Mais do que um momento de celebração da existência lésbica e reivindicação da visibilidade, o 29/8 reflete também a importância da luta por políticas públicas, dignidade e bem-viver.
Sarah Ryanne Sukerman Sanches (*)
No dia 29 de agosto, comemorou-se o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, data em que ocorreu o 1º Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), na cidade do Rio de Janeiro, em 1996. O encontro foi organizado pelo Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro (COLERJ), fundado um ano antes, e debateu, nesse primeiro seminário, temas como saúde sexual, cidadania e trabalho. Desde então, mais do que um momento de celebração da existência lésbica e reivindicação da visibilidade, o 29 de agosto reflete também a importância da luta por políticas públicas, dignidade e bem-viver, marcado por uma agenda diversa de encontros, iniciativas e atividades políticas e artístico-culturais em território nacional.
Movimento social e iniciativas culturais como espaços de trocas intergeracionais
Na longa trajetória das mobilizações políticas de lésbicas e mulheres bissexuais no Brasil, emergentes de forma organizada desde a ditadura militar, os movimentos sociais e encontros políticos de articulação e formação, assim como eventos culturais, têm sido espaços preciosos de trocas intergeracionais. São nesses encontros que, em exercícios de memória e continuidade, se constroem redes, alianças e trocas afetivas entre lésbicas jovens e mais velhas, através da partilha de histórias, saberes, dores e vitórias pessoais e coletivas.

Amélia Maraux, à esquerda, e Zuleide Paiva, à direita, ambas de branco, homenageadas em reconhecimento às suas contribuições à comunidade lésbica durante a 4ª Conferência Estadual LGBTQIAPN+ da Bahia. Foto: Arquivo pessoal.
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Amélia Maraux, 62 anos, professora universitária, ativista da Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), ressalta a importância política da identidade lésbica e a dimensão afetiva dos espaços políticos coletivos: “Eu me posiciono a partir de uma perspectiva feminista, antirracista, anticapitalista, antiheteronormativa e, portanto, a minha lesbianidade ela tem um posicionamento, é uma lesbianidade política. Óbvio que ninguém faz nada sozinha, e ter redes de apoio, estar articulada, estar junto de outras lésbicas é maravilhoso”.
Junto com a sua companheira Zuleide Paiva, 64 anos, professora universitária e ativista da LBL, Amélia Maraux tem cumprido um importante papel na articulação entre universidade e movimentos sociais, através de projetos de extensão, rodas de conversa e outras iniciativas, como o Enlesbi – Encontro de Lésbicas e Mulheres Bissexuais da Bahia (@enlesbi), fundado por ambas. Este ano, o encontro que ocorre anualmente desde 2013 em Salvador (BA), reunindo mulheres do interior do estado e da capital, comemorou a sua 10ª edição, com a participação de mais de 70 mulheres, com idades entre 18 e 72 anos, e debateu, entre outros temas, a maternidade e avosidade lésbicas, além das relações intergeracionais.

Roda de abertura da 10ª Edição do Enlesbi. Foto: Renata Argôlo.
“É provado todos os dias que o amor é um direito inalienável, que o desejo não tem prazo de validade, nem ser quem se é, sem pedir desculpas. Essa é talvez a mais bela herança que podemos deixar para vocês mais jovens, que vieram depois de nós: viver, viver lésbica sapatão”, falou Zuleide Paiva na roda de conversa sobre envelhecimento lésbico e bissexual, que contou ainda, entre outras, com a presença de Lenny Blue, 72 anos, advogada, ativista e uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU), importante voz no combate à invisibilidade das velhices negras e ao racismo que acomete esses corpos.
Ao falar sobre a importância das trocas entre lésbicas de diferentes gerações, Carmen Lúcia Dantas, 79 anos, museóloga e pesquisadora da cultura alagoana, lembra ainda que a longevidade lésbica carrega uma herança de experiências e, ao mesmo tempo, a necessidade constante de renovação: “Trazemos na nossa história pessoal um acervo de conhecimentos e vivências que podemos usar como moeda de troca nas relações sociais, afetivas e profissionais, mas renovar-se, rever conceitos, quebrar tabus, descolonizar princípios e conviver com a juventude é fundamental”.
