Sacudindo a Memória traz a beleza dos encontros

Sacudindo a Memória traz a beleza dos encontros

O livro “Sacudindo a Memória: tempos de tessituras intergeracionais” oferece um espaço de construção e acolhida do ser, pois considera o idoso e o jovem como seres de potência.

Jacqueline de Oliveira Moreira (*)


Envelhecer bem não é uma responsabilidade apenas do indivíduo, sendo, na verdade, necessário que diferentes atores sociais se impliquem nesse processo. Pensamos que um dos grandes desafios do envelhecimento saudável seja a relação do idoso com o tema da finitude. Como elaborar a finitude? Como manter a memória ativa, este dispositivo de acolhimento do intervalo de tempo? O envelhecimento pode esgarçar este dispositivo que é a memória. É precisos acudir a memória, então. É importante se lançar no tempo futuro restante e buscar uma inscrição de sentido. Nesse hiato de tempo se localiza o livro de Kátia Saraiva, Sacudindo a Memória: tempos de tessituras intergeracionais, pois o envelhecimento, o corpo, o tempo e as relações se encontram na tessitura, ou seja, na disposição das notas que acomodam as vozes, mas também, na tecitura, nos fios que se cruzam para formar as histórias. Corpo (voz) e tempo (fios) se entrecruzam no devir da existência.

Paul Tillich (1991), teólogo existencialista, anuncia duas formas básicas que ameaçam o ser: medo e angústia. O medo tem objeto determinado e pode ser trabalhado na relação com este foco. Já a angústia pode ser pensada como um afeto sem representação. Assim, o autor anuncia três tipos de angústia: morte, insignificância e condenação. A morte seria a ameaça decisiva ao ser, ou a morte seria o não ser por excelência. Para Tillich (1991), ser homem implica uma coragem básica de ser. Coragem, neste sentido, é um conceito ontológico, pois o autor afirma que “a coragem de ser é o ato ético no qual o homem afirma seu próprio ser a despeito daqueles elementos de sua existência que entram em conflito com sua autoafirmação essencial” (Tillich, 1991, p. 3).  A coragem de ser nos impulsiona, portanto, para além dos obstáculos, dos sofrimentos que a existência nos coloca. Assumir essa coragem de ser é enfrentar a ameaça à autoafirmação do homem. É enfrentar o vazio, o nada, que é a oposição do ser. É enfrentar, assim, o não ser.

As duas formas de afirmação ou de efetivação da coragem de ser contra a ameaça do não ser são: a afirmação do indivíduo como uma parte da comunidade e a autoafirmação do eu individual enquanto tal, apesar de todos os elementos de não ser que ameaçam sua existência. O idoso deve buscar essas duas formas de afirmação do ser. Assim, a morte, a finitude, pode ser trabalhada a partir de um contexto de acolhida, de aconchego na relação com o outro, no encontro intergeracional.

Frankl (1978) tem uma posição similar em relação à morte. Na perspectiva do autor, o horizonte da finitude apresenta para o homem o caráter único da existência. A morte, como um destino, revela que a vida de cada um é única, insubstituível e não se repete. Este encontro com o destino da finitude e da irrepetibilidade convoca a responsabilidade do homem frente ao seu existir. E a responsabilidade, a capacidade de responder por sua vida única diante o horizonte da finitude, anuncia a liberdade de escolher as posições perante esta fundamental determinação da morte. Assim, finitude, destino, irrepetibilidade, responsabilidade e liberdade se unem em uma lógica circular em que a finitude é o ponto de partida e de chegada. Ela convoca a responsabilidade e demanda do indivíduo uma capacidade de responder que se fundamenta na liberdade de escolhas diante das determinações, escolhas que se referem a posições tomadas ante as determinações biopsicossociais do existir, e que se refletem na forma de o sujeito existir e do morrer. 

Assim, podemos afirmar que o projeto/pesquisa de Katia Saraiva, Sacudido a Memória, que possibilitou a produção deste livro, oferece um espaço responsável de construção e acolhida do ser, pois considera o idoso e o jovem como seres de potência. Acreditamos que todo profissional deve olhar para o idoso como um ser de possibilidades, ou seja, considerar que existe um horizonte de possibilidades que esperam pela escolha do idoso. E entender a riqueza desta vida única, irrepetível, que pode oferecer fios para a conexão intergeracional.

Retomando Tillich (1991), é preciso envelhe-SER, ou seja, dar sentido à existência, ressignificar as perdas normais e patológicas, construir uma posição positiva diante do envelhecimento, trocar com os outros. Porque mesmo a extrema falta de liberdade física e mesmo o desespero existencial não logram privar o homem da liberdade de decidir, além e acima do presente, o que ele virá a ser no futuro. Segundo Vieira (2005), abordar a experiência existencial do envelhecer é resgatar, na pessoa do velho, o homem na sua totalidade. E identificar-se com ele.

