“Existe um contrato da democracia com a desigualdade”

“Existe um contrato da democracia com a desigualdade”

O Brasil tem envelhecido sem ter resolvido as desigualdades sociais. Para entender melhor, leiam a entrevista de Ann Stoler que fala sobre gênero, racismo, imperialismo e governança colonial

Paula Penedo (*)


Como a desigualdade e a injustiça são produzidas e reproduzidas na sociedade contemporânea? Para a antropóloga e historiadora norte-americana Ann Stoler, isso não poderia acontecer sem o incentivo de grandes nações capitalistas e seus sistemas coloniais. Professora da New School for Social Research, de Nova York (Estados Unidos), Stoler há mais de quatro décadas pesquisa temas como imperialismo, gênero, governança colonial, epistemológicas raciais e políticas do conhecimento. No último mês de outubro, a pesquisadora esteve na Unicamp participando do 47 ° Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), no qual proferiu a palestra “Shatterzones of Inequalities” (zonas de conflitos de desigualdades, em tradução livre). Na ocasião, Stoler conversou com o Jornal da Unicamp sobre sua trajetória de pesquisa, democracia e o imperialismo hoje sustentado por grandes potências globais. Confira a seguir.

Jornal da Unicamp – Como a senhora se interessou pelos temas de colonialismo e democracia?

Ann Stoler – Uma palavra muito influente para mim é coação [duress], que se refere a suportar o peso de ser oprimido. Sabemos que a etimologia da coação é durée, resistência, mas também é algo que perdura. E é isso o que o Estado de Israel tem feito na Palestina, mas também é o que o colonialismo faz. Meu trabalho começou tentando entender o que faz com que a desigualdade não apenas exista, mas seja produzida e reproduzida.

Meu primeiro trabalho foi em Java [Indonésia], estudando a maneira como mulheres sem terra estavam perdendo ainda mais trabalho devido à revolução verde trazida pelos Estados Unidos. Grande parte do que estávamos observando era o poder dos Estados Unidos se descontrolando, mas não eram apenas os norte-americanos. Eram a Grã-Bretanha, a França, a Alemanha, Portugal…

Eu fiz esse primeiro trabalho, mas percebi que não estava perto o suficiente do “olho do furacão”, que é o capitalismo. Então eu fui trabalhar nas grandes multinacionais de borracha e de óleo de palma, viver com os trabalhadores e tentar entender como era a vida deles. Na época, compreendi que o gênero formava uma parte crucial nesse sistema, mas não era apenas o gênero. Era o fato de esses trabalhadores serem expulsos do local onde estavam, serem deslocados. Eles estavam longe de suas famílias, na periferia das plantations e sem apoio.

Trata-se de uma velha tática: espoliar as pessoas, confiná-las, colocá-las em algum lugar onde não têm apoio. É nisso que se baseia a plantation e é nisso que se baseia o colonialismo. Basicamente, foi nisso que trabalhei por cerca de 40 anos. Tentei entender como esses sistemas de desigualdade conseguem se sustentar.

JU – E quais foram as suas conclusões sobre a sustentação desses sistemas de desigualdade?

Ann Stoler – Uma enorme quantidade de pessoas se tornou fabulosamente rica nesses sistemas e um exército inteiro foi mobilizado em torno disso. Michel Foucault disse que tudo é justificado para que a sociedade seja defendida, inclusive matar. Segurança! Segurança! Segurança! Esse é o sistema imperial, esse é o sistema colonial, é o que Israel está dizendo agora. “Devemos nos defender e devemos matar, aniquilar o máximo de palestinos que pudermos.” Esse é provavelmente um dos princípios mais duradouros do poder.

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Portanto, há um grande investimento em acumulação por meio de espoliação, que é o termo que David Harvey usa. Outro princípio, citado por Rosa Luxemburgo há 150 anos, é que você só pode continuar acumulando caso se espalhe para mais e mais lugares, lugares nos quais o liberalismo será mais barato e mais explorável. Essa é a única maneira pela qual o capitalismo pode sobreviver, e eu argumentaria ser essa a única maneira pela qual a democracia pode sobreviver.

JU – Seguindo esse raciocínio, não é possível uma democracia sem desigualdade?

Ann Stoler – Talvez existam lugares, tenho certeza, mas os mais poderosos e que se autodenominam cheios de liberté, egalité, fraternité [liberdade, igualdade e fraternidade, em francês] são realmente os mais perniciosos. E nesses locais as pessoas estão muito vulneráveis porque há uma espécie de noção utópica de que, se eu melhorar um pouco, vou receber essas recompensas. Só que tão poucas pessoas têm acesso a essas recompensas… E o racismo está na base disso. O racismo não é algo que se possa simplesmente eliminar e a democracia ficará bem. Eu argumentaria basicamente que existe um contrato da democracia com a desigualdade.

JU – E como seria um sistema alternativo?

Ann Stoler – Uma revolução mundial! [risos] Um mundo virado de cabeça para baixo. Um governo que limite o máximo possível a riqueza que uma pessoa pode acumular. Talvez US$ 5 milhões, e todo o resto será distribuído. Não temos leis, não temos um único lugar que determine um limite. Por que não pode ser US$ 10 milhões, US$ 5 milhões, em vez de US$ 1 bilhão, US$ 2 bilhões, US$ 3 bilhões? Para mim, isso é obsceno, mas os governos são cúmplices do capitalismo, em absolutamente todos os lugares.

Hoje é um dia deprimente. Sabemos que, a cada minuto, crianças e bebês estão morrendo [na Palestina], hoje, agora. Não estou tentando ser dramática, mas acho que, coletivamente, precisamos encontrar alguma maneira de interromper essa insanidade. Deve haver algum tipo de respeito mínimo pelo ser humano, mas é assim que as coisas estão se desenrolando agora. Há aqueles considerados subumanos.

Leia a entrevista na integra clicando aqui.

(*) Paula Penedo escreve para o Jornal da Unicamp. Fonte: Jornal da Unicamp. Foto: print de vídeo do Youtub (Weaponizing the Senses: On Denigrations in Code – The New School for Social Research)

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