Saajan nos deixa diante de duas perguntas: quais conservas culturais atravessam o nosso modo de envelhecer? E o que nos impede de assumir um novo papel?
Você já parou para pensar quem decide com quem vamos conviver? Entre as obras de Jacob Levy Moreno, criador do psicodrama, há um livro cujo título já é uma provocação: Quem sobreviverá?
A pergunta nos leva a uma ideia central: ninguém existe isolado. Entre as pessoas circula a tele, um fenômeno de mão dupla, em que eu escolho e também sou escolhido. É assim que cada um de nós vai tecendo seu átomo social, a rede de relacionamentos com quem de fato convivemos.
Mas veja: ao nascer, não chegamos a um mundo em branco. Encontramos tudo pronto, com criações, produtos, códigos sociais, jeitos de fazer e de se comportar. Moreno chamou esse legado de conservas culturais. Então surge a pergunta: se o mundo já vem pronto, resta a nós apenas repeti-lo?
Para Moreno, não. Segundo ele, nascemos com o fator E, a espontaneidade, o potencial que nos permite criar respostas novas para situações inéditas, ou dar respostas renovadas a situações que já conhecemos. Mas atenção: ser espontâneo, portanto, não é simplesmente dizer ou fazer aquilo que se pensa ou sente, pois isso pode se aproximar do espontaneísmo.
É aqui que ele nos faz um convite: uma revolução criadora. Recuperar a nossa capacidade de transformar a realidade e encontrar outras formas de viver. Isso não significa jogar fora as conservas culturais, que têm sua importância, mas usá-las como ponto de partida para criar novas conservas.
E como dar esse passo na prática? Na perspectiva moreniana, a espontaneidade e a criatividade são fundamentais nesse processo. Uma das possibilidades de exercitá-las está nos papéis sociais que desempenhamos ao longo da vida. Por meio do role play, podemos experimentar diferentes maneiras de atuar, passando pela imitação, pela prática e, por fim, pela criação dentro do papel.
Voltemos, então, à pergunta de Moreno: quem sobreviverá? Ou, de outro modo: como sobreviver quando as conservas culturais passam a organizar a nossa vida? Quando os papéis vão se reduzindo, os vínculos se estreitam e a espontaneidade encontra cada vez menos espaço?
No envelhecer, essa questão ganha contornos próprios. As conservas culturais, presentes nos valores, nas crenças e nas expectativas socialmente construídas, ajudam a compor um imaginário social que traça fronteiras para aquilo que parece permitido nessa etapa da vida: sonhar, amar e recomeçar. Muitas vezes, essas fronteiras são tão incorporadas que, antes mesmo de alguém dizer “não”, já aprendemos a nos dizer isso sozinhos.
Para refletir sobre essas perguntas, recorro à ficção, que nos permite reconhecer experiências do cotidiano mesmo em histórias inventadas. Apresento, então, recortes do filme indiano A Lancheira (The Lunchbox, Dabba, 2013), com foco no personagem Saajan Fernandes.
Acompanhando a trajetória de Saajan, busco entender como as conservas culturais atravessam o envelhecer e de que maneira a espontaneidade pode favorecer novas respostas. Para isso, o percurso se organiza em cinco cenas: a do átomo social reduzido, a fundante, a do ato espontâneo, a do reconhecimento do envelhecer e a da travessia.

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Cena 1: o átomo social reduzido
Saajan tem 58 anos, é viúvo e trabalha há 35 anos na mesma empresa. É conhecido por ser fechado e solitário. Sua vida cabe numa rotina: o trem lotado, a rigidez no trabalho, o silêncio em casa e as visitas ao túmulo da falecida esposa.
As conservas culturais, aqui presentes, podem limitar a ação criativa quando a existência se resume à repetição de formas já estabelecidas.
Podemos enxergar isso pelo átomo social. No caso de Saajan, essa rede está reduzida. O papel profissional se apresenta rudimentar na dimensão relacional, pois não se vincula. A questão, portanto, não é quantas pessoas há em sua rede, mas que tipo de vínculo ele consegue construir.
Há ainda o papel de marido. Desativado, permanece na memória como um vínculo residual da relação interrompida pela morte da esposa. Diante de uma perda tão significativa, é natural que exista um recolhimento, um isolamento. O desafio está em não se fixar nesse lugar.
