Mapeamento 2026 mostra pessoas 60+ não apenas como público, mas como parte ativa da transformação da longevidade no Brasil

Mapeamento 2026 mostra pessoas 60+ não apenas como público, mas como parte ativa da transformação da longevidade no Brasil

Mapeamento do Ecossistema de Inovação Social em Longevidade 2026 revela um ecossistema em que pessoas idosas atuam como colaboradoras, voluntárias e agentes de transformação.


Por Marília Duque (*)

O Brasil está vivendo mais, mas uma das mudanças necessárias para responder à longevidade é reconhecer que pessoas mais velhas não são apenas destinatárias de políticas, serviços e iniciativas. Elas também trabalham, cuidam, aprendem, ensinam, participam, lideram e transformam seus territórios. Esse deslocamento aparece entre os resultados do Mapeamento do Ecossistema de Inovação Social em Longevidade 2026, realizado pelo Lab Nova Longevidade e Ashoka, com apoio do Instituto Beja, RD Saúde e Itaú Viver Mais.

O levantamento reuniu 296 organizações e iniciativas e foi concebido não apenas como um retrato do campo, mas como uma infraestrutura de inteligência coletiva: torna atores e soluções mais visíveis e encontráveis, produz conhecimento sobre o ecossistema, oferece diagnósticos de inovação apoiados por Inteligência Artificial e recomenda conexões entre organizações. 

Pessoas 60+ também contribuem nas organizações

Um dos resultados ajuda a tensionar a forma como a longevidade costuma ser abordada. 90,88% das organizações mapeadas têm pessoas 60+ como público beneficiado, mas 76,01% também contam com pessoas dessa faixa etária como colaboradoras, funcionárias ou voluntárias. Entre as organizações, 54,39% contam com voluntários 60+. Além disso, 41,55% identificam o Protagonismo 60+ como uma de suas frentes de inovação. 

Os números não permitem afirmar que toda presença de pessoas mais velhas represente protagonismo ou poder de decisão. Mas ajudam a deslocar o olhar: pessoas 60+ aparecem no ecossistema não somente pelo que necessitam, mas também pelo que fazem, sabem, constroem e aportam à sociedade.

Esse é um dos fundamentos da Nova Longevidade: compreender vidas mais longas a partir da possibilidade de contribuição ao longo de toda a vida. Em vez de concentrar o olhar apenas nas necessidades associadas à velhice, o paradigma propõe criar condições para que pessoas possam continuar aprendendo, trabalhando, cuidando, participando, liderando e contribuindo em diferentes momentos de suas trajetórias.

Essa perspectiva também orientou um dos princípios de design produzidos a partir das experiências mapeadas: “Trocar participação para pessoas idosas por poder de ação com pessoas idosas.”

Entre as iniciativas destacadas nessa frente estão experiências muito diferentes entre si. O BairroComVida, em São Paulo, coloca pessoas 60+ como agentes de desenvolvimento local; o Fórum Nacional das Mulheres Envelhecentes e Idosas transforma experiências de mulheres 50+ em organização coletiva, defesa de direitos e participação na agenda pública; a APARG, em Berilo (MG), coloca mulheres mais velhas no centro da preservação da tecelagem tradicional, da produção econômica e da transmissão de conhecimentos do território; e o Instituto Makambira desenvolve capacidades para participação qualificada de pessoas idosas em conselhos, fóruns e outros espaços de cidadania. 

Longevidade é uma agenda de todas as gerações

O protagonismo 60+ não aparece isolado. 89,86% das organizações promovem interação entre diferentes gerações e 86,15% têm conexão social e colaboração intergeracional entre seus temas prioritários. Pessoas adultas aparecem entre os públicos de 61,15% das iniciativas, jovens em 35,47% e crianças em 21,62%. 

Os resultados reforçam uma compreensão da longevidade como uma transformação que atravessa o curso da vida e as relações entre gerações, e não como uma agenda restrita às pessoas que já chegaram aos 60 anos.