Foi também com esse propósito que, ao lado da companheira, Cíntia Ribeiro, 57 anos, jornalista e pesquisadora, e em parceria com o Documentadas (@documentadas), Carmen Dantas fundou o projeto Fala, Bolacheira! (@bolacheiralab), espaço de escuta, afeto e afirmação da cultura lésbica no estado de Alagoas. Lançado este ano, o projeto contou com exposição fotográfica, música, rodas de conversa e intervenções urbanas. “Um espaço voltado para mulheres que amam mulheres, a fim de discutir visibilidade, direitos e não violência, assim como criar um espaço de diálogo e uma rede de apoio para que mulheres que amam mulheres não se sintam sozinhas”, afirma Cíntia em vídeo de divulgação no Instagram.

Cíntia Ribeiro em fala durante o Fala, Bolacheira!. Foto: Divulgação/Instagram (@bolacheiralab).
O envelhecimento como pauta política
O envelhecimento da população LGBTQIA+ tem ganhado espaço no debate público, em pesquisas científicas e na luta por políticas públicas. Este ano, a Parada da Diversidade em São Paulo, ocorrida em julho, teve como tema “Envelhecer LGBT+: Memória, Resistência e Futuro”, levando às ruas a bandeira do orgulho e do envelhecimento; a Parada do Orgulho na Bahia, que ocorrerá em setembro, segue os mesmos passos e conta com a temática “Envelhecer sem vergonha, com orgulho!”, apenas para mencionar dois exemplos.
Para além das ruas, associações sem fins lucrativos, como a Eternamente Sou, fundada em 2017, com o objetivo de acolher e levar dignidade a pessoas idosas LGBTQIA+, ou ainda o projeto LGBT+60: Corpos que Resistem, do jornalista Yuri Alves Fernandes, que documenta, desde 2019, as narrativas de vida de pessoas sexualmente dissidentes com mais de 60 anos, têm cumprido importante papel para a visibilidade, acolhimento e memória dessas subjetividades, tornando as suas trajetórias acessíveis às novas gerações.
Essas vozes ecoam e reforçam a importância de se pensar o envelhecimento da população LGBTQIA+ como um todo, mas é preciso lembrar que cada grupo da sigla possui suas próprias especificidades, lidando com diferentes adversidades e expressões de preconceito ou invisibilização. Quando falamos sobre o envelhecimento lésbico, falamos sobre o combate à misoginia, ao sexismo, à lesbofobia e ao idadismo, sem esquecer outras formas de violência que podem atravessar a vida de lésbicas mais velhas, como o racismo e o capacitismo. Assim, envelhecer sendo lésbica significa lidar com especificidades muitas vezes apagadas, que envolvem também o acesso à saúde, ao lazer e à cultura, a redes de apoio e espaços seguros.
Entender a lesbianidade como algo constitutivo da subjetividade de mulheres lésbicas e não apenas uma preferência afetivossexual, tendo em vista que a sexualidade também reflete em outras dimensões da vida social, como o trabalho, a cidadania, as relações familiares, a saúde, entre outros, é de fundamental importância e tem sido um dos pontos-chave da luta lésbica feminista por visibilidade.
Como ressalta Amélia Maraux ao falar sobre o seu processo de se assumir lésbica publicamente: “Quando eu assumi um amor lésbico, um amor sapatão, eu assumi isso para a minha vida. Então, eu fui uma estudante sapatão, sou uma professora sapatão, uma gestora sapatão, todos os lugares onde estou, assim eu me posiciono”. E complementa: “É óbvio que isso não é fácil, a gente enfrenta a lesbofobia institucional, o lesboódio institucional, mas também a gente produz o outro lado: a beleza de ser livre. E ser livre é fundamental à vida!”.
