Papp se dedica a explorar os ciclos da vida, abordando a delicada transição da juventude para a vida adulta, pois é preciso crescer e envelhecer.
Luccas Papp, professor, ator e diretor teatral, transita pelos palcos e pela TV, trilhando um caminho artístico singular e impulsionado por uma incessante busca por questionamentos. Sua jornada, que o levou a cursar Filosofia para aprofundar suas reflexões sobre o mundo, é a base de uma obra vasta e multifacetada. Com mais de 20 peças autorais, Papp se dedica a explorar os ciclos da vida, como visto em “Forever, a Última Noite”, onde aborda a delicada transição da juventude para a vida adulta. Recentemente, essa temática ganha uma nova roupagem com a disruptiva peça “Peter Pan: É preciso crescer”, que provoca uma ponderação cuidadosa sobre a inevitabilidade do amadurecimento.
Em “Peter Pan”, Papp dialoga diretamente com o arquétipo junguiano do Puer Aeternus, a criança eterna. Enquanto esse arquétipo pode ter um lado negativo ligado à imaturidade, Luccas parece abraçar e potencializar suas características mais positivas: a criatividade e a liberdade. Essa imaginação transborda, e é nesse universo de infinitas possibilidades que Papp realiza seus “voos”, guiado por uma espécie de Sininho interior e, como ele mesmo afirma: “Sem atalhos!”.
Essa conversa sobre o amadurecimento e a busca incessante de Luccas Papp nos convida a parar para pensar sobre a crucial integração do puer e do senex — ou seja, os aspectos da criança e da sabedoria em nós. O arquétipo de Peter Pan, frequentemente associado à magia da juventude e à liberdade, é, na verdade, multifacetado, com luz e sombra. No seu lado mais brilhante, ele nos convida a abraçar a imaginação, a criatividade e a espontaneidade, qualidades essenciais para uma vida plena e inovadora. É a faísca que nos permite sonhar, explorar novas possibilidades e manter um senso de curiosidade. No entanto, a sombra de Peter Pan se manifesta na recusa em amadurecer, na dificuldade em assumir responsabilidades e no medo de enfrentar os desafios da vida adulta.
E o que acontece se negarmos a passagem para a velhice? Para Jung, perderíamos a oportunidade primordial de nos tornarmos plenamente “si”, de alcançar a individuação, não se tratando de individualismo, mas de um caminho para a totalidade e a autenticidade.
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No palco da vida, com uma alusão ao psicodrama, Luccas compartilha conosco suas percepções e experiências.

Aquecimento específico
Silmara: Você fez uma nova versão teatral de Peter Pan, a peça “É preciso crescer”. Imagine um rito de passagem que auxilie Peter Pan a transcender a eterna juventude e abraçar a vida adulta. Qual seria ele?
Luccas Papp: Acredito que o rito de passagem do Peter seria justamente olhar para trás e perceber que os momentos mais bonitos da infância não foram aqueles em que tudo era fácil, mas os que doeram um pouco e, mesmo assim, deixaram marcas bonitas. Para crescer, Peter teria que enterrar uma memória feliz. Não para esquecê-la, mas para entender que ela pertence ao passado, e que o tempo, quando respeitado, também pode ser afeto. Esse gesto simbólico o permitiria seguir.
Dramatização
No teatro, a eterna juventude de Peter se choca com a dura verdade de que é preciso amadurecer, convido-o a imaginar o seguinte: “Ao final de uma apresentação, você vê o público. Eles se levantam, e nos olhos deles, o que você escuta e sente despertado por sua obra? Qual ‘Peter Pan interior’ eles são convidados a confrontar e, talvez, a libertar para o crescimento, ecoando aquilo que você, em seu processo criativo, já percebeu ser o grande convite da peça sobre o envelhecimento e a passagem do tempo?”
Vejo olhos marejados. Não por tristeza, mas por reconhecimento. A peça toca num lugar íntimo, onde o público se depara com o próprio desejo de parar o tempo, de segurar tudo com força, como se fosse possível congelar o que é bom. Mas há beleza em deixar ir. Acredito que cada espectador encontra o seu Peter Pan interior: às vezes, um que se recusa a crescer por medo; outras, um que não quer desapontar ninguém. E a peça, com leveza e emoção, o convida a abrir a mão da ilusão de controle e se jogar no desconhecido com coragem.
Diante da imortalidade solitária de Peter Pan — essa condição singular de permanecer imutável enquanto tudo ao redor envelhece e se despede — em um solilóquio: Imagine-se sozinho em um palco, sob um foco de luz, e vocalize: Quais ecos dessa solidão ressoam em você?
