Em minha atuação como psicóloga e psicoterapeuta familiar, cada vez mais atendo pessoas que trazem como pauta as demências, especialmente o Alzheimer.
Cláudia Fátima da Costa Magalhães (*)
Neste mês de conscientização sobre saúde mental, trago uma reflexão que evoca alguns lugares que me tocam quando penso na temática do Alzheimer. Em minha atuação como psicóloga e psicoterapeuta familiar, cada vez mais atendo pessoas que trazem como pauta a temática do envelhecimento e suas nuances, entre as quais: as demências. E aí entra o Alzheimer, que também passou a fazer parte da minha vida familiar há algum tempo, ampliando meu olhar para outros ângulos.
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Nestas reflexões me pego pensando: O Alzheimer rouba a pessoa da vida ou rouba a vida da pessoa?
É uma transformação gradativa, intensa e chocante que assola a vida da pessoa acometida pela demência e de toda sua família. Experiência que ninguém desejaria viver. E, para a pessoa alvo da demência, via de regra, não lhe cabe escolhas sobre seu porvir. Cabe abrir-se, mesmo sem saber, a uma vastidão de renúncias do se foi um dia… nos dias, na vida.
Cabe adentrar no angustiante e vertiginoso apagamento de lembranças, habilidades e controle, e deixar-se de ser aos poucos, para vir a ser ainda em vida, um outro desconhecido de si e dos que o conhecem.
A pessoa com Alzheimer, vivente nesta outra versão de si, segue ensinando aos que estão próximos e à vida. Estranho pensar nos possíveis ensinamentos que se revelam naquilo que o desaprender se impõe!
Como deve ser para alguém que geriu por longos anos a própria existência e deu suporte para a vida de muitos, ver-se perante a aceitação e a entrega ao se deixar ser cuidado em inúmeros aspectos?
Um exercício de renúncias e confiança, pouco ou nada consciente, mas vivido e sentido neste novo cenário que vai revelando outros de nós, da pessoa e dos que com ela convivem. E, que nos mostra que a dignidade pode estar não somente naquilo que se foi um dia, mas, que segue ali, na força resiliente do caminhar.
Nada romantizado, nem idealizado. Um sofrimento real e pungente que toma conta de todos envolvidos e faz parte deste aprendizado: o deixar-se ao aberto de si para o viver, continuando a ser neste fluir da vida, que aos poucos vai apagando um “jeito de estar”, porém, que ainda se é Vida!
Não, a doença não consegue roubar a poesia da vida que se inscreve nas histórias que cada um carrega e se constrói continuamente nos sulcos do viver e da alma. A história segue seu curso, ainda viva, mesmo estando a pessoa roubada de si, e segue no enquanto e no após o percurso. História e estórias continuam com aprendizados e ensinamentos.
Afinal, todos nós estamos a enfrentar em diferentes graus, o insondável do desconhecido que os desígnios da vida guardam, e que traz ao viver o reconhecimento do agora como nosso maior presente!
Sabemos que é da natureza humana viver em contextos de conexão, vínculos e interdependência. E o quanto os afetos e sentimentos permanecem vivos em cada ser, podendo pulsar em sua potência transformadora, trazendo forças e confiança de que existem coisas especiais que o Alzheimer e nenhuma doença podem apagar. A experiência do viver, de amar e aquilo que se deixa no coração das pessoas, são algumas delas!
(*) Cláudia Fátima da Costa Magalhães – Psicóloga, com especialização em Terapia Familiar e de Casal pela PUC/SP e em Psicossomática pela FACIS-IBEHE. Há mais de 30 anos na área clínica como psicoterapeuta individual, de casal e de família, e com orientação profissional para jovens. Integrante do Grupo Singularidades. Estuda sobre o envelhecimento e participou do curso “O envelhecimento na perspectiva da Gerontologia Social”, ministrado pelo Espaço Longeviver/Portal do Envelhecimento em 2024. E-mail: claudia.fcmagalhaes@gmail.com. Instagram: @claudiafcmagalhaes
Foto de Kampus Production/Pexels
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