A dualidade do cuidar

A dualidade do cuidar

O grande desafio do cuidar talvez seja compreender que o cuidado não se limita a oferecer estrutura, mas a criar presença — com escuta, respeito e acolhimento.


Cuidar é um ato para além da técnica. Requer presença, escuta e percepção diante do outro. Envolve tempo, vínculo e, sobretudo, empatia. No cotidiano da atenção básica, esse manejo ganha várias formas — aparece no olhar de um familiar, na dedicação de um cuidador, e principalmente na pessoa idosa que recebe o cuidado.

Proponho, a partir da minha experiência como terapeuta ocupacional na atenção básica, em atendimentos com familiares, cuidadores e pessoas idosas, uma reflexão no tocante a relação entre cuidado e cuidador.

Este texto apresenta um breve olhar acerca de quem cuida e quem é cuidado, convidando à reflexão sobre as diferentes formas de cuidar e seus possíveis desdobramentos.

Geralmente o seguinte dito popular ecoa nos meus atendimentos:

– “Uma mãe cria cinco filhos, mas cinco filhos não cuidam de uma mãe.”

Esse dito popular carrega uma sabedoria e expõe uma realidade nua e crua das relações familiares. Pondero que esse cuidado geralmente fica sobre um ou duas pessoas, mas há exceções.

Essa frase, que tantas vezes reverbera ao longo da minha trajetória profissional, carrega uma verdade evidente, silenciosa e recorrente nas relações de cuidado. E entre o eco desse dito popular, também escuto expressões como:

– “Tenho medo de envelhecer e ficar doente. Prefiro morrer — não tenho quem cuide de mim. Meus filhos são egoístas.”

Essas falas me fazem refletir sobre o quanto precisamos aprender a ser cuidados. Sabemos que nossa sociedade envelhece de maneira exponencial e cada vez mais temos pessoas idosas cuidando de pessoas idosas.

Observo também na minha prática um modo operacional recorrente, onde cada filho assume um papel diferente no cuidado familiar, há o que contribui financeiramente e se sente satisfeito com isso; o que assume o cuidado direto, organizando a rotina, a alimentação, a medicação e a higiene; e aquele que, por já enfrentar muitos problemas pessoais, acaba sendo poupado.

Entre tantas variações possíveis, cada família constrói sua própria dinâmica de cuidado — nem sempre equilibrada.

Mas quero discorrer sobre o cuidador diretamente envolvido, aquele que vive o cuidado no cotidiano, com todas as suas exigências e ‘’afetamentos’’.

Quais são suas expectativas? Quais batalhas ele enfrenta? Quais situações exigem mais empatia? E, sobretudo, como equilibrar o que precisa ser feito com o que a pessoa idosa deseja?

Dentre as diversas formas de cuidado vou me deter a duas possíveis maneiras:  o cuidado que dialoga e o cuidado que impõe. Explico melhor.

Vejo, com frequência, situações em que o cuidado é orientado por protocolos, não por escuta ativa.

Um exemplo comum ocorre na reabilitação: o cuidador contrata o profissional, o contrato é cumprido, mas o atendimento segue um roteiro rígido — séries, repetições, cargas — sem considerar a manifestação da pessoa idosa.

A justificativa é “estimular”, “recuperar a massa magra”, “manter o corpo ativo”.

Mas a pessoa idosa, muitas vezes, está exausta, com dor e desânimo, como se corresse contra o tempo. Além da dor física, sente a dor da invalidação — a de não ser ouvido nem percebido. À noite, toma o analgésico, a dor do corpo ameniza, mas a dor de não ter suas demandas validadas permanece.

Ressalto que o corpo fala: expressões faciais comunicam, gemidos comunicam, irritabilidade comunica. Inclusive o silêncio comunica. Dito isso, o cuidado precisa estar alinhado ao perfil e à história de vida da pessoa idosa.

A reabilitação, a alimentação e os estímulos cognitivos devem respeitar quem ela é — seus hábitos, suas preferências, suas memórias, suas crenças, seus valores morais.

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Alguns casos

Parece simples, mas na prática, esse respeito é o que mais se perde. Trago alguns exemplos de consultório:

Certa vez, atendi uma família em que estavam presentes a pessoa idosa e sua filha.

