Fé, memória e esperança: o encontro da Santa, da criança e do Brasil que envelhece

Fé, memória e esperança: o encontro da Santa, da criança e do Brasil que envelhece

No dia de Nossa Senhora Aparecida e das Crianças, convidamos a resgatar a fé, o respeito às diversidades e o valor da nossa história para transformar o futuro.


O dia 12 de outubro é marcado por um duplo simbolismo no calendário brasileiro: celebra-se a Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, e comemora-se o Dia das Crianças. À primeira vista, pode parecer um contraste homenagear no mesmo dia uma figura pra lá de envelhecida e a infância que desabrocha. No entanto, sob o olhar da gerontologia, esses dois universos se entrelaçam de forma profunda.

A pequena imagem de terracota, retirada das águas escuras do Rio Paraíba do Sul em 1717, carrega mais de três séculos de história e as marcas do tempo, do barro e do fogo. Ela é negra, desgastada e fragmentada – resgatada com a cabeça separada do corpo antes de ser reconstituída. Em sua estética secular, traz o reflexo das marcas que as décadas imprimem naqueles que envelhecem.

A devoção popular que se seguiu não nasceu em palácios, mas nas casas simples do país afora. Os milagres atribuídos à Santa, como o do escravo Zacarias ou o do cavaleiro ateu, simbolizam no imaginário coletivo o alívio das dores, a restauração da dignidade e a libertação de amarras.

A criança que habita o corpo velho

Por trás das rugas e cabelos brancos de quem hoje envelhece no Brasil, habita a memória da criança que um dia foi. As pessoas idosas do presente viveram sua infância em um país muito diferente, em meados do século XX – um tempo em que não existiam políticas públicas para a velhice, nem a perspectiva de se viver tanto.

Muitas dessas crianças cresceram sem o amparo de redes públicas de educação e saúde consolidadas, sem garantias de aposentadoria universal e em um cenário social de intensas privações. Elas foram formadas no trabalho precoce, na resiliência do cotidiano e no aprendizado silencioso de superação. Quando olham para o espelho hoje, carregam esse histórico: a criança do passado permanece viva dentro do corpo envelhecido, moldando seus valores, afetos e espiritualidade.

Nessa longa trajetória de vida, a religiosidade e a espiritualidade desempenham papéis fundamentais para a saúde integral. Como assinalava o neurocientista Ivan Izquierdo (1937–2021) em suas pesquisas sobre a memória, a reconciliação e a serenidade trazidas pelas práticas espirituais ajudam o cérebro a desarmar os gatilhos emocionais do estresse e da dor acumulados ao longo das décadas.

A vivência comunitária da fé, seja nas igrejas, nos terreiros de Candomblé e Umbanda, nos centros espíritas, templos ou em qualquer outra cosmovisão, cria laços de afeto e acolhimento humano que sustentam a pessoa idosa quando a vulnerabilidade física avança. Afinal, como ressaltava Izquierdo, o afeto supera qualquer medicação no bem-estar humano.

O Brasil que envelhece e as crianças do amanhã: o valor de cada voto

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Enquanto a população idosa busca envelhecer com dignidade e tolerância religiosa em um país cada vez mais plural, as crianças de hoje representam a continuidade e a promessa do futuro. No entanto, o país que oferecemos às novas gerações depende diretamente das escolhas que fazemos hoje.

Às vésperas das decisões políticas e eleitorais, a nossa responsabilidade democrática ganha contornos de urgência. Cada voto, inclusive dos 70+, depositado na urna carrega a oportunidade de desenhar um Brasil diferente daquele em que as pessoas idosas cresceram.

Votar com consciência significa escolher projetos compromissados em fortalecer a educação e o cuidado com a infância, ao mesmo tempo em que garantem a sustentabilidade das redes de proteção e assistência para o envelhecimento populacional. Defender a infância e a velhice exige rejeitar a intolerância e o preconceito. Um país acolhedor deve garantir que as crianças cresçam em um ambiente seguro, diverso, respeitoso e afetuoso, e as pessoas idosas tenham dignidade.

Assim como a imagem de Aparecida precisou ter sua cabeça e seu corpo reunidos para reatar sua inteireza, o grande milagre que o Brasil necessita não é místico, mas ético e cidadão: a união das nossas partes fragmentadas em prol da empatia, do diálogo, do bem comum e do afeto.

Envelhecer com sabedoria é reconhecer a criança que fomos, acolher a pessoa idosa que nos tornamos e votar para construir um país digno para as gerações que virão.

Foto de Jan van der Wolf/Pexels


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Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. Estudiosa do Envelhecimento e Longevidade desde 2000. Docente aposentada da PUC-SP (2001-2025). É pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE), da PUC-SP, certificado pelo CNPq. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integra, desde 2005, a Red Interdisciplinaria Latinoamericana de Psicogerontología (Redip). Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC, cursos de Comunicação Social (2006-2018). Foi associada fundadora do Olhe (Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento). Email: beltrinac@gmail.com.

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Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. Estudiosa do Envelhecimento e Longevidade desde 2000. Docente aposentada da PUC-SP (2001-2025). É pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE), da PUC-SP, certificado pelo CNPq. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integra, desde 2005, a Red Interdisciplinaria Latinoamericana de Psicogerontología (Redip). Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC, cursos de Comunicação Social (2006-2018). Foi associada fundadora do Olhe (Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento). Email: beltrinac@gmail.com.

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