Frankl (1978), em seu estudo sobre a doença do século XX, diz que aquela era uma época que valorizava a efemeridade, o presente, e que, nessa perspectiva, os idosos não teriam utilidade. Em contraposição a esta ideia, o autor revela que existe uma relação, um laço que vincula o idoso com nossa juventude, porque aquele representa o “patrimônio do passado” que lança luz sobre nossa própria vida presente e futura. Outro ponto radical da proposta frankliana se refere ao diagnóstico de nossa época como a era do vazio existencial e da falta de sentido. Sobre esse tema, podemos fazer duas considerações: primeiro, que a narrativa da história do idoso pode apresentar uma possibilidade de direção e sentido para mundo atual; e, segundo, que o sintoma social da falta de sentido somado ao não valor atribuído ao idoso pode colocar este sujeito em uma condição de maior vulnerabilidade no que tange à construção de novos sentidos.

Kátia Saraiva no lançamento de seu livro na Longevidade Expo Fórum 5a. Edição/2022

Nesse contexto se inscreve a pesquisa de Kátia Saraiva, que propõe, a partir da perspectiva winnicottiana, investigar a convivência entre gerações oferecendo, pois, um espaço criativo para que sujeitos idosos e jovens se enlacem nas memórias de ontem, hoje e, por que não, nas memórias do amanhã.

Sabemos que o tema do envelhecimento aumenta a responsabilidade sobre o nosso posicionamento em relação ao tempo. Como habitamos o tempo? Somos seres históricos, e o que nos permite existir é a conexão com o outro que se localiza no tempo, o qual, portanto, não é nosso inimigo. O tempo, a história e a memória oferecem a substância da existência. O fluir do tempo, ou seja, a percepção do passado e a aposta no futuro, torna a vida realizável, e toda essa dinâmica só é possível no enlaçamento com o outro. Assim, dois objetivos da intervenção junto ao idoso são: “resgatar as possibilidades humanas do envelhecimento, buscando compreendê-lo como continuidade do processo existencial do ser humano e buscar saídas autênticas, ou seja, saídas singulares, construções pessoais” (Vieira, 2005, s. p.).  Desta forma, o atributo existencial de ser-com-o-outro pode desembocar-se em outro atributo, que é também exclusivamente humano, a saber, o de ser-em-outro.

A existência humana, na concepção de Frankl (1978), possui um caráter de irrepetibilidade temporal que lhe confere sentido. Se os homens fossem todos iguais, no sentido de uma uniformidade, não lhes seria possível que possuíssem um atributo que caracterizasse e diferenciasse sua existência e que a tornasse insubstituível temporalmente. É importante ressaltar, no entanto, que a percepção do caráter único e insubstituível da existência só pode ser efetivada na experiência relacional do ser com o mundo que o circunda. Assim, é fundamental que o idoso possa viver sua vida única e se enlaçar na relação com o outro, pois assim poderá atribuir sentido singular para sua vida.

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Exposição realizada durante o projeto

Concluímos que o processo de envelhecimento não pode ser reduzido ao seu aspecto biológico. É preciso desnaturalizar o envelhecimento e considerar os aspectos psicológicos e sociais implicados nessa dinâmica da vida. A abertura para consideração dos aspectos psicológicos e sociológicos permite a percepção de que, mesmo em idade avançada, os indivíduos podem manter sua capacidade funcional, desenvolver atividades de relevância tanto para si próprios como para a sociedade, ou seja, podemos, na atualidade, adotar um novo posicionamento diante do processo de envelhecimento e manter a dignidade e condição de SER do idoso. Nesse ponto reside uma das preciosidades do livro Sacudindo a Memória: tempos de tessituras intergeracionais, uma proposta que acolhe as riquezas dos rostos sulcados pelo tempo e dos corpos jovens permitindo, pois, a troca de afetos, palavras e histórias.

Uma boa leitura!

Referências
Frankl, V. (1978). Fundamentos Antropológicos da Psicoterapia. Rio de Janeiro: Zahar.
Tillich, P. (1991). A coragem de ser (4a ed.). Rio de Janeiro: Paz e Terra.
Trentini, C. M. (2004) Qualidade de vida em idosos: a construção de uma escala de qualidade de vida para idosos – OMS. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas: Psiquiatria, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
Vieira, R. F. (2005). Aspectos Psicológicos do Envelhecimento. Material Didático. Acessado de www.ciape.org.br/matdidatico/rosana/AulaGerontologiaFev2005.ppt.

(*) Jacqueline de Oliveira Moreira – Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC Minas, doutora em Psicologia Clínica (PUC SP), bolsista Produtividade Cnpq 1D. Este texto compõe o prefácio do livro.

Serviço

Livro: Sacudindo a Memória: tempos de tessituras intergeracionais

Autora: Kátia Maria Pacheco Saraiva

Editora: Portal Edições

Ano: 2022


Da Redação Portal, em tempo
Katia Saraiva foi entrevistada pela jornalista Sandra Annenberg (@sandra.annenberg.real), para um programa do Globo Repórter sobre intergeracionalidade que irá ao ar brevemente. Aguardem!


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