A filha, ao assumir o cuidado, tentou impor novos hábitos “saudáveis”. A mãe, acostumada a dormir ouvindo rádio, mantinha esse costume desde sempre, mas a filha acreditava que as ondas magnéticas fariam mal ao cérebro e decidiu retirar o rádio do quarto.

Aquela pequena mudança, aos olhos da filha, parecia um gesto de cuidado; para a mãe, significou perda de autonomia e ter o seu costume interrompido de forma impositiva.

Em outra situação, que vivencio na prática terapêutica são os conflitos com as questões alimentares.

Alguns filhos/cuidadores, influenciados por novas teorias alimentares, passam a acreditar que o trigo e a lactose fazem mal e decidem mudar toda a dieta das pessoas idosas. No entanto, essas pessoas comeram pão e tomaram leite a vida inteira e repentinamente são forçadas a abrir mão desses alimentos para atender às expectativas dos filhos.

Mais uma vez, a voz se cala – o desejo e a autonomia são ignorados.

Também acompanhei casos de idosos com mobilidade reduzida, dependentes do cuidador para sair de casa. Nem sempre o desejo sobre para onde quer ir é considerado.

Lembro de uma senhora que queria ir à igreja, mas a família insistia que ela fosse à academia.

Ou da idosa que adorava ir ao mercado, especificamente no setor de queijos, mas o filho preferia levá-la ao shopping.

Em todos esses exemplos, o cuidado se confundia com imposição e acabava se afastando do que a pessoa idosa realmente desejava e por receio de retaliações, raramente expressa sua discordância.

E qual seria o cuidado que dialoga?

Penso que autonomia e empatia são fortes aliados para um fazer cuidadoso mais respeitoso, positivo e digno. Já a imposição e a prática de protocolos pré estabelecidos criam relações negativas, frias e desgastantes.

Compreendo que nas relações de cuidado, muitas vezes a forma como o idoso deseja ser cuidado acaba ficando em segundo plano: o ritmo acelerado do dia a dia, os compromissos e preocupações cotidianas, o medo de reconhecer e lidar com a fragilidade dos nossos familiares gera desconforto emocional, para não sentir tanto, acabamos automatizando comportamentos e formas de cuidar. Cada tarefa imposta se transforma em uma batalha e, consequentemente, aumenta a sobrecarga do cuidador, que, na tentativa de ser resolutivo, acaba tornando o cuidado excessivamente denso.

Sabemos que mudar rotinas exige força, empenho e constância. E sabemos, também, que há barreiras de todos os tipos — arquitetônicas, atitudinais, sociais, financeiras e emocionais — que tornam esse processo ainda mais complexo. Para além das mudanças externas o que podemos fazer hoje dentro das nossas possibilidades e ações?

O grande desafio talvez seja compreender que o cuidado não se limita a oferecer estrutura, mas a criar presença — com escuta, respeito e acolhimento.

Talvez o medo de envelhecer que muitas pessoas verbalizam venha justamente da dificuldade que ainda temos em lidar com a dependência e exercitar papel de cuidar e se permitir ser cuidado.

Para finalizar, acredito que a empatia seja uma forma de acolher as dualidades inerentes a vida humana – entre o objetivo e o subjetivo, o ideal e o real, o que se deseja e o que é possível fazer. É com esse olhar empático que convido você a compreender a si  mesmo e ao outro, orientando nossas condutas nos diferentes papeis que exercemos,  seja no campo profissional, familiar ou social.

Foto de Kampus Production/pexels.


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mulher adulta vestindo blusa azul e sorrindo pra foto
Suhaila Harati

Suhaila Harati das Neves é Terapeuta Ocupacional, mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP, pós graduação em Terapia Ocupacional aplicada a Neurologia pelo Einstein, atuante no SUS- Atenção Primária. Colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: su_to2002@yahoo.com.br

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Suhaila Harati das Neves é Terapeuta Ocupacional, mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP, pós graduação em Terapia Ocupacional aplicada a Neurologia pelo Einstein, atuante no SUS- Atenção Primária. Colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: su_to2002@yahoo.com.br

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