Essa mudança também aparece quando diferentes dimensões do Mapeamento são colocadas lado a lado: 86,15% priorizam conexão social e colaboração intergeracional; 81,42%, o combate ao idadismo e a transformação das narrativas; 65,88% atuam com Educação sobre Envelhecimento; e 41,55% apontam a dimensão cultural como sua principal dimensão de transformação sistêmica. São perguntas diferentes, mas seus resultados convergem para uma questão central: transformar o envelhecimento passa também por transformar narrativas, relações entre gerações e o reconhecimento da contribuição ao longo da vida. 

Um campo de inovação muito mais amplo do que saúde

As organizações mostram ainda a diversidade de respostas que começam a ser construídas para uma sociedade longeva. Educação sobre Envelhecimento (65,88%) é a frente de inovação mais presente, seguida por Saúde Social (61,82%), Intergeracionalidade (54,05%), Promoção de Saúde Integral (49,66%), Protagonismo 60+ (41,55%), Inclusão Digital (37,50%) e Estudos, Pesquisas e Indicadores (35,14%). Também aparecem Inclusão Produtiva, Economia do Cuidado, Educação Financeira e Acessibilidade e Mobilidade. 

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A leitura das experiências deu origem aos princípios de design para uma Nova Longevidade, que procuram transformar práticas já existentes em aprendizados que possam circular pelo ecossistema. Entre eles estão desenhar o trabalho a partir da contribuição, e não da idade; criar algo que nenhuma geração produziria sozinha; tratar conexão como infraestrutura de saúde; e desenhar o digital para participação, e não apenas para acesso.

O ecossistema já tem capacidades. Como fazê-las circular?

O Mapeamento identificou 1.409 recursos declarados pelas organizações, média de 4,76 por iniciativa. Comunidades 60+ aparecem entre os ativos de 56,42% das organizações, seguidas por conteúdo (55,74%), qualificação (54,39%), cursos e formação (53,72%), metodologias (51,01%) e redes (49,32%). 

Os dados mudam a pergunta: além de identificar aquilo que ainda precisa ser criado, é necessário entender como fazer capacidades que já existem circularem e se complementarem.

Essa questão se torna especialmente relevante porque o ecossistema já é conectado. 65,88% participam de grupos de WhatsApp sobre longevidade, 45,95% integram redes acadêmicas ou universitárias e 44,93% participam de redes de impacto social. Ainda assim, 35,47% apontam a colaboração entre setores como a principal barreira para o desenvolvimento do ecossistema. 

O desafio que emerge é, portanto, transformar conexão em colaboração — e capacidades distribuídas em capacidade coletiva de transformação.

Um mapa que continua crescendo

O Mapeamento foi concebido como uma infraestrutura viva. A chamada permanece aberta para que novas organizações e iniciativas possam entrar no mapa, ampliando a diversidade de atores, territórios e experiências que compõem o campo da longevidade no Brasil.

Os dois primeiros reports da série, “Um Ecossistema em Movimento” e “Princípios de Design para uma Nova Longevidade”, já estão disponíveis gratuitamente no site do Lab Nova Longevidade. A apresentação do Mapeamento também registra a continuidade da chamada para novas iniciativas.  

⁠Acesse o Lab Nova Longevidade e conheça o Mapeamento 2026: https://www.labnovalongevidade.org

(*) Marília Duque –  Doutora em Comunicação e Práticas do Consumo pela ESPM São Paulo com a tese “Homo resiliens” sobre os impactos da tecnologia mobile para saúde e envelhecimento em São Paulo. Pesquisadora brasileira do estudo global ASSA –Anthropology of Smartphones & Smart Ageing, coordenado pela University College London (UCL) e financiado pelo European Research Council (ERC). Autora do livro “Ageing with Smartphones in Urban Brazil: a work in progress” e co-autora do livro “The Global Smartphone”, publicados pela UCL Press. Pesquisadora-fundadora do LiteraCity, laboratório de pesquisa aplicada sobre impacto das literacias digitais para o consumo e a cidadania no envelhecimento.


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