A arte da vida

A arte da vida

A quinta narrativa da velhice que trago para os leitores do Portal é de Clara, que já não está nesta dimensão, mas quem aprendi a admirar pela arte de sua vida e sua potência!


Essa é uma história muito importante e por isso talvez não caiba dentro de uma crônica, talvez nem dentro de um livro, nunca se sabe, mas farei o possível para oferecer a mais oportuna narrativa baseada na vida dela. Ela foi filha única, nasceu no berço de uma família de classe média nos anos 40 e teve a oportunidade de cursar o ensino secundário clássico, onde aprendeu latim, grego, filosofia e pode se inserir no mundo das artes. O nome dela era Clara, sim, estamos falando de passado, pois ela já não mais se encontra aqui e quem conta essa história é nada mais, nada menos, do que uma admiradora da sua trajetória.

Quando se formou no ensino secundário, começou a estudar como autodidata inglês, construía frases através do dicionário e comprava livros para entender um pouco mais sobre a língua, pois os cursos especializados na língua inglesa, na época, eram muito pouco acessíveis.

Sua mãe era uma doceira de mão cheia, e fazia os seus incríveis doces em uma bela casa na Rua Nabuco de Araújo, em Santos, casa construída e pensada pelo seu amado marido, com três quartos e uma edícula nos fundos, obra realizada diante do trabalho desse casal tão esforçado que inspirava a filha.

Clara sempre se orgulhou muito do dom de cozinhar da sua mãe, pois era um dom que ela mesma nunca teve interesse de desenvolver, apesar de saber que naquela época esse era um requisito muito importante para se casar e ter um bom futuro. Ela também tinha muito orgulho do seu pai ser um homem trabalhador, tinha um amor avassalador por ele e acreditava que jamais conseguiria amar outro homem além dele.

Quando Clara concluiu os seus estudos de inglês e se sentia em nível de proficiência da língua inglesa, decidiu agendar a sua prova de TOEFL (Test of English as a Foreign Language) para ter um diploma que comprovasse sua proficiência, seu maior desejo era se tornar professora de inglês. Dois meses de muito estudo se passaram, noites em claro e muitas dores nas mãos e de cabeça, mas ela alcançou seu grande objetivo, onde se tornou professora de inglês.

Com 21 anos, durante um baile de aniversário de uma amiga sua do colégio, conheceu o seu grande amor, no meio de muitos rostos desconhecidos, um homem charmoso e alto com um sorriso encantador se aproximou, seu desejo era uma dança com aquela dama com um lindo vestido azul bufante que encantava o salão. Seu relato era de que ao longo da dança ele tentava aproximar o seu corpo ao dela, mas era claro que não poderia, pois o certo era que mantivesse cinco dedos de distância. Aquele foi apenas o primeiro dia de uma vida longa de 57 anos de casados.

Durante a vida de casados, a jovem Clara nunca se sentiu à vontade em se restringir a ser dona de casa, por isso estudou Yoga e artes plásticas, onde chegou a se tornar instrutora de Yoga, fez grandes quadros de pintura de animais e paisagens, além de ter desenvolvido a habilidade de escrever, de forma que estudou poesia e publicou várias delas, chegou a fazer exposição de poesias e quadros.

Seu marido, o jovem Rubens, era um metalúrgico do Porto de Santos que galgou grandes passos dentro da empresa, aonde chegou logo ao topo e se tornou gerente de Recursos Humanos do maior Porto da América Latina. Essa conquista ofereceu para o casal longas conquistas para eles e seus dois filhos, Tereza e Otávio, de forma que fizeram longas viagens para diversos cantos do país e chegaram a conhecer alguns países da América Latina.

Sua vida foi permeada por grandes alegrias, mas também enormes desafios, pois quando ficou órfã de seu pai, tornou a morar na casa de sua mãe com o marido e os filhos, a fim de garantir todos os cuidados que fossem necessários. Não apenas cuidou de sua mãe, como cuidou também de alguns cunhados e cunhadas que necessitavam de apoio, de forma que tornou sua casa o grande núcleo da família de seu marido, pois sua família era muito pequena.

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Durante toda a sua vida sempre produziu artes incríveis, dividindo essa função com a de ser mãe e posteriormente ser avó, sem perder a inspiração que lhe cativava de estar junto de todos os seus alunos e admiradores do seu trabalho. Conquistou grandes amigos pela sua delicadeza, pela inspiração que oferecia com tamanho conhecimento e sensibilidade, onde não produzia sua arte em boa parte por dinheiro, mas sim pelo desejo de oferecer um legado ao longo de sua vida.

Foto de Steve Johnson/Pexels

Em 1998 descobriu que estava com a doença de Parkinson, na época ainda muito no início, diante do sintoma de tremores na mão. Seu mundo se desestabilizou naquele momento, pois o tremor na mão não poderia ser um sintoma mais cruel para quem vivia e respirava arte, mas ainda que isso tivesse abalado Clara inicialmente, ela continuou produzindo artes de outras formas, continuou trabalhando a escrita, porém a doença foi avançando ao longo dos anos, de forma que teve que abrir mão de se permanecer sendo instrutora de yoga, posteriormente seus quadros tomaram outras formas e sua escrita já não era mais compreendida. Passou a ditar para que outra pessoa escrevesse.

Durante 24 anos a doença foi lhe tirando muitos prazeres, mas um dos mais difíceis foi o prazer e a alegria de andar, quando já não tinha mais equilíbrio e nem força nas pernas e teve a necessidade de fazer uso de cadeira de rodas, seu corpo foi se enrijecendo, mas ela nunca perdeu seu maior prazer: criar arte, tanto em pincel, com artes abstratas e com escrita, através de ditados para as pessoas que cuidavam dela, a fim de proporcionar que sua mente se mantivesse viva até o fim.

Apesar de todas as suas dificuldades sempre fez questão de mostrar para todas as pessoas toda a sua potência, sua garra para viver da melhor forma, enquanto estivesse aqui, onde permaneceu realizando passeios e participando de eventos até os seus últimos dias. O último evento do qual ela participou foi o casamento de uma de suas netas, da qual se despediria, pois ela estava indo viajar para outro país a fim de fazer sua vida lá. Clara esteve presente com toda a sua família, participou ativamente desse momento tão importante e se sentiu tão plena, diante de tantos desafios que enfrentava com a doença já muito avançada. O seu último suspiro foi no dia seguinte.

Na madrugada do dia 11 de julho Clara fechou seus olhos para sempre, mas sua alma permanece viva em cada um de seus quadros, cada uma de suas poesias e na memória de todas as pessoas que tiveram o prazer de conhecê-la.

Viva a arte! Viva Clara!

Foto destaque: WW/Pexels


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Thaís Teixeira Carvalho

Formada em Serviço Social, especialista em Gerontologia. Atuou durante 4 anos em uma ILPI filantrópica e desenvolve conteúdos nas redes sociais sobre serviço social e envelhecimento. E-mail: [email protected]. Instagram: @longevamente. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/tha%C3%ADs-teixeira-carvalho-b64aa945/. Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCH9LmmAkYe1uicMQZ1L0W1Q

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