Paciência beneditina! A respeito desse episódio, o jornalista não contou o principal. É que não escrevi para a Veja, para exibir cultura inútil, na realidade eu havia feito uma crítica ao jornalista por causa de um comentário dele sobre Lula - que não me agradou – então aproveitei para dar-lhe uma chumbada por conta do “palimpsesto”. *Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: [email protected]