Mulheres: do cuidado ao autoconhecimento

Mulheres: do cuidado ao autoconhecimento

Para muitas mulheres, envelhecer não significa deixar de cuidar, mas sim continuar cuidando, apesar do próprio envelhecimento.


Desde cedo, muitas mulheres aprendem que cuidar faz parte de quem elas são, cuidar dos filhos, do companheiro, dos pais que envelhecem, da casa, da família, dos netos. Ao longo da vida, esse papel se acumula, se naturaliza e, muitas vezes, se transforma em obrigação silenciosa. Mesmo quando envelhecem, seguem sendo vistas como aquelas que sustentam os vínculos familiares, organizam afetos e garantem o funcionamento cotidiano da vida.

Estudos sobre o ciclo de vida familiar mostram que essas expectativas não surgem de forma isolada. Ao analisar a fase do chamado “lançamento dos filhos”, Betty Carter e Monica McGoldrick evidenciam que, quando os filhos crescem e deixam a casa, muitas mulheres enfrentam uma ruptura profunda em sua identidade.

Para aquelas cuja trajetória foi fortemente centrada no cuidado, esse momento pode trazer sentimentos de vazio, perda de sentido e dificuldade de reinvenção. O cuidado, que antes organizava o cotidiano, deixa de ocupar o centro da vida, mas nem sempre surgem alternativas possíveis ou socialmente legitimadas para esse novo tempo.

Essa lógica se prolonga na velhice. Pesquisa realizada por Almeida e colaboradoras revela que o cuidado permanece feminizado mesmo entre pessoas idosas. Ou seja, muitas mulheres idosas continuam exercendo o papel de cuidadoras, especialmente de cônjuges e familiares dependentes, frequentemente sem apoio do Estado, com baixa renda e impactos diretos sobre sua saúde física e emocional. Sendo assim, envelhecer não significa, para elas, deixar de cuidar, mas muitas vezes continuar cuidando, apesar do próprio envelhecimento.

Falar de mulheres para além do cuidado é, portanto, questionar uma estrutura social que associa o valor feminino quase exclusivamente à função de cuidar. É reconhecer que o cuidado é trabalho, é fundamental para a vida coletiva, mas não pode ser o único destino possível. Mulheres têm histórias, desejos, projetos, dores e potências que não se esgotam nesse papel.

Nesse contexto, iniciativas educativas que problematizam essas trajetórias tornam-se ferramentas importantes de reflexão e transformação, como as produzidas por Ana Clara Fernandes Cruz, Clara de Castro Barroti, Fernanda Lauriano Kuboiama, Isabella Giacomini Guedes da Silva, Letícia Gomes Souza e Maria Fernanda Braconnot Nogueira de Lima. Como estudantes do curso de Psicologia da PUC-SP eles desenvolveram um infográfico educativo intitulado Mulheres para além do cuidado, um convite ao reencontro de si mesma – Extensão Desenvolvimento IV que propõe justamente ampliar o olhar sobre as mulheres, convidando à reflexão sobre identidade, envelhecimento, autonomia e possibilidades de reinvenção ao longo da vida.

Esse material educativo integra um trabalho acadêmico desenvolvido por eles ao longo do 2º semestre de 2025, conforme as orientações da disciplina Desenvolvimento IV, ministrada pela professora Flávia Arantes, com o apoio da professora Ruth Gelehrter da Costa Lopes na eletiva de Envelhecimento. A cartilha foi encaminhada pela estudante Sofia Almeida.

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Ao abrir espaço para esse debate, a proposta dos estudantes não é negar a importância do cuidado, mas retirá-lo do lugar de destino inevitável. É afirmar que mulheres, em todas as fases da vida, podem — e devem — ser reconhecidas para além das funções que historicamente lhes foram atribuídas.

Acesse aqui o material educativo na íntegra:


Referências
Carter, Betty; Mcgoldrick, Monica; colaboradores. Lançando os filhos e seguindo em frente. In: As mudanças no ciclo de vida familiar: uma estrutura para a terapia familiar. 2a ed. Porto Alegre: Artmed, 1995. Cap. 13.
Almeida, Alessandra Vieira De; Mafra, Simone Caldas Tavares; Silva, Emília Pio Da; Kanso, Solange; Doula, Sheila Maria. Perfil das mulheres idosas cuidadoras e os fatores associados à relação de cuidado. O Social em Questão, v. XXII, n. 43, p. 121–142, jan.–abr. 2019.


(*) Sob orientação de Beltrina Côrte – Jornalista, CEO do Portal do Envelhecimento. E-mail: beltrina@portaldoenvelhecimento.com.br.

Foto de Gabriel Frank/pexels.


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