Além disso, a aposentadoria se aproxima. No envelhecimento, alguns papéis deixam de ser exercidos ou se transformam, e outros podem ser desenvolvidos, mas isso não acontece automaticamente. Na trajetória de Saajan, a espontaneidade encontra pouco espaço para se manifestar. É justamente aí que ela pode favorecer respostas novas diante dessas mudanças, ampliando suas possibilidades de ação e de encontro.
Às vezes, porém, o inesperado interrompe o curso habitual da vida.
Cena 2: a cena fundante
Num dia como outro qualquer, depois de viajar em pé no trem lotado, Saajan trabalha sem piscar quando lhe apresentam Shaikh, o substituto que deverá treinar. Sem entusiasmo, pede ao rapaz que volte no fim da tarde e avisa que vai almoçar.
Como sempre, sozinho abre a marmita e percebe algo diferente: o sabor não é o da comida que costumava receber do restaurante. No dia seguinte, o prato chega com outro tempero e um bilhete explica que o dabbawala, responsável pela entrega, errou o destino e trocou sua refeição.
É assim que Ila, a mulher que preparou aquele almoço, entra em sua vida. Na carta, ela conta que cozinhava para o marido, convencida de que o caminho para o coração passava pelo estômago, na esperança de recuperar o casamento.
Diante do bilhete, Saajan se vê numa situação nova. Aos poucos, ele se permite essa comunicação e rompe com a rotina que, até então, funcionava como conserva cultural.
A marmita e as cartas funcionam como objetos intermediários, conceito de Jaime G. Rojas-Bermúdez para objetos que mediam a comunicação e flexibilizam o campo do si mesmo, suavizando a tensão do contato direto.
A troca de cartas se intensifica e as conversas ganham novos sentidos. Ele revisita o que lhe dava prazer, volta a ouvir músicas, retoma programas de televisão de que gostava. Ao se aproximar de Ila, reaproxima-se de si mesmo. Nessa troca, ainda sem rosto nem voz, a tele se faz presente: um reconhecimento mútuo que une os dois e sustenta o vínculo antes mesmo do encontro.
A transformação alcança outras relações. Se antes se recusava a treinar o novo funcionário, agora Saajan permite que Shaikh se aproxime, se sente à mesma mesa, compartilhe o almoço, e volte junto no mesmo trem. Há aqui uma escolha mútua: Shaikh escolhe Saajan, e Saajan se permite ser escolhido e assumir o papel de amigo.
O vínculo é tão significativo que Saajan vai ao casamento do amigo e representa parte de sua família, já que Shaikh é órfão. Ali, ele percebe o outro: reconhece a falta que Shaikh carrega e se coloca no lugar de quem precisava ser acompanhado naquele dia.
Assim, o átomo social vai sendo reconstruído. Saajan passa a desempenhar novos papéis, como também o de vizinho: a bola das crianças diante do portão, antes sentida como invasão de seu território, passa a ser tolerada e, mais do que isso, acolhida.A renovação do átomo social mostra como novos vínculos são possíveis na velhice, e há uma diferença decisiva: agora os papéis de Saajan têm afeto. É isso que abre espaço para a criatividade e a vitalidade nessa fase.

Cena 3: o ato espontâneo
Em uma das cartas, Ila revela que seu casamento já não tem recuperação e ela segue solitária, invisível dentro da própria casa. É nesse contexto que compartilha o desejo de ir para o Butão, lugar que imagina como um destino feliz.
Saajan se inclui nesse sonho e pergunta: “E se eu fosse com você?”. Ila lembra que eles ainda não se conhecem pessoalmente. A relação começa, assim, a ultrapassar os limites dos bilhetes e da marmita: o contato, até então sustentado pelo objeto intermediário, passa a apontar para um encontro direto.
A pergunta de Saajan é uma resposta inédita. Reconhecemos aqui um ato espontâneo. Ao entrar no sonho dela, Saajan expressa também um desejo próprio, que até então não tinha lugar em sua vida.
Há ainda um detalhe importante: esse ato acontece no aqui e agora, no que Moreno chamou de filosofia do momento. É na presença plena de Saajan, inteiro naquele instante da troca, que a espontaneidade é resgatada.