“Se ninguém envelhece comigo, quem vai lembrar quem eu fui de verdade? Talvez a eternidade seja só o eco da ausência. Se tudo que amo vai embora, então de que adianta ficar?” Talvez crescer não seja o fim, seja só o reencontro com quem a gente ainda pode ser.
Nesta peça, o cerne da narrativa se revela: o chamado de Peter Pan é, agora, cuidar do planeta e do futuro. Essa visão é impulsionada pela ideia de um ego que se transforma do “eu” para o “nós” – um Peter Pan que abraça a responsabilidade coletiva pelo bem-estar do planeta e das gerações futuras. Na transição para se transformar nesse guardião, o que Peter precisou conscientemente permitir que “morresse” internamente?
Peter precisou deixar morrer a ideia de que ele era o centro da própria história. Precisou abandonar o ego encantado com sua própria liberdade e compreender que liberdade sem responsabilidade vira descuido. Morreu, dentro dele, o desejo de brincar para sempre. Mas nasceu algo maior: a vontade de preservar o que é bonito para que outros também possam brincar.
Considere o paralelo entre a tentativa de Peter Pan de manter Wendy e os Meninos Perdidos na Terra do Nunca, sem crescer, e o apelo constante da nossa sociedade para não envelhecer. Esse apelo social para a “Eterna Juventude” se materializou no aqui e agora como uma figura diante de você. Como ela se apresenta e o que você diz pra ela?
Ela se apresenta como uma influencer digital, sem idade, sempre sorrindo, sempre feliz. Um filtro bonito, mas irreal. Eu olho nos olhos dela e digo: “Eu te entendo. Você só quer ser amado para sempre. Mas o amor real não exige juventude eterna. Exige presença. E estar presente inclui envelhecer.”
Imagine que você tem a capacidade de voltar no tempo e sobrevoar o período da sua própria transição da adolescência para a vida adulta. Nessa perspectiva elevada, o que vê lá de cima? Teve algo que foi difícil de desapegar?
Vejo um garoto curioso, apaixonado por histórias, mas com medo de não ser suficiente. Foi difícil desapegar da ideia de que crescer significava “ter todas as respostas”. Hoje sei que crescer é, na verdade, aceitar que algumas perguntas vão nos acompanhar para sempre, e tá tudo bem.
Com seus 32 anos, você percebe a passagem do tempo de forma mais presente em sua vida? Existem momentos ou sentimentos que o remetem à ideia de que está envelhecendo?
Sim, e é bonito perceber. No modo como olho para trás, com mais ternura do que culpa. Me sinto envelhecendo quando vejo os mais jovens chegando com força e, ao invés de competir, quero acolhê-los. Isso é novo. Isso é bonito.
Isso que você descreve vemos em seu projeto vivo, em sua escola de teatro Epílogo Companhia Teatral, onde você se torna um facilitador. Agora, feche os olhos por um momento e se veja de volta aos seus 21 anos, no processo de criação da peça O Ovo de Ouro, que tinha como narrativa o Holocausto. Qual foi sua referência para desenvolver um personagem velho dentro desse cenário?
Minha maior referência foi o silêncio dos sobreviventes. O que não se diz. Aquilo que permanece no corpo mesmo quando não é verbalizado. Criei um velho com olhos gastos, mas não apagados, como se ainda vivessem mil histórias, todas ao mesmo tempo. Um homem que não envelheceu pelo tempo, mas pela dor.
Imagine que sua “Carreira Artística” e o “Tempo que Envelhece” (ciclos da vida) são duas entidades que podem conversar. Por um momento, assuma o papel da sua “Carreira Artística”. O que ela diria ao “Tempo que Envelhece” sobre como a ajudou a moldar a percepção do Luccas?
Você me ensinou a respirar. No início, eu corria para provar algo. Hoje, eu crio com mais escuta, mais entrega. O Luccas aprendeu que profundidade exige tempo, e que amadurecer não significa perder o brilho, mas ganhar raiz.
Agora, mude de papel e torne-se o “Tempo que Envelhece”. O que ele responderia a ela nessa interação que ela proporcionou a Luccas?
E você me mostrou que o tempo só vale a pena quando há arte dentro dele. Que envelhecer sem expressão é definhar. Mas com arte, é florescer de outro jeito.
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Como foi parar pra pensar sobre seu processo de envelhecimento?
Foi um susto e um alívio. Um susto porque, por muito tempo, eu me agarrei à ideia de juventude como sinônimo de potência. E um alívio porque descobri que a potência real está na continuidade. Pensar sobre o envelhecimento me trouxe mais presença. Não quero ser eterno. Quero ser inteiro, enquanto for.
Fotos: Créditos a Erik Almeida.
Serviço
Instagram: @ciaepilogo
@luccaspapp