Envelhecer sendo lésbica: na luta por visibilidade e políticas públicas
Embora a liberdade de existir sendo quem se é seja de fato fundamental à vida, ser empurrada de volta ao armário — ou nele permanecer — na velhice é, ainda hoje, a realidade de muitas lésbicas idosas, condição que pode ter impactos profundos sobre a saúde física e mental dessas mulheres. No acesso a serviços de saúde, por exemplo, a invisibilização da sexualidade lésbica gera efeitos particularmente danosos: quando a orientação sexual é omitida ou ignorada, comprometem-se o acolhimento, a qualidade do atendimento e, muitas vezes, a própria continuidade do cuidado.
Diante disso e de outros processos de invisibilização e discriminação que acometem lésbicas idosas, pensar o futuro exige que políticas públicas as incluam de forma explícita — seja na saúde, na cultura, na assistência social ou na proteção contra o idadismo e a lesbofobia. Para tanto, é fundamental escutá-las: as que seguem pulsantes nos movimentos sociais, contribuindo ativamente para lutas coletivas, e também aquelas que, mesmo longe dos espaços de militância, enfrentam a invisibilização, o preconceito e a discriminação cotidianamente.
É nesse horizonte que o projeto Envelhecer sendo lésbica (@envelhecersendolesbica) se insere: resgatando narrativas de vida de lésbicas 60+ e trazendo-as à luz como parte da pauta do envelhecimento feminino e LGBTQIA+. Ao visibilizar essas trajetórias, o projeto reforça a importância de reconhecer experiências de mulheres mais velhas que amam mulheres — memórias de luta, vida, amor e resistência — e de compreender que garantir direitos só é possível quando se conhece, em primeira pessoa, as vidas e demandas daquelas que deles necessitam.
Entre memória e futuro, a visibilidade lésbica segue sendo o direito de existir em liberdade e com dignidade em todas as idades — um direito conquistado e sustentado pelas lutas políticas e sociais. Lutas que foram abertas pelas que vieram antes de nós e que, há muito, nos ensinam a importância de resistir à lesbofobia em todas as suas formas, incluindo o idadismo, que insiste em invisibilizar e desvalorizar as mais velhas.
A velhice, longe de ser apenas sinônimo de adoecimento, é uma etapa tão rica, diversa e potente quanto qualquer outra. É fruto de uma vida inteira de aprendizagens, experiências e afetos, ainda que seja também marcada por desafios. Como lembra Carmen, “a velhice é um privilégio, sobretudo se mantivermos a saúde em dia. Mas, no convívio social, ser velha e lésbica traz uma carga de dificuldades que temos que enfrentar com sabedoria, coragem e visibilidade”. E Amélia reforça: “Ser uma lésbica visível depois dos 60 só é possível quando a gente encara a invisibilidade, o lesboódio e a lesbofobia”.
Convidadas a deixar um recado às mais jovens, ambas convergem: é preciso viver com intensidade, encarar a vida de frente e gozar cada instante porque tudo passa.
(*) Sarah Ryanne Sukerman Sanches é Jornalista (DRT 6176/BA). Mestranda em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM/UFBA). Especialista em Gênero, Raça/Etnia e Sexualidades na formação de Educadores/as (UNEB). Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo (UFRB). Pesquisa a existência lésbica e questões geracionais, com foco no envelhecimento de mulheres que amam mulheres. É idealizadora do projeto de pesquisa e website “Envelhecer sendo lésbica”, que contam com o apoio do Itaú Viver Mais e do Portal do Envelhecimento e Longeviver, no âmbito do Edital Acadêmico de Pesquisa. E-mail para contato: sarahrssanches@hotmail.com.
Foto destaque: Carmen Lúcia Dantas durante atividade realizada no Fala, Bolacheira! Divulgação /Instagram (@bolacheiralab).