Ainda no plano do pensamento, ele ensaia uma posição diferente daquela que ocupou por tantos anos. Esse papel, o de namorado, já estava com ele de forma imaginária: ao falar de Ila para o amigo Shaikh, ele a chamou de namorada.
Resta saber o que acontece quando essa possibilidade deixa o plano da imaginação e encontra o corpo, a idade e o olhar do outro.

Cena 4: o reconhecimento do envelhecer
Depois de ir ao restaurante, ver Ila jovem e recuar sem se apresentar, Saajan escreve a ela:
“A marmita estava vazia. Eu mereço. Ontem esqueci um negócio no banheiro e, quando voltei, senti o cheiro do meu avô, mas não era ele. Era o cheiro de um velho. Não sei quando envelheci. Talvez naquela manhã, talvez muitas manhãs. Se eu tivesse esquecido alguma coisa ali antes, teria descoberto. A vida continuou e me embalou com seus movimentos. Eu ia para frente e para trás, ela me jogava para a esquerda e para a direita e, de repente… Ninguém compra o bilhete da loteria de ontem. Fui até o restaurante. Você estava linda, jovem. Pode sonhar. Por um minuto, você me inclinou nos teus sonhos. Agradeço por isso.”
Vamos congelar a cena e perguntar: o que esse cheiro revela sobre o que Saajan já carrega dentro de si?
Ele recorre à imagem do avô e reconhece “o cheiro de um velho” antes de reconhecer o próprio envelhecimento. O processo já estava em curso, mas passou despercebido enquanto a rotina o conduzia de um dia para o outro.
A cena nos mostra que a velhice não é só um dado do corpo, é também uma construção social. Saajan parece ter internalizado o que o coletivo diz sobre ser velho: que não se deve mais sonhar e nem amar. Os estereótipos associados à idade podem funcionar como obstáculos à espontaneidade, restringindo as possibilidades que a própria pessoa reconhece para si. Diante de Ila, essa imagem interfere na possibilidade de se apresentar e descobrir o que poderia nascer do encontro.
Essa leitura se aproxima do conceito de etarismo, que compreende estereótipos, preconceitos e discriminações relacionados à idade, inclusive quando incorporados pela própria pessoa. Em Saajan, essa internalização limita a espontaneidade e dificulta uma resposta diferente diante da possibilidade amorosa.
Aqui está o desafio que o texto vem desenhando desde o início. Ficar preso à conserva é permanecer na opressão, aceitando como destino os limites que o imaginário social impõe à velhice. Romper com ela exige espontaneidade, e é a espontaneidade que remove as tensões e os conflitos. Saajan ainda não rompe, mas já reconhece o que o prende.
Cena 5: a travessia
Depois de se aposentar, Saajan parte para outra cidade, seguindo o caminho que havia planejado para sua vida. Mas algo mudou. Ele retorna com a esperança de que “o trem errado possa, dessa vez, levá-lo à estação certa”.
E ele já não ocupa o mesmo lugar de antes. A experiência com Ila despertou o contato com sua espontaneidade e com a possibilidade de responder de outro modo à própria vida. A cena revela o que Moreno chama de fome de atos: a busca por novas experiências e pela transformação de si.
Transformar a própria realidade passa, então, pela abertura a novas relações e pela experimentação de outros modos de desempenhar os papéis sociais.
Considerações finais
Saajan nos deixa diante de duas perguntas: quais conservas culturais atravessam o nosso modo de envelhecer? E o que nos impede de assumir um novo papel?
Quando um papel se cristaliza, a espontaneidade pode abrir caminho para outras formas de existência. Talvez seja nesse ponto que a pergunta de Moreno continue ecoando: quem sobreviverá?
Referências
MORENO, Jacob Levy. Quem sobreviverá? Fundamentos da sociometria, da psicoterapia de grupo e do sociodrama. São Paulo: Daimon Centro de Estudos do Relacionamento, 2008.
ROJAS-BERMÚDEZ, Jaime G. Introdução ao psicodrama. São Paulo: Ágora, 1a. Edição 2016.
THE LUNCHBOX. Direção: Ritesh Batra. Índia: Imovision, 2013. 1 filme (104 min).
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Global report on ageism. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 2021. Disponível em: https://cdn.who.int/media/docs/default-source/2021-dha-docs/9789240016866-eng.pdf. Acesso em: 7 out. 2026.
Fotos: Divulgação
