As quedas possuem causas múltiplas e geralmente resultam da interação entre fatores físicos, clínicos, comportamentais e ambientais.
Prevenção de quedas na velhice: por que este tema é importante?
O envelhecimento populacional é uma das maiores conquistas da sociedade contemporânea. No entanto, viver mais também traz novos desafios para a promoção da saúde e da qualidade de vida. Entre esses desafios, a prevenção de quedas ocupa lugar de destaque, pois as quedas representam uma das principais causas de lesões, hospitalizações, perda de funcionalidade e redução da autonomia entre pessoas idosas.
Embora muitas vezes sejam consideradas eventos acidentais, as quedas podem ter consequências importantes para a saúde física, emocional e social. Além de fraturas e lesões, elas podem gerar medo de cair novamente, insegurança para realizar atividades cotidianas, isolamento social e dependência de familiares ou cuidadores. Conforme destacam Kalache, Veras e Ramos (1987), o envelhecimento populacional exige que os sistemas de saúde ampliem seu foco para ações preventivas, capazes de preservar a independência e a participação social das pessoas idosas.
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Por que as quedas acontecem?
As quedas possuem causas múltiplas e geralmente resultam da interação entre fatores físicos, clínicos, comportamentais e ambientais. Com o avanço da idade, podem ocorrer alterações na força muscular, no equilíbrio, na marcha e nos reflexos, aumentando a vulnerabilidade a acidentes. Além disso, condições como problemas visuais, doenças crônicas, comprometimento cognitivo e uso de múltiplos medicamentos podem contribuir significativamente para o aumento do risco de quedas (Pereira & Kanashiro, 2022).
O ambiente também desempenha papel fundamental. Grande parte das quedas ocorre dentro da própria residência, em situações aparentemente simples do cotidiano. Tapetes soltos, degraus sem sinalização, pisos escorregadios, iluminação inadequada e ausência de barras de apoio em locais estratégicos são exemplos de fatores que podem favorecer acidentes. Segundo Melo et al. (2014), a identificação e a correção desses riscos ambientais constituem estratégias eficazes para a prevenção de quedas.
O papel do gerontólogo na prevenção de quedas
Diante da complexidade dos fatores envolvidos, a prevenção de quedas requer uma abordagem ampla e interdisciplinar. Nesse cenário, o gerontólogo desempenha papel fundamental por possuir formação voltada para o estudo do envelhecimento em suas dimensões biológicas, psicológicas, sociais e ambientais.
A atuação do gerontólogo vai além da identificação dos fatores de risco. Esse profissional realiza avaliações multidimensionais, observando aspectos relacionados à saúde, funcionalidade, cognição, comportamento, ambiente domiciliar, suporte familiar e participação social. A partir dessa análise, pode elaborar estratégias individualizadas de prevenção e promoção da saúde, contribuindo para a manutenção da autonomia e da independência da pessoa idosa.
Além disso, o gerontólogo desenvolve ações educativas voltadas às pessoas idosas, familiares e cuidadores, orientando sobre hábitos saudáveis, adaptação do ambiente doméstico e medidas de segurança no cotidiano. Sua atuação também inclui a participação em programas de prevenção de quedas em serviços de saúde, centros de convivência, instituições de longa permanência e projetos comunitários.
Outro diferencial importante é sua capacidade de articulação entre os diversos profissionais envolvidos no cuidado. Como as quedas possuem causas multifatoriais, o trabalho integrado entre médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos torna-se essencial. O gerontólogo contribui para essa integração, favorecendo um cuidado mais coordenado e centrado nas necessidades da pessoa idosa.
Atividade física: uma grande aliada
Entre as estratégias mais eficazes para prevenir quedas, a prática regular de atividade física merece destaque. Exercícios voltados para fortalecimento muscular, equilíbrio, coordenação motora e flexibilidade ajudam a melhorar a estabilidade corporal, a mobilidade e a confiança para realizar atividades do dia a dia.
Uma revisão sistemática realizada por Carlini Junior et al. (2021) demonstrou que programas de exercícios resistidos e atividades que estimulam o equilíbrio podem reduzir significativamente o risco de quedas entre pessoas idosas. Além da prevenção de acidentes, a atividade física contribui para a manutenção da funcionalidade, da autonomia e da qualidade de vida.
Nesse contexto, o gerontólogo pode atuar na orientação e no encaminhamento para programas de exercícios adequados às condições e necessidades de cada indivíduo, estimulando a adoção de um estilo de vida ativo e saudável.
Envelhecer com segurança é possível
A prevenção de quedas deve ser entendida como uma estratégia essencial para a promoção do envelhecimento saudável. Identificar precocemente os fatores de risco, adaptar ambientes, incentivar a atividade física e fortalecer ações educativas são medidas capazes de reduzir acidentes e preservar a independência das pessoas idosas.
Nesse cenário, o gerontólogo assume papel estratégico ao integrar conhecimentos sobre envelhecimento, saúde, funcionalidade e contexto social, contribuindo para a construção de ambientes mais seguros e para o desenvolvimento de ações que favoreçam a autonomia, a participação social e a qualidade de vida ao longo da velhice. Mais do que evitar quedas, prevenir significa garantir que as pessoas possam envelhecer com dignidade, segurança e protagonismo.
Referências
CARLINI JUNIOR, Reginaldo José et al. Benefícios da prática de exercícios resistidos na prevenção de quedas em idosos: revisão sistemática. Caderno de Educação Física e Esporte, 2021.
KALACHE, Alexandre; VERAS, Renato Peixoto; RAMOS, Luiz Roberto. O envelhecimento da população mundial: um desafio novo. Revista de Saúde Pública, v. 21, n. 3, p. 200-210, 1987.
MELO, Ruth Caldeira de et al. Fatores ambientais e risco de quedas em idosos: revisão sistemática. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 17, n. 3, 2014.
PEREIRA, Cristiana Borges; KANASHIRO, Aline Mizuta Kozoroski. Falls in older adults: a practical approach. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 2022.
Texto escrito pelos seguintes membros da ABG:
Adriana Nancy Medeiros dos Santos – Doutora em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Gerontóloga e Mestra em Gerontologia pela Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP), vinculado ao Departamento de Neurologia, e do Laboratório de Investigação Médica em Envelhecimento (LIM-66) do HC-FMUSP. É pesquisadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. É membro da International Society to Advance Alzheimer’s Research and Treatment (ISTAART) e integra a diretoria científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG).
Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH- USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Coordena Grupos de Apoio para cuidadores da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera com a condução de ensaios clínicos. